Revisão Monstro — ENEM em 77 dias
Dia 33 — 24 de setembro de 2026 — Quinta-feira — Temas de Redação
Simulado de Redação no estilo ENEM
Olá amigos e alunos do blog A Escola Literária! Chegamos ao Dia 33 da nossa Revisão Monstro — ENEM em 77 dias e, como acontece às quintas-feiras, chegou o momento de transformar aquilo que estudamos sobre Redação em prática. Ontem aprendemos como construir um parágrafo de desenvolvimento realmente argumentativo, deixando de apenas apresentar uma opinião para explicar causas, consequências, mecanismos e relações capazes de sustentar nossa tese.
A proposta de hoje é particularmente interessante porque trata de uma transformação que já está acontecendo no Brasil e deverá modificar profundamente a sociedade nas próximas décadas: o envelhecimento populacional. Viver mais é uma conquista relacionada à melhoria das condições de vida, ao desenvolvimento da medicina, à ampliação dos serviços de saúde e a diversas outras transformações sociais. Entretanto, quando a composição etária de um país muda rapidamente, também surgem novos desafios envolvendo saúde, trabalho, previdência, mobilidade urbana, cuidado, combate ao preconceito e garantia de direitos.
Por isso, nossa missão hoje não será tratar o envelhecimento como um problema. O verdadeiro desafio consiste em compreender como a sociedade brasileira pode se preparar para uma população cada vez mais longeva, garantindo qualidade de vida, autonomia, dignidade e participação social às pessoas idosas.
⏳ Faltam 45 dias para o ENEM!
Hoje, 24 de setembro de 2026, faltam 45 dias para o primeiro dia do ENEM. Estamos entrando em uma fase da Revisão Monstro na qual a prática precisa ocupar cada vez mais espaço. Já aprendemos a interpretar a proposta, formular uma tese, construir a introdução, selecionar repertórios e estruturar argumentos; portanto, o desafio agora é fazer todas essas habilidades funcionarem simultaneamente.
A proposta de hoje oferece excelente material para isso porque permite vários caminhos argumentativos. Você poderia discutir a preparação do sistema de saúde, o combate ao etarismo, o mercado de trabalho, as políticas de cuidado, a adaptação das cidades ou a participação social das pessoas idosas. Entretanto, justamente por existirem tantas possibilidades, será fundamental selecionar apenas os eixos que conseguirá desenvolver adequadamente.
Lembre-se da aula de ontem: um bom argumento não tenta falar de tudo; ele escolhe uma ideia e a aprofunda. Uma redação de qualidade não é aquela que menciona o maior número possível de problemas, mas aquela que seleciona aspectos relevantes e consegue explicá-los com clareza.
Antes de escrever: o Brasil está envelhecendo
O envelhecimento populacional acontece quando cresce proporcionalmente a participação das faixas etárias mais elevadas dentro da população. Esse fenômeno está relacionado, entre outros fatores, à redução da natalidade e ao aumento da longevidade. No Brasil, essa transformação ocorreu de maneira bastante acelerada e já pode ser observada claramente na própria estrutura etária da população.
Segundo o Censo Demográfico de 2022, o Brasil possuía cerca de 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais, correspondentes a 10,9% da população. Em 2010, esse grupo representava 7,4%, mostrando um crescimento expressivo em pouco mais de uma década. Ao mesmo tempo, a proporção de crianças diminuiu, o que evidencia uma mudança importante na composição demográfica brasileira.
Quando utilizamos o critério de 60 anos ou mais, adotado pelo Estatuto da Pessoa Idosa, o número é ainda maior. Isso significa que milhões de brasileiros já estão entrando ou vivendo a velhice, e esse contingente continuará aumentando nos próximos anos. Essa transformação exigirá novas respostas do poder público, das famílias, das empresas e da sociedade.
Envelhecimento não significa necessariamente doença
Outro cuidado fundamental para a redação é não associar automaticamente velhice a incapacidade. O envelhecimento é um processo bastante heterogêneo, influenciado por condições físicas, sociais, psicológicas, econômicas e ambientais. Isso significa que pessoas da mesma idade podem apresentar situações de saúde, autonomia e participação social completamente diferentes.
Essa percepção modifica a própria forma de interpretar o tema. Não estamos discutindo apenas como “cuidar de idosos doentes”. Estamos pensando em como construir uma sociedade na qual as pessoas possam envelhecer mantendo, pelo maior tempo possível, autonomia, participação, vínculos sociais e qualidade de vida.
Por isso, quando falamos em envelhecimento saudável, não estamos tratando somente da ausência de doenças. Estamos falando também da possibilidade de continuar realizando atividades importantes, tomando decisões, participando da comunidade e mantendo relações sociais significativas.
Leia o tema com atenção
Nossa proposta é:
Os desafios do envelhecimento da população brasileira
A primeira palavra que merece atenção é “desafios”. Isso significa que sua redação deverá identificar obstáculos ou necessidades produzidos pela transformação demográfica e discutir de que maneira eles podem ser enfrentados.
A expressão “envelhecimento da população” também precisa ser interpretada corretamente. Não estamos tratando apenas de experiências individuais relacionadas à velhice. Estamos diante de uma mudança demográfica coletiva, capaz de afetar a organização da saúde, da assistência social, das cidades, das relações de trabalho e das próprias famílias.
Por fim, o recorte é brasileiro. Sua argumentação deve considerar características e necessidades relacionadas à realidade do país, ainda que repertórios internacionais possam ser utilizados para comparação.
Uma pergunta orientadora poderia ser formulada da seguinte maneira: quais transformações a sociedade brasileira precisa realizar para garantir dignidade, autonomia e qualidade de vida em um país com número crescente de pessoas idosas?
Essa pergunta já abre diferentes caminhos argumentativos e pode ajudar a evitar uma redação vaga.
SIMULADO DE REDAÇÃO ENEM
Tema: Os desafios do envelhecimento da população brasileira
Leia os textos motivadores a seguir e observe como cada um apresenta uma dimensão diferente do envelhecimento populacional. Utilize essas informações como ponto de partida para construir seu próprio projeto argumentativo, evitando simplesmente reproduzir trechos da coletânea.
TEXTO I — O Brasil está mudando de idade
Os dados do Censo Demográfico mostram uma mudança acelerada na estrutura etária brasileira. Em 2010, aproximadamente 14 milhões de brasileiros possuíam 65 anos ou mais, correspondendo a 7,4% da população. Em 2022, esse número chegou a aproximadamente 22,2 milhões, ou 10,9% da população nacional.
No mesmo período, ocorreu movimento contrário entre os brasileiros mais jovens. A população com até 14 anos diminuiu proporcionalmente, enquanto a idade mediana dos brasileiros aumentou. Esses números revelam que a sociedade brasileira terá de reorganizar diferentes políticas e serviços para responder a uma população proporcionalmente mais envelhecida.
TEXTO II — Envelhecer com saúde envolve muito mais que atendimento médico
O envelhecimento saudável envolve diferentes dimensões da vida. Além do acesso aos serviços de saúde, também são importantes ambientes seguros, oportunidades de participação, combate ao preconceito relacionado à idade, convivência comunitária e disponibilidade de cuidados de longa duração quando necessários.
Essa perspectiva mostra que envelhecer com qualidade não depende somente da existência de hospitais. Transporte, moradia, relações sociais, acessibilidade, participação comunitária e condições econômicas também interferem na possibilidade de uma pessoa continuar vivendo com independência e dignidade.
TEXTO III — A pessoa idosa possui direitos assegurados
O Estatuto da Pessoa Idosa estabelece que família, comunidade, sociedade e poder público possuem responsabilidade conjunta de garantir direitos como vida, saúde, alimentação, educação, cultura, esporte, lazer, trabalho, cidadania, liberdade, dignidade, respeito e convivência familiar e comunitária.
A legislação brasileira também protege a pessoa idosa contra formas de discriminação relacionadas à idade e reconhece seu direito à participação social e profissional. A existência desses direitos demonstra que envelhecer não significa perder autonomia ou deixar de participar da vida coletiva.
TEXTO IV — Quem cuidará de uma população que vive cada vez mais?
O envelhecimento populacional também aumenta a necessidade de discutir cuidado. Pessoas podem chegar à velhice com diferentes níveis de autonomia, e algumas necessitarão de apoio cotidiano, atendimento domiciliar ou cuidados prolongados.
Tradicionalmente, grande parte dessas responsabilidades foi assumida pelas famílias, principalmente pelas mulheres. Entretanto, famílias menores, mudanças no mercado de trabalho e aumento da longevidade tornam cada vez mais difícil imaginar que todas as necessidades de cuidado possam ser resolvidas exclusivamente dentro do ambiente doméstico.
PROPOSTA DE REDAÇÃO
A partir da leitura dos textos motivadores e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, produza um texto dissertativo-argumentativo em modalidade escrita formal da Língua Portuguesa sobre o tema:
“Os desafios do envelhecimento da população brasileira”
Apresente um ponto de vista claro e desenvolva argumentos capazes de sustentá-lo de maneira coerente. Ao final, formule uma proposta de intervenção relacionada aos problemas discutidos, respeitando os direitos humanos e articulando agentes, ações e finalidades capazes de contribuir para uma sociedade preparada para o envelhecimento de sua população.
Antes da introdução, escolha o problema que você realmente quer discutir
A coletânea apresentou pelo menos quatro possibilidades: transformação demográfica, saúde, direitos e cuidados. Poderíamos ainda acrescentar mercado de trabalho, acessibilidade urbana, isolamento social, previdência, inclusão digital e combate ao preconceito. Se você tentar escrever sobre todos esses assuntos, provavelmente terminará com vários tópicos mencionados superficialmente e nenhum argumento verdadeiramente desenvolvido.
Portanto, faça exatamente aquilo que aprendemos ontem. Escolha dois eixos argumentativos e faça deles o centro da redação. Você poderia discutir, por exemplo, a necessidade de adaptar os serviços públicos de saúde e a permanência do etarismo. Outra possibilidade seria analisar a insuficiência das estruturas de cuidado e a falta de cidades preparadas para pessoas com diferentes níveis de mobilidade.
Não existe uma dupla obrigatória de argumentos. Existe a necessidade de escolher ideias que você consiga explicar, relacionar ao tema e aprofundar ao longo dos desenvolvimentos.
Primeiro caminho: preparar o sistema de saúde
O crescimento da população idosa naturalmente modifica as necessidades dos serviços de saúde. À medida que mais pessoas chegam a idades avançadas, aumenta a importância do acompanhamento de condições crônicas, da atenção primária, da reabilitação, da prevenção de quedas, da saúde mental e da preservação da capacidade funcional.
Observe como esse argumento pode ser aprofundado. Não basta escrever que “será preciso construir mais hospitais porque haverá mais idosos”. Uma abordagem mais consistente percebe que envelhecer bem depende também de prevenção, acompanhamento contínuo e manutenção da autonomia, e não somente de tratamento depois que uma doença aparece.
Isso significa que políticas de saúde precisam acompanhar a transformação demográfica antes que os problemas se agravem. Uma sociedade envelhecida exige um sistema preparado para acompanhar pessoas durante diferentes etapas da vida, promovendo saúde e independência pelo maior tempo possível.
Segundo caminho: o desafio do cuidado
Uma população mais envelhecida também obriga a sociedade a pensar sobre quem cuida de pessoas que perdem parcialmente sua autonomia. Tradicionalmente, grande parte desse trabalho foi absorvida pelas famílias, sobretudo pelas mulheres. Entretanto, famílias menores, mudanças no mercado de trabalho e aumento da longevidade tornam esse modelo cada vez mais difícil de sustentar.
Nesse eixo, você poderia discutir formação e valorização de cuidadores, serviços de apoio domiciliar, centros de convivência e suporte oferecido às famílias. A ideia central seria demonstrar que o cuidado não pode ser compreendido exclusivamente como responsabilidade privada, pois o envelhecimento populacional transforma essa questão em uma necessidade social mais ampla.
Perceba como um argumento forte começa a revelar um mecanismo: a população envelhece, aumenta a demanda por cuidado, as famílias possuem menos condições de absorver tudo sozinhas e, por isso, novas políticas tornam-se necessárias.
Terceiro caminho: etarismo
Outro excelente eixo é o etarismo, preconceito baseado na idade. Ele ocorre quando características, capacidades ou comportamentos são atribuídos a uma pessoa apenas porque pertence a determinada faixa etária. No mercado de trabalho, por exemplo, pode aparecer quando trabalhadores mais velhos são automaticamente considerados menos atualizados, produtivos ou capazes de aprender novas tecnologias.
Esse argumento possui enorme potencial porque mostra que preparar uma sociedade para o envelhecimento não significa apenas criar serviços. Também significa transformar a maneira como a velhice é representada.
Se pessoas idosas são constantemente tratadas como incapazes, ultrapassadas ou dependentes, sua participação social pode ser reduzida mesmo quando possuem plena capacidade para continuar trabalhando, estudando, criando, consumindo cultura ou participando de decisões comunitárias.
Etarismo não aparece apenas no trabalho
O preconceito relacionado à idade pode surgir em piadas, publicidade, relações familiares, atendimento público, espaços culturais e diferentes situações cotidianas. Algumas vezes, aparece até de maneira aparentemente positiva, quando se considera surpreendente que uma pessoa idosa pratique atividade física, utilize tecnologia ou mantenha vida social ativa, como se determinadas experiências fossem incompatíveis com a idade.
Essa percepção pode enriquecer bastante uma redação porque permite discutir como estereótipos influenciam oportunidades concretas. Combater o etarismo não significa negar as mudanças naturais que podem ocorrer durante o envelhecimento, mas impedir que a idade cronológica seja utilizada como justificativa automática para diminuir a autonomia ou o valor social de alguém.
A argumentação ganha profundidade quando mostra que o preconceito não se limita a insultos explícitos. Ele também pode aparecer em expectativas aparentemente naturais sobre aquilo que uma pessoa deveria ou não fazer em determinada idade.
Quarto caminho: cidades preparadas para envelhecer
Outro aspecto importante está relacionado às cidades. Imagine uma pessoa idosa que possui saúde e independência, mas vive em um bairro com calçadas irregulares, transporte inadequado, ausência de bancos públicos, travessias perigosas e dificuldade de acesso aos serviços.
Nesse caso, a limitação não está necessariamente no indivíduo. Está também no ambiente. Uma cidade mal planejada pode transformar uma dificuldade pequena em grande barreira à autonomia.
Uma redação que escolha esse eixo poderia discutir transporte coletivo, acessibilidade, planejamento urbano e acesso a espaços culturais e comunitários. Dessa forma, o envelhecimento deixaria de ser analisado exclusivamente como questão de saúde e passaria a ser entendido também como desafio de urbanismo e cidadania.
Envelhecer também significa continuar participando
Existe uma tendência de associar aposentadoria à retirada completa da pessoa idosa da vida social. Entretanto, participação não está restrita ao trabalho formal. Pessoas mais velhas podem continuar estudando, realizando atividades culturais, participando de organizações comunitárias, cuidando de outras pessoas e transmitindo conhecimentos adquiridos ao longo da vida.
Esse aspecto é importante porque permite ultrapassar uma visão exclusivamente assistencialista da velhice. Uma sociedade preparada para envelhecer não é apenas aquela que oferece proteção quando alguém precisa; é também aquela que cria condições para que pessoas idosas continuem fazendo escolhas e participando de diferentes dimensões da vida coletiva.
Garantir dignidade significa reconhecer a pessoa idosa como sujeito de direitos, desejos e projetos, e não apenas como alguém que precisa receber assistência.
Cuidado com uma armadilha: tratar o envelhecimento como problema
Uma redação pode cometer um erro conceitual importante se apresentar o crescimento da população idosa como algo necessariamente negativo. As pessoas estão vivendo mais, e isso constitui, em grande medida, uma conquista social associada ao desenvolvimento das condições de vida e dos serviços de saúde.
O desafio surge porque instituições e estruturas sociais construídas para uma população mais jovem precisam adaptar-se a uma sociedade com maior longevidade. Portanto, a formulação mais adequada não seria “o problema é haver muitos idosos”, mas sim “o desafio está em adaptar a sociedade à nova estrutura demográfica”.
Essa diferença modifica completamente a qualidade da argumentação, porque substitui uma visão preconceituosa por uma análise estrutural.
Cuidado também com generalizações sobre pessoas idosas
Evite construções como:
“Os idosos são frágeis.”
“Os idosos não entendem tecnologia.”
“As pessoas mais velhas precisam sempre de alguém para cuidar delas.”
Essas afirmações ignoram a diversidade existente entre milhões de pessoas. Há idosos completamente independentes, trabalhadores, estudantes, atletas, artistas, pessoas com diferentes condições de saúde e indivíduos que precisam de níveis variados de apoio.
Um texto que discute envelhecimento deve evitar reproduzir justamente os estereótipos que poderia criticar. Quanto maior a precisão vocabular e argumentativa, maior será a maturidade demonstrada na redação.
Uma possível tese
Depois de interpretar o tema, você poderia escolher dois eixos: insuficiência das estruturas de cuidado e permanência do etarismo.
Uma tese possível seria:
Embora o aumento da longevidade represente uma importante conquista social, o rápido envelhecimento da população brasileira exige respostas capazes de ampliar as estruturas públicas e comunitárias de cuidado e combater estereótipos etaristas que ainda restringem a participação das pessoas idosas.
Observe como a tese faz duas coisas. Primeiro, evita apresentar o envelhecimento como algo negativo. Depois, estabelece claramente os dois argumentos que orientarão os desenvolvimentos.
Você não precisa utilizar essa tese. Ela serve apenas para mostrar como o planejamento pode funcionar.
Como transformar o primeiro argumento em desenvolvimento?
Vamos utilizar o tema do cuidado.
Um tópico frasal poderia afirmar que a organização tradicional do cuidado familiar se tornou insuficiente diante do envelhecimento populacional. Em seguida, seria necessário explicar por que: mais pessoas vivem até idades avançadas, algumas apresentam necessidades de apoio prolongado e as famílias contemporâneas possuem menos integrantes disponíveis para assumir exclusivamente essa tarefa.
Depois, você poderia apresentar como repertório a existência de políticas públicas voltadas ao cuidado e explicar que o próprio reconhecimento institucional do tema demonstra que essa responsabilidade precisa ser compartilhada. Finalmente, seria necessário voltar ao argumento e mostrar que ampliar serviços e redes de apoio é necessário tanto para garantir dignidade à pessoa cuidada quanto para evitar sobrecarga familiar.
Perceba a estrutura da aula de ontem funcionando:
argumento → explicação → repertório → análise → conclusão parcial.
E o segundo desenvolvimento?
Se escolher o etarismo, comece explicando como determinadas concepções sobre velhice transformam idade em suposta incapacidade. No mercado de trabalho, por exemplo, trabalhadores mais velhos podem ser considerados menos capazes de acompanhar mudanças tecnológicas simplesmente por causa de sua faixa etária.
Depois você poderia explicar a consequência: quando capacidades individuais são substituídas por estereótipos, pessoas idosas podem perder oportunidades de participação profissional e social. O fechamento poderia relacionar essa exclusão ao próprio tema, defendendo que uma sociedade que envelhece rapidamente precisa revisar a maneira como interpreta a velhice.
Observe novamente que o argumento avança. Não estamos simplesmente repetindo:
“O etarismo é ruim.”
Estamos mostrando como ele funciona e quais consequências produz.
Podemos utilizar Literatura como repertório?
Sim, desde que exista uma relação real com o argumento. A Literatura Brasileira apresenta diversas personagens e situações que permitem discutir envelhecimento, memória, passagem do tempo, exclusão e relações familiares.
Mas lembre-se da regra que aprendemos: não use uma obra apenas porque precisa colocar um livro na redação. Se você conhece um personagem ou narrativa capaz de ajudar efetivamente a discutir determinada dimensão da velhice, utilize. Caso contrário, uma legislação, um dado demográfico ou um conceito social poderá funcionar muito melhor.
Repertório não é concurso de sofisticação. Ele precisa ser útil ao raciocínio que você pretende construir.
O Estatuto da Pessoa Idosa pode funcionar muito bem
A legislação oferece excelente repertório para esse tema porque cria uma comparação entre direitos garantidos e condições concretas de implementação.
O Estatuto da Pessoa Idosa assegura diferentes direitos relacionados a saúde, alimentação, cultura, trabalho, cidadania, liberdade, dignidade e convivência. Sua redação poderia partir dessa garantia para demonstrar que o envelhecimento populacional exige expansão e adaptação de políticas capazes de transformar direitos formais em experiências reais.
Essa estratégia evita uma citação jurídica vazia porque a lei passa a cumprir uma função dentro do argumento. O estudante deixa de apenas mencionar a legislação e começa a analisar a distância entre aquilo que está previsto e aquilo que precisa ser efetivamente concretizado.
O envelhecimento saudável também oferece um ótimo repertório
A ideia de envelhecimento saudável permite ampliar bastante a discussão. Em vez de limitar a velhice à medicina, esse conceito considera também autonomia, participação, acessibilidade, combate ao preconceito e existência de redes de apoio.
Esse repertório poderia ajudar a demonstrar que o envelhecimento populacional exige políticas intersetoriais. Saúde, urbanismo, assistência social, trabalho, educação e cultura não funcionam separadamente quando pensamos em qualidade de vida na velhice.
Isso pode gerar uma argumentação muito mais sofisticada do que simplesmente afirmar que “o governo precisa construir hospitais”.
Previdência pode ser argumento?
Pode, mas exige cuidado. O aumento da proporção de idosos naturalmente gera discussões sobre financiamento previdenciário, participação da população economicamente ativa e sustentabilidade de sistemas sociais. Entretanto, esse é um tema complexo e pode exigir conhecimentos específicos para evitar afirmações simplificadoras.
Se você domina o assunto, pode utilizá-lo. Caso contrário, provavelmente existem outros caminhos mais seguros, como saúde, cuidado, etarismo e adaptação urbana, que oferecem excelentes possibilidades de aprofundamento sem depender de detalhes econômicos difíceis de sustentar.
Escolher um argumento que você consegue desenvolver é uma decisão estratégica. Não existe obrigação de utilizar a questão previdenciária apenas porque o tema envolve envelhecimento.
Mercado de trabalho: não transforme permanência em obrigação
Outro cuidado importante aparece quando discutimos envelhecimento e trabalho. Pessoas idosas possuem direito ao exercício profissional e não devem ser discriminadas por causa da idade. Isso não significa, porém, defender que todos necessariamente devam permanecer trabalhando indefinidamente.
A argumentação mais equilibrada defende liberdade e oportunidade. Quem deseja e possui condições de continuar trabalhando não deveria ser excluído por preconceito. Quem possui direito à aposentadoria também não deveria ser obrigado a permanecer no mercado apenas porque a sociedade envelheceu.
Essa distinção demonstra maturidade argumentativa porque evita transformar participação profissional em obrigação.
Uma sociedade que envelhece precisa conversar sobre cuidado
Talvez essa seja uma das discussões mais importantes das próximas décadas. Durante grande parte da história, o cuidado de crianças, pessoas com deficiência, doentes e idosos foi tratado principalmente como responsabilidade das famílias, com forte concentração sobre as mulheres.
O envelhecimento rápido e a redução do tamanho das famílias tornam esse arranjo cada vez mais difícil de manter. Isso significa que a sociedade precisa desenvolver novos modelos de cuidado, combinando responsabilidade pública, participação comunitária, apoio familiar e serviços especializados.
Esse tema também permite discutir desigualdade social, porque famílias de maior renda conseguem contratar serviços que famílias vulneráveis muitas vezes não conseguem acessar. Portanto, o envelhecimento também possui uma importante dimensão econômica.
Solidão e convivência comunitária
Outro caminho possível seria discutir isolamento social e importância dos vínculos comunitários. Pessoas idosas podem enfrentar redução de determinados círculos sociais, especialmente após aposentadoria, perda de familiares ou mudanças na rotina.
Nesse argumento, você poderia discutir centros de convivência, atividades culturais, universidades abertas à terceira idade e políticas locais capazes de manter pessoas idosas inseridas em redes sociais.
Mais uma vez, porém, delimite. Não tente transformar um parágrafo sobre solidão em discussão simultânea sobre saúde, previdência, trabalho e transporte. Escolha uma dimensão e desenvolva-a com profundidade.
Pense também na tecnologia
Uma sociedade cada vez mais digital pode criar barreiras para pessoas que não tiveram contato frequente com determinadas tecnologias ao longo da vida. Serviços bancários, agendamentos, comunicação e até acesso a políticas públicas migram progressivamente para plataformas digitais.
O problema não está em imaginar que pessoas idosas sejam incapazes de utilizar tecnologia. Isso seria novamente um estereótipo. O desafio está em garantir oportunidades de aprendizagem, plataformas acessíveis e alternativas de atendimento para pessoas com diferentes níveis de familiaridade digital.
Esse eixo poderia gerar uma excelente discussão sobre inclusão digital intergeracional e mostrar como o envelhecimento populacional também exige adaptação tecnológica.
A intervenção precisa responder ao seu diagnóstico
Suponha que você escolha como argumentos insuficiência das estruturas de cuidado e etarismo. Sua conclusão não deveria aparecer repentinamente com uma proposta exclusivamente sobre transporte público.
A intervenção precisa nascer daquilo que você discutiu. Para o primeiro problema, o poder público poderia ampliar serviços comunitários, domiciliares e de apoio às famílias, integrando saúde e assistência social. Para o segundo, campanhas educativas, formação profissional e políticas institucionais poderiam combater estereótipos relacionados à idade e fortalecer ambientes intergeracionais.
Agora existe continuidade entre diagnóstico e solução.
Evite a solução mágica da “conscientização”
Você já percebeu que essa palavra aparece em praticamente todos os temas:
“É preciso conscientizar a população.”
Mas conscientizar sobre o quê? Quem fará isso? Por qual meio? Com que frequência? Que comportamento pretende modificar?
Se quiser trabalhar esse caminho contra o etarismo, uma formulação mais consistente poderia indicar campanhas permanentes produzidas por órgãos públicos em parceria com meios de comunicação e instituições de ensino, apresentando diferentes experiências de envelhecimento e combatendo estereótipos de incapacidade.
Agora existe uma intervenção concreta e diretamente relacionada ao argumento.
E as famílias?
As famílias certamente possuem papel importante no cuidado e na convivência, mas a responsabilidade não pode ser colocada exclusivamente sobre elas. Nem todos os núcleos familiares possuem condições financeiras, tempo, estrutura ou formação necessária para atender sozinhos necessidades complexas de cuidado.
Por isso, a discussão precisa envolver também Estado, comunidade e serviços especializados. Uma sociedade que envelhece precisa desenvolver uma rede de cuidado, e não apenas transferir essa responsabilidade para filhos e parentes.
Essa abordagem também evita a visão simplista de que problemas coletivos sempre podem ser solucionados exclusivamente dentro da família.
Faça seu planejamento antes de começar
Pegue o tema novamente:
Os desafios do envelhecimento da população brasileira
Agora escreva no rascunho qual será sua tese. Em seguida, escolha dois argumentos diferentes e anote abaixo de cada um como pretende explicá-lo e qual repertório poderá utilizar.
Somente depois comece sua introdução.
Esse processo leva poucos minutos e evita que você chegue ao segundo desenvolvimento sem saber o que escrever. Ontem aprendemos que uma tese mostra a direção e os argumentos constroem a estrada. Hoje é hora de percorrê-la.
Um possível planejamento
Sem transformar isso em modelo obrigatório, imagine:
Tese: o envelhecimento populacional exige adaptação das estruturas sociais brasileiras.
D1: crescimento da necessidade de redes públicas e comunitárias de cuidado.
Repertório: políticas de cuidado e transformação da estrutura familiar.
D2: permanência do etarismo, que restringe participação profissional e social.
Repertório: Estatuto da Pessoa Idosa e conceito de discriminação etária.
Intervenção: fortalecimento da rede de cuidados e políticas educativas e institucionais de combate ao preconceito relacionado à idade.
Pronto. O texto inteiro começou a adquirir unidade antes mesmo da primeira frase.
Agora produza seus desenvolvimentos com profundidade
Quando chegar ao D1, não escreva apenas que “faltam políticas”. Explique por que a nova estrutura demográfica aumenta a necessidade de cuidado, como as transformações familiares interferem nesse cenário e por que a responsabilidade exclusivamente doméstica é insuficiente.
No D2, não escreva simplesmente que “existe preconceito”. Mostre como o etarismo cria estereótipos, de que modo esses estereótipos podem restringir oportunidades e por que isso se torna ainda mais problemático em uma sociedade com número crescente de pessoas idosas.
Essa é a grande missão da aula desta semana:
aprofundar o raciocínio.
Quero seu projeto de texto nos comentários
Nas nossas quintas-feiras, os comentários continuam sendo espaço de treinamento e interação. Hoje não é necessário publicar uma redação inteira.
Você pode compartilhar sua tese e os dois argumentos que utilizaria. Se quiser avançar ainda mais, acrescente um repertório para cada desenvolvimento e explique rapidamente por que ele ajudaria sua argumentação.
Ao observar outras respostas, provavelmente você perceberá que o mesmo tema permite projetos de texto completamente diferentes. Essa diversidade é importante porque mostra que não existe uma única redação possível para uma proposta.
Não copie a ideia do colega: compare estratégias
Se alguém escolher saúde e etarismo, enquanto você escolheu cuidado e acessibilidade urbana, isso não significa que um de vocês esteja necessariamente errado.
Pergunte qual projeto apresenta argumentos mais bem delimitados, observe quais repertórios estão realmente relacionados às ideias e veja se a intervenção responde aos problemas discutidos.
Essa comparação ensina muito mais do que copiar uma tese pronta. Autonomia argumentativa precisa ser treinada antes da prova, justamente porque no dia do ENEM você estará sozinho diante de uma proposta que poderá exigir um recorte inesperado.
Amanhã: Simulado da Semana
No Dia 34 da Revisão Monstro — ENEM em 77 dias, nossa sexta-feira será novamente dedicada ao Simulado da Semana, com dez questões relacionadas aos conteúdos estudados.
Vamos recuperar Parnasianismo e Simbolismo, Sintaxe do período simples e os princípios que aprendemos sobre construção de argumentos consistentes, além de habilidades mobilizadas na proposta de hoje.
Faça sem consulta. Depois confira as respostas comentadas e, principalmente, registre os erros. Nossos simulados existem para mostrar o que precisa ser corrigido enquanto ainda há tempo.
Faltam 45 dias: estamos treinando para pensar, não para decorar redações
O tema de hoje poderia aparecer de dezenas de formas diferentes em uma prova. Talvez o ENEM fale sobre envelhecimento. Talvez discuta direitos das pessoas idosas, cuidado, etarismo, cidades acessíveis ou convivência entre gerações.
É impossível decorar uma redação para cada possibilidade.
Por isso, estamos construindo habilidades que funcionam independentemente do tema. Precisamos aprender a interpretar, delimitar, selecionar argumentos, relacionar repertórios e propor intervenções coerentes.
Hoje faltam 45 dias para o ENEM, e seu objetivo não deve ser acumular modelos prontos. Deve ser chegar ao dia da prova capaz de receber um problema que talvez nunca tenha visto exatamente daquela forma e ainda assim saber construir uma resposta organizada.
O envelhecimento da população brasileira nos ensina algo especialmente importante: viver mais é uma conquista; preparar a sociedade para que esses anos adicionais sejam vividos com dignidade é o desafio.
E, para enfrentar qualquer desafio em uma redação, o primeiro passo continua sendo o mesmo:
compreender antes de escrever.
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Envelhecer é uma possibilidade aberta pelo tempo; construir uma sociedade em que cada etapa da vida possa ser vivida com autonomia, respeito e dignidade é uma responsabilidade de todos nós.
