Revisão Monstro — ENEM em 77 dias
Dia 32 — 23 de setembro de 2026 — Quarta-feira — Redação
Olá amigos e alunos do blog A Escola Literária!
Chegamos ao Dia 32 da nossa Revisão Monstro — ENEM em 77 dias e hoje entramos naquela que talvez seja a parte mais decisiva de uma redação dissertativo-argumentativa: o desenvolvimento. Nas aulas anteriores, aprendemos a interpretar corretamente a proposta, delimitar o tema, construir uma introdução, formular uma tese e utilizar repertório sociocultural de maneira produtiva. Agora precisamos fazer uma pergunta fundamental: depois de afirmar uma ideia na introdução, como provamos ao leitor que ela faz sentido?
É justamente para isso que servem os parágrafos de desenvolvimento. Eles não podem funcionar como simples continuação da introdução, nem como espaços preenchidos por frases genéricas até chegarmos à conclusão. Cada desenvolvimento precisa possuir uma função clara dentro do projeto de texto: apresentar um argumento, explicá-lo, sustentá-lo por meio de raciocínio ou repertório e conectá-lo diretamente à tese defendida.
Muitos estudantes conseguem produzir uma boa introdução, apresentam dois argumentos promissores e depois começam a se repetir. Escrevem que “o problema é grave”, que “a sociedade precisa mudar” ou que “o governo deve tomar providências”, mas não conseguem demonstrar por que o problema existe, como se manifesta ou quais consequências produz. Nossa aula de hoje será justamente sobre como evitar isso.
⏳ Faltam 46 dias para o ENEM!
Hoje, 23 de setembro de 2026, faltam 46 dias para o primeiro dia do ENEM. Nossa preparação para Redação começa a entrar em uma etapa particularmente importante, porque já possuímos praticamente todo o início do texto: sabemos interpretar a proposta, planejar, contextualizar e formular a tese. A partir de agora, precisamos aprofundar aquilo que afirmamos.
Nos próximos 46 dias, uma das melhores formas de melhorar sua nota será justamente treinar desenvolvimento. Você não precisa escrever uma redação completa toda vez. Pode escolher um tema, formular uma tese e produzir apenas um parágrafo argumentativo, concentrando sua atenção na qualidade do raciocínio. Esse treinamento reduz a ansiedade diante do texto completo e permite aperfeiçoar uma habilidade específica.
O importante é perceber que argumentar não significa apenas possuir opinião. Argumentar significa construir razões capazes de sustentar aquilo que você afirma.
O que é um argumento?
Um argumento é uma ideia utilizada para sustentar uma tese. Ele responde à pergunta:
“Por que meu ponto de vista faz sentido?”
Imagine que sua tese seja:
A valorização da saúde mental entre jovens brasileiros é dificultada pelo estigma relacionado ao sofrimento psicológico e pelas barreiras de acesso às redes de cuidado.
Temos dois argumentos possíveis:
1. o estigma;
2. as dificuldades de acesso.
Até aqui, porém, possuímos apenas dois eixos argumentativos. Eles ainda precisam ser desenvolvidos.
Escrever simplesmente:
“Em primeiro lugar, existe muito preconceito em relação à saúde mental.”
não constitui um desenvolvimento completo. Essa frase apenas apresenta a ideia.
Agora precisamos demonstrar:
como esse preconceito funciona;
por que ele existe;
como afeta os jovens;
quais consequências produz;
e de que maneira está relacionado ao tema.
É esse movimento que transforma uma afirmação em argumento.
Desenvolvimento não é repetição da tese
Um erro bastante comum acontece quando o estudante acredita estar desenvolvendo, mas apenas repete aquilo que já afirmou na introdução.
Imagine:
Tese: “A desinformação dificulta a valorização da saúde mental entre os jovens.”
Depois, no desenvolvimento:
“Primeiramente, a desinformação é um grande problema para a valorização da saúde mental dos jovens.”
Temos praticamente a mesma ideia escrita de outra maneira.
O leitor ainda não aprendeu nada novo.
Para desenvolver, precisamos acrescentar raciocínio.
Uma possibilidade seria explicar que informações incorretas podem levar jovens a interpretar sintomas importantes como “frescura”, estimular autodiagnósticos ou dificultar a identificação de serviços adequados. Agora começamos a aprofundar a ideia.
Pense no desenvolvimento como uma resposta longa ao “por quê?”
Essa é uma técnica muito útil.
Escreva seu argumento.
Depois pergunte:
Por quê?
Exemplo:
A desinformação dificulta a valorização da saúde mental.
Por quê?
Porque concepções equivocadas podem banalizar transtornos ou tratar sofrimento psicológico como sinal de fraqueza.
Por que isso é um problema?
Porque jovens submetidos a esses discursos podem sentir vergonha de procurar ajuda ou não reconhecer quando precisam de apoio especializado.
Qual é a consequência?
O cuidado pode ser retardado e o sofrimento pode se intensificar.
Perceba como uma ideia inicial começa a se transformar em uma cadeia argumentativa.
Um bom parágrafo possui movimento
Um desenvolvimento consistente não apresenta uma sequência de frases independentes.
As ideias precisam avançar.
Podemos pensar em uma estrutura bastante útil:
tópico frasal → explicação → repertório ou exemplificação → análise → fechamento do argumento.
Essa estrutura não precisa funcionar como fórmula rígida. Você pode alterar a ordem, combinar etapas e desenvolver cada parágrafo de maneira diferente. Entretanto, ela ajuda muito quem ainda sente dificuldade para organizar o raciocínio.
O mais importante é que cada frase tenha relação com a anterior e prepare a seguinte.
O parágrafo precisa caminhar.
O tópico frasal
O tópico frasal costuma apresentar a ideia principal do parágrafo.
Imagine o tema:
Desafios para ampliar o hábito da leitura entre os brasileiros
Uma tese poderia apontar:
desigualdade de acesso aos livros;
fragilidade da formação de leitores.
Um primeiro desenvolvimento poderia começar:
“Em primeiro lugar, a desigualdade de acesso aos livros limita a formação de novos leitores no Brasil.”
Temos um tópico frasal claro.
O leitor já sabe qual será o foco.
Mas o parágrafo não termina aqui.
Agora começa o desenvolvimento propriamente dito.
Depois do tópico frasal, explique
Continuemos:
“Em primeiro lugar, a desigualdade de acesso aos livros limita a formação de novos leitores no Brasil. Em muitas regiões, bibliotecas públicas, livrarias e outros espaços de circulação literária são escassos, enquanto o preço de determinadas obras pode representar uma barreira para famílias de menor renda.”
Agora explicamos como o problema ocorre.
O argumento ganhou concretude.
Poderíamos avançar ainda mais:
“Essa diferença faz com que o contato frequente com a leitura dependa, muitas vezes, das condições econômicas e da infraestrutura existente no território em que o indivíduo vive.”
Perceba que não estamos repetindo a tese.
Estamos aprofundando.
Repertório entra para fortalecer, não substituir
Na aula sobre repertório sociocultural, aprendemos que uma referência precisa trabalhar dentro do argumento.
Vamos acrescentar uma.
“Em Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus registra uma realidade marcada pela pobreza e pela dificuldade de acesso a direitos básicos, mostrando como as condições materiais interferem nas possibilidades de participação cultural e social.”
Temos agora uma referência.
Mas o parágrafo ainda precisa explicar por que ela é relevante.
Poderíamos completar:
“Embora a obra esteja situada em outro contexto histórico, ela ajuda a compreender como desigualdades econômicas ultrapassam o campo da renda e influenciam também o acesso a bens culturais. Dessa forma, democratizar a leitura exige ampliar não apenas o incentivo individual, mas as condições concretas de acesso aos livros.”
Agora o repertório foi integrado ao raciocínio.
Argumento sem repertório pode funcionar?
Sim.
Essa é uma informação importante.
Você não precisa colocar uma referência famosa em todos os parágrafos para que sua argumentação funcione. Um desenvolvimento pode ser construído por causa e consequência, comparação, exemplificação, análise de situações sociais ou explicação lógica.
Imagine um tema sobre violência nas redes sociais.
Você poderia argumentar que a sensação de anonimato reduz determinados freios sociais e facilita comportamentos agressivos. Depois explicaria como a distância física entre agressor e vítima pode diminuir a percepção imediata das consequências da ofensa.
Esse raciocínio já constitui argumentação.
Um repertório poderia fortalecê-lo, mas não é ele que cria o argumento.
Repertório sem argumento não funciona
Agora imagine o contrário:
“Segundo Zygmunt Bauman, vivemos em uma sociedade líquida.”
E depois:
“Além disso, existem muitos problemas na sociedade.”
Temos um nome conhecido, mas praticamente nenhuma argumentação.
O repertório não realizou nenhuma função.
Por isso, lembre-se sempre:
o argumento vem primeiro; o repertório serve ao argumento.
Uma referência inteligente dentro de um raciocínio fraco não salva o parágrafo.
Causa e consequência
Uma das formas mais eficientes de desenvolver um argumento consiste em estabelecer relações de causa e consequência.
Imagine o tema:
Desafios para combater a desinformação na sociedade brasileira
Você poderia defender que a baixa educação midiática favorece a circulação de conteúdos falsos.
Depois explique:
Se usuários não dominam estratégias para verificar fontes, identificar manipulações e comparar informações, tornam-se mais vulneráveis a conteúdos enganosos.
Consequentemente, materiais falsos podem ser compartilhados antes de qualquer confirmação.
Agora temos:
causa → mecanismo → consequência.
Essa estrutura produz profundidade.
Argumentação por exemplificação
Outra possibilidade é utilizar um exemplo capaz de tornar a ideia mais concreta.
Imagine que você esteja discutindo educação digital.
Você poderia afirmar que a simples presença de equipamentos nas escolas não garante formação tecnológica adequada. Em seguida, apresentaria uma situação hipotética: uma escola pode possuir computadores, mas não contar com internet estável ou professores preparados para integrar essas ferramentas ao processo pedagógico.
O exemplo permite visualizar o argumento.
Mas cuidado: um caso isolado não deve ser apresentado como prova absoluta de uma realidade nacional.
Exemplos ajudam a ilustrar.
Dados e análises mais amplas ajudam a generalizar.
Argumentação por comparação
Comparar situações também pode produzir bons desenvolvimentos.
Imagine uma discussão sobre inclusão digital.
Você poderia contrastar estudantes que possuem computador individual, internet de alta velocidade e ambiente silencioso para estudar com aqueles que dependem de um único aparelho compartilhado por toda a família.
Essa comparação permite demonstrar que possuir “acesso à internet” não significa necessariamente possuir as mesmas condições de uso.
O argumento fica mais sofisticado porque você abandona uma visão binária — tem ou não tem internet — e mostra diferentes graus de acesso.
Argumentação histórica
Processos históricos também ajudam a explicar problemas atuais.
Na proposta sobre racismo no mercado de trabalho, por exemplo, poderíamos recuperar o período posterior à abolição da escravidão. O fim jurídico da escravidão não foi acompanhado imediatamente por políticas amplas capazes de garantir integração social, acesso à terra, educação e emprego digno à população negra.
Depois seria necessário estabelecer a conexão com o presente.
O argumento poderia mostrar que desigualdades não surgem espontaneamente; elas podem ser resultado de processos históricos acumulados.
História, nesse caso, explica.
Argumentação por contraste entre lei e realidade
Esse recurso é especialmente útil em temas relacionados a direitos.
Imagine:
A Constituição estabelece a educação como direito de todos.
Depois:
Entretanto, diferenças de infraestrutura, acesso e qualidade mostram que esse direito não se concretiza de maneira uniforme.
Temos uma tensão entre:
garantia formal
e
realidade concreta.
Esse contraste pode gerar um desenvolvimento forte porque permite mostrar que reconhecer juridicamente um direito não significa automaticamente garanti-lo.
Não use “falta de conscientização” para tudo
Esse é um dos argumentos mais repetidos em redações.
Quase qualquer problema pode receber:
“A falta de conscientização da população agrava essa situação.”
O problema é que a frase costuma permanecer sem explicação.
Falta conscientização sobre o quê?
Por que falta?
Que crenças ou informações estão envolvidas?
Como isso produz o problema?
Quais grupos estão sendo afetados?
Sem essas respostas, “falta de conscientização” vira uma expressão vazia.
Se quiser usar esse eixo, seja específico.
O mesmo vale para “negligência do Estado”
Outro argumento extremamente frequente é:
“O problema ocorre por negligência do Estado.”
Essa afirmação pode ser verdadeira em determinadas situações, mas precisa de desenvolvimento.
Que responsabilidade pública não está sendo cumprida?
Qual política é insuficiente?
Existe problema de fiscalização?
Falta estrutura?
Falta financiamento?
Existe legislação sem efetividade?
O argumento melhora quando você abandona o rótulo genérico e identifica qual aspecto da atuação estatal precisa ser analisado.
Evite argumentos gigantescos
Outro problema aparece quando o estudante tenta colocar tudo no mesmo desenvolvimento.
Imagine um parágrafo discutindo:
família;
escola;
governo;
redes sociais;
capitalismo;
desigualdade;
saúde;
educação;
tecnologia.
Provavelmente nada será aprofundado.
Escolha um eixo.
Desenvolva.
O segundo parágrafo terá espaço para outra dimensão.
Uma redação de aproximadamente 30 linhas não precisa explicar todos os problemas brasileiros.
Precisa construir um projeto argumentativo coerente.
Dois desenvolvimentos devem ser diferentes
Imagine esta tese:
“A desinformação persiste em razão da falta de educação midiática e do compartilhamento irresponsável nas redes sociais.”
D1:
falta de educação midiática.
D2:
compartilhamento irresponsável.
Existe proximidade entre os dois, mas ainda conseguimos construir enfoques diferentes.
Agora imagine:
D1:
as pessoas compartilham informações falsas.
D2:
as pessoas divulgam fake news.
Isso é praticamente repetição.
Antes de escrever, pergunte:
Meu segundo argumento realmente acrescenta algo novo?
Se não, reformule.
O desenvolvimento deve cumprir a promessa da introdução
Na aula sobre introdução, aprendemos que a tese funciona como uma promessa ao leitor.
Se você apresenta:
“O problema decorre da desigualdade econômica e da deficiência educacional.”
os desenvolvimentos precisam tratar exatamente desses dois eixos.
Não escreva uma introdução sobre desigualdade e educação e depois desenvolva redes sociais e violência.
Isso quebra o projeto de texto.
A introdução não é uma parte independente.
Ela organiza o restante da redação.
Uma técnica antes de começar a escrever
Faça uma pequena tabela mental ou no rascunho:
Tese: o que defendo?
D1: qual será meu primeiro argumento?
Como vou explicar?
Que repertório ou exemplo posso usar?
Qual conclusão parcial quero alcançar?
Depois repita para o D2.
Essa preparação pode levar apenas alguns minutos.
E economiza muito tempo depois.
Você deixa de descobrir o argumento enquanto escreve.
Um parágrafo-modelo analisado
Vamos trabalhar com o tema:
Desafios para promover a educação digital no Brasil
Imagine este desenvolvimento:
“Em primeiro lugar, a desigualdade de infraestrutura tecnológica dificulta a democratização da educação digital no país. Embora dispositivos e plataformas estejam cada vez mais presentes no cotidiano, estudantes brasileiros possuem condições muito diferentes de acesso à internet, equipamentos e ambientes adequados de estudo. Essa realidade demonstra que a simples expansão das tecnologias não garante igualdade de oportunidades, pois aqueles que dispõem de conexão instável ou aparelhos compartilhados enfrentam maiores dificuldades para desenvolver competências digitais. Dessa forma, a inclusão tecnológica precisa considerar também as condições materiais necessárias para que o acesso se transforme em participação efetiva.”
Observe o movimento.
A primeira frase apresenta o argumento.
A segunda explica.
A terceira aprofunda a consequência.
A última retoma o tema e fecha o raciocínio.
Temos um parágrafo desenvolvido sem depender obrigatoriamente de uma citação.
Agora acrescentemos repertório
Poderíamos incluir uma referência relacionada ao conceito de desigualdade digital, desde que realmente o conheçamos.
Mas perceba algo importante: o parágrafo já possui raciocínio antes da referência.
O repertório entraria para fortalecer.
Essa ordem protege você da chamada argumentação de autoridade vazia, em que parece que determinada ideia é verdadeira apenas porque um autor famoso foi citado.
Você precisa argumentar.
O autor pode ajudá-lo.
Tópico frasal genérico versus específico
Compare:
“Primeiramente, existe um grande problema na sociedade.”
e:
“Primeiramente, a desigualdade de acesso à infraestrutura digital impede que os benefícios das novas tecnologias educacionais alcancem os estudantes de maneira equitativa.”
A segunda versão fornece direção.
Sabemos qual problema será discutido.
Sabemos qual relação será analisada.
Isso facilita também a continuidade do próprio estudante.
Um bom tópico frasal funciona como uma pequena tese do parágrafo.
Evite começar todos os parágrafos da mesma maneira
Você não precisa escrever sempre:
“Em primeiro lugar…”
“Em segundo lugar…”
Esses conectivos podem funcionar, mas não são obrigatórios.
Você pode começar diretamente pelo argumento:
“Outro obstáculo importante está relacionado ao acesso desigual aos serviços de saúde.”
Ou:
“Além das limitações estruturais, o estigma também dificulta a procura por atendimento.”
Ou ainda:
“A permanência desse problema também está ligada à maneira como determinadas informações circulam nas redes sociais.”
O importante é garantir progressão e clareza.
Conectivos precisam representar relações reais
Ontem estudamos Sintaxe, e aqui encontramos novamente a importância da organização linguística.
Compare:
“O problema é grave, portanto precisa ser analisado.”
Temos uma conclusão.
Agora:
“Embora existam políticas públicas, o acesso ainda é desigual.”
Temos concessão.
Outro exemplo:
“Como a infraestrutura é insuficiente, parte da população permanece excluída.”
Temos causa.
O conectivo precisa representar corretamente a relação lógica entre as ideias.
Uma redação com muitos conectivos usados incorretamente não é coesa.
É apenas cheia de palavras de ligação.
O repertório precisa ser comentado
Imagine:
“Segundo a Constituição Federal, a saúde é direito de todos.”
Não pare aí.
Acrescente:
“Entretanto, a dificuldade de acesso a determinados serviços demonstra que a garantia jurídica ainda não é plenamente convertida em atendimento efetivo.”
Agora a referência participa do argumento.
Esse pequeno movimento — referência seguida de análise — melhora muito o desenvolvimento.
Nunca abandone o repertório imediatamente depois de citá-lo.
Evite fazer o corretor completar seu raciocínio
Você escreve:
“Em O Quinze, Rachel de Queiroz apresenta a seca no Ceará.”
E segue para outra ideia.
O corretor não deveria precisar imaginar sozinho por que a obra é relevante.
Você precisa completar:
“Ao mostrar que a mesma estiagem produz consequências muito mais graves para famílias sem recursos, o romance evidencia como fenômenos ambientais se transformam em crises sociais de maneira desigual.”
Agora temos relação.
Isso é argumentação.
Use O Quinze como treinamento
Como acabamos de estudar O Quinze, vamos utilizá-lo.
Tema hipotético:
Desafios para enfrentar os impactos das mudanças climáticas sobre populações vulneráveis
Um desenvolvimento poderia defender que eventos climáticos atingem grupos sociais de maneira desigual. A obra de Rachel de Queiroz poderia aparecer mostrando a família de Chico Bento obrigada a abandonar sua terra pela seca enquanto personagens de melhor condição econômica possuem recursos maiores para enfrentar a estiagem.
Depois, o estudante precisaria explicar:
o problema não é apenas climático; é também social.
Agora o repertório está trabalhando.
Use Olhos d’Água como treinamento
Tema:
Desafios para proteger crianças em contextos de violência urbana
O conto Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos poderia funcionar como repertório.
Mas o desenvolvimento não deveria apenas resumir a história.
O estudante poderia explicar que o contraste entre os brinquedos da menina e o tiroteio que interrompe sua infância representa literariamente como conflitos produzidos pelo mundo adulto invadem espaços que deveriam garantir segurança às crianças.
Depois, relacionaria isso à necessidade de políticas de proteção nos territórios vulneráveis.
Repertório.
Análise.
Argumento.
Cuidado com argumentos baseados apenas no senso comum
Frases como:
“Hoje em dia ninguém mais lê.”
“Os jovens são todos viciados em celular.”
“As pessoas não respeitam mais ninguém.”
são generalizações difíceis de sustentar.
A argumentação precisa ter mais precisão.
Você pode escrever que determinadas práticas digitais modificaram hábitos de consumo cultural sem afirmar que ninguém lê.
Pode discutir uso excessivo ou problemático de determinadas plataformas sem afirmar que todos os jovens são dependentes.
Precisão aumenta credibilidade.
Evite absolutos
Palavras como:
todos;
ninguém;
sempre;
nunca;
precisam ser usadas com muito cuidado.
Quando você escreve:
“O governo nunca faz nada.”
está produzindo uma afirmação absoluta muito fácil de contestar.
Uma formulação mais precisa seria:
“Determinadas políticas ainda se mostram insuficientes para atender à demanda existente.”
Agora existe espaço para análise.
Argumentar bem também envolve saber controlar o alcance de suas afirmações.
A diferença entre opinião e argumento
Observe:
Opinião: “As redes sociais fazem mal aos jovens.”
Agora:
Argumento: “O uso de plataformas digitais pode intensificar determinadas pressões sobre jovens quando algoritmos, padrões estéticos e mecanismos de comparação social tornam a validação pública um componente constante da experiência online.”
Podemos concordar ou discordar desse argumento.
Mas existe algo para analisar.
Ele apresenta um mecanismo.
A opinião simplesmente declara.
O desenvolvimento precisa trabalhar mais próximo da segunda forma.
O desenvolvimento também precisa de coesão
As frases do parágrafo devem se conectar.
Observe uma sequência ruim:
“A leitura é importante. Muitas escolas têm bibliotecas. O Brasil é um país grande. Os jovens usam celular. Machado de Assis foi escritor.”
Todas as frases são gramaticalmente possíveis.
Mas não formam um argumento.
Coesão não significa apenas utilizar conectivos.
Significa construir continuidade de pensamento.
Cada frase precisa responder, completar ou aprofundar aquilo que veio antes.
O parágrafo deve terminar sabendo por que existe
Uma boa técnica é observar a última frase.
Ela deveria mostrar ao leitor o resultado daquele raciocínio.
Imagine:
“Portanto, a ausência de políticas permanentes de formação leitora contribui para que o contato com livros permaneça episódico em vez de se transformar em hábito.”
Essa frase fecha o argumento e o conecta novamente ao tema.
O encerramento do desenvolvimento não precisa trazer uma solução completa.
Precisa consolidar aquilo que foi demonstrado.
Quantas linhas deve ter um desenvolvimento?
Não existe quantidade obrigatória.
Entretanto, dentro de uma redação com limite de aproximadamente 30 linhas, os dois desenvolvimentos costumam ocupar uma parte significativa do texto, porque são justamente eles que sustentam a tese.
Um desenvolvimento de duas linhas provavelmente terá dificuldade para apresentar argumento, explicação, repertório e análise. Por outro lado, um parágrafo enorme pode consumir espaço necessário para o restante do texto.
Pense em equilíbrio.
Mais importante do que contar linhas é verificar se o raciocínio realmente foi desenvolvido.
Um teste para saber se seu argumento está pronto
Depois de escrever o parágrafo, tente responder:
Qual é a ideia principal?
Como eu a expliquei?
Que exemplo ou repertório utilizei?
Analisei essa referência?
Mostrei a relação com o tema?
Acrescentei algo novo em relação à introdução?
Se você consegue responder a essas perguntas, provavelmente possui uma estrutura consistente.
Se alguma resposta for “não”, já sabe onde revisar.
Treine apenas um parágrafo hoje
Não precisa esperar a quinta-feira para escrever.
Escolha um dos temas anteriores da Revisão Monstro:
desinformação;
educação digital;
racismo no mercado de trabalho;
saúde mental dos jovens.
Construa uma tese.
Escolha apenas um argumento.
E produza um desenvolvimento completo.
Depois sublinhe:
o tópico frasal;
a explicação;
o repertório;
a análise;
o fechamento.
Esse exercício pode revelar muito sobre sua escrita.
Troque de argumento sem trocar de tema
Existe outro treino muito eficiente.
Pegue um tema e escreva três argumentos diferentes.
Tema:
Desafios para promover a educação digital no Brasil.
Possíveis eixos:
desigualdade de infraestrutura;
formação insuficiente para uso crítico das tecnologias;
desinformação;
capacitação docente;
proteção de dados.
Depois escolha os dois mais diferentes entre si.
Esse exercício melhora sua capacidade de planejamento.
Não use o primeiro argumento que vier à cabeça automaticamente
Quando lemos um tema, algumas respostas surgem imediatamente porque foram repetidas inúmeras vezes:
falta de educação;
falta de conscientização;
negligência do governo.
Antes de aceitar essas ideias, pergunte se consegue especificá-las.
Talvez “falta de educação” possa se transformar em:
ausência de educação midiática para identificação de conteúdos manipulados.
Agora temos um argumento muito mais preciso.
A qualidade começa na formulação.
Desenvolvimento e Competência III
Na Redação do ENEM, a capacidade de selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista é fundamental para a construção do projeto argumentativo.
Isso significa que não basta possuir boas ideias isoladas.
Você precisa organizá-las.
Relacioná-las.
Criar progressão.
Fazer com que cada parte trabalhe em favor da tese.
É exatamente isso que estamos treinando hoje.
Desenvolvimento e repertório sociocultural
Nossa aula passada sobre repertório começa agora a revelar toda sua importância.
Você poderá utilizar:
Literatura;
História;
Sociologia;
Filosofia;
legislação;
dados confiáveis;
cinema;
documentários;
conceitos;
acontecimentos históricos.
Mas sempre faça a pergunta:
O que essa referência prova ou ajuda a explicar no meu argumento?
Se a resposta não estiver clara, talvez você não precise dela.
Um parágrafo coerente sem citação é melhor do que um parágrafo confuso cheio de nomes famosos.
Desenvolvimento e Sintaxe
A aula de ontem também entra aqui.
Um argumento consistente precisa de frases sintaticamente organizadas.
Observe:
“A desigualdade que por causa da sociedade e tendo pessoas que não têm acesso fazendo com que tenha problemas.”
Existe uma ideia, mas a estrutura dificulta sua compreensão.
Agora:
“A desigualdade social restringe o acesso de parte da população aos serviços necessários. Como consequência, grupos economicamente vulneráveis enfrentam obstáculos maiores para exercer direitos que deveriam ser universais.”
A mesma direção argumentativa aparece com muito mais clareza.
Sintaxe também sustenta a argumentação.
Amanhã: vamos colocar tudo em prática
No Dia 33 da Revisão Monstro — ENEM em 77 dias, teremos nossa quinta-feira de Temas de Redação com a proposta:
Os desafios do envelhecimento da população brasileira
Será uma excelente oportunidade para aplicar a aula de hoje.
Você precisará interpretar o problema, construir uma tese e selecionar dois argumentos diferentes.
Depois deverá desenvolver cada um.
Talvez discuta previdência.
Talvez saúde.
Mercado de trabalho.
Etarismo.
Cuidados de longa duração.
Acessibilidade.
Relações familiares.
Mas não tente trabalhar tudo.
Escolha.
Aprofunde.
Argumente.
Amanhã, não procure a redação pronta
Quando receber a proposta, resista à vontade de procurar imediatamente um modelo completo sobre envelhecimento.
Primeiro faça seu próprio planejamento.
Pergunte:
Qual é meu ponto de vista?
Que dois problemas consigo explicar melhor?
Que repertório realmente conheço?
Que relação de causa e consequência posso estabelecer?
É esse esforço que desenvolve autonomia.
No dia do ENEM, você precisará construir sozinho.
Faltam 46 dias: agora precisamos aprofundar
Durante as primeiras semanas da Revisão Monstro, construímos fundações.
Conhecemos a prova.
Aprendemos a interpretar o tema.
Organizamos a introdução.
Criamos um banco de repertórios.
Agora começamos a entrar na profundidade da argumentação.
Isso significa que sua pergunta deixa de ser apenas:
“Tenho uma ideia?”
E passa a ser:
“Consigo desenvolver essa ideia de maneira que outra pessoa compreenda por que ela é válida?”
Essa mudança é decisiva.
Faltam 46 dias para o ENEM. Ainda existe tempo suficiente para melhorar muito sua argumentação, mas isso exige escrita. Não basta ler exemplos de bons parágrafos.
Produza os seus.
Reescreva.
Compare.
Descubra onde seu raciocínio interrompe cedo demais.
Pergunte “por quê?” uma vez.
Depois outra.
E outra.
É assim que uma frase genérica começa a ganhar profundidade.
No ENEM, opinião inicia o caminho.
Argumentação é aquilo que sustenta cada passo seguinte.
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Uma tese mostra ao leitor onde você quer chegar; são os argumentos que constroem a estrada até lá.
