Revisão MONSTRO ENEM em 77 Dias — Dia 11
02 de setembro de 2026 — Quarta-feira — Redação

Olá amigos e alunos do blog A Escola Literária! Chegamos ao Dia 11 da nossa Revisão ENEM em 77 Dias e hoje vamos trabalhar uma habilidade que acontece antes mesmo de você escrever a primeira palavra da redação: compreender exatamente o que a proposta está pedindo. Parece algo simples, mas uma leitura imprecisa do tema pode comprometer todo o projeto de texto, inclusive quando o estudante domina a norma-padrão, conhece bons repertórios e consegue escrever parágrafos bem estruturados.

Muitos candidatos concentram sua preparação em aprender conectivos, memorizar repertórios socioculturais, aperfeiçoar a proposta de intervenção e construir introduções sofisticadas. Tudo isso possui importância, mas existe uma etapa anterior que sustenta todas as outras: interpretar corretamente o tema. Se você não compreende o problema proposto, corre o risco de elaborar uma ótima argumentação sobre uma questão diferente daquela que deveria discutir.

Por isso, nossa aula de hoje será dedicada a aprender a ler o tema como um problema argumentativo. Vamos entender como identificar o assunto geral, localizar as palavras que delimitam a discussão, perceber o recorte específico e transformar o enunciado em uma pergunta capaz de orientar sua tese. Quando esse processo se torna um hábito, planejar uma redação deixa de parecer uma tentativa de adivinhar o que escrever e passa a ser uma sequência de decisões muito mais conscientes.

⏳ Faltam 67 dias para o ENEM!

Hoje, 2 de setembro de 2026, faltam 67 dias para o primeiro dia do ENEM. Ainda temos pouco mais de nove semanas para desenvolver nossa escrita, e esse período oferece muitas oportunidades para praticar interpretação de propostas, formulação de teses e construção de projetos de texto mais precisos.

Nas próximas quartas-feiras, continuaremos avançando por diferentes etapas da Redação do ENEM. Estudaremos introdução, repertório sociocultural, desenvolvimento, aprofundamento da argumentação, coesão, coerência, conclusão e proposta de intervenção. Entretanto, nenhum desses elementos funcionará plenamente se a redação partir de uma compreensão inadequada daquilo que foi solicitado.

Não tenha pressa para chegar à primeira linha do texto. Às vezes, alguns minutos utilizados para compreender profundamente a proposta podem economizar muito tempo durante a escrita e evitar problemas difíceis de corrigir quando metade da redação já estiver pronta.

O tema da redação não é apenas um assunto

Quando recebemos uma proposta de redação, normalmente encontramos um assunto amplo dentro de um recorte específico. É esse recorte que estabelece os limites da discussão e determina quais caminhos realmente respondem à proposta.

Imagine, por exemplo, que alguém diga que a redação será sobre leitura no Brasil. Ainda temos um campo enorme de possibilidades: acesso aos livros, bibliotecas públicas, formação de leitores, mercado editorial, literatura infantil, leitura digital, influência das escolas, desigualdade econômica e muitos outros assuntos poderiam aparecer.

Agora observe o tema:

Desafios para ampliar o hábito da leitura entre os brasileiros

O assunto geral continua sendo leitura, mas a discussão ganhou uma direção muito mais precisa. O estudante precisa analisar quais obstáculos dificultam a ampliação do hábito de ler entre a população brasileira. Uma redação dedicada exclusivamente aos benefícios da leitura poderia apresentar ideias excelentes e, ainda assim, não responder de maneira suficiente ao problema proposto.

É por isso que precisamos estabelecer uma regra desde agora: não escreva apenas sobre o assunto; escreva sobre o recorte do assunto. O tema funciona como uma lente que reduz um universo amplo de possibilidades até chegar ao problema que deverá orientar sua argumentação.

Assunto e tema não são exatamente a mesma coisa

Para organizar nosso raciocínio, podemos fazer uma distinção bastante útil. O assunto corresponde ao campo geral da discussão, enquanto o tema apresenta esse assunto associado a determinado problema, circunstância ou perspectiva.

Vamos recuperar o tema de nosso primeiro simulado:

Desafios para combater a desinformação na sociedade brasileira

Nesse caso, podemos identificar o seguinte:

Assunto geral: desinformação.

Problema específico: dificuldades relacionadas ao combate da desinformação.

Contexto: sociedade brasileira.

Perceba que uma redação inteiramente dedicada a explicar o significado de fake news permaneceria dentro do assunto geral, mas provavelmente não desenvolveria aquilo que o tema realmente pede. O estudante precisa avançar e investigar por que o enfrentamento da desinformação ainda encontra obstáculos na realidade brasileira.

Esse cuidado muda completamente a qualidade do planejamento. Quando o problema está bem delimitado, fica muito mais fácil selecionar argumentos realmente pertinentes e evitar parágrafos que apenas circulam ao redor do tema sem enfrentá-lo diretamente.

As palavras do tema funcionam como fronteiras

Cada palavra importante presente no tema estabelece algum limite para a discussão. Elas funcionam como pequenas fronteiras argumentativas, indicando o que precisa estar necessariamente contemplado em seu texto.

Vamos novamente decompor:

Desafios para combater a desinformação na sociedade brasileira

A palavra “desafios” indica que precisamos discutir obstáculos, dificuldades, barreiras ou fatores que impedem uma solução mais eficiente. O verbo “combater” direciona nossa atenção para o enfrentamento do fenômeno. “Desinformação” identifica o problema central, enquanto “sociedade brasileira” delimita o contexto em que a questão deverá ser analisada.

Se o estudante ignora uma dessas dimensões, sua abordagem pode se tornar excessivamente ampla. Ele poderia escrever, por exemplo, um texto muito bom sobre os impactos das fake news no mundo, mas ainda precisaria demonstrar como essa discussão responde especificamente aos desafios do combate à desinformação no Brasil.

Por isso, uma das primeiras operações que você deve fazer diante de uma proposta é desmontar o tema em partes. Essa leitura aparentemente simples permite perceber informações que poderiam passar despercebidas em uma leitura apressada.

Destaque mentalmente as palavras-chave

Vamos trabalhar com outro exemplo:

Caminhos para reduzir a evasão escolar entre jovens brasileiros

Antes de procurar repertórios ou construir uma frase de abertura, observe quais palavras orientam a discussão: caminhos, reduzir, evasão escolar e jovens brasileiros.

A expressão “evasão escolar” indica o problema central. O grupo especificamente mencionado são os jovens brasileiros, o que impede uma discussão completamente genérica sobre educação. Além disso, a palavra “caminhos” direciona o estudante para uma reflexão que também considere formas de enfrentamento.

Podemos falar sobre pobreza, necessidade de trabalhar, ausência de políticas de permanência, desmotivação, estrutura escolar e vários outros aspectos. Porém, qualquer argumento escolhido precisa retornar ao problema central: como esses fatores dificultam a permanência dos jovens na escola e que caminhos poderiam contribuir para reduzir a evasão?

Perceba como o próprio tema já contém pistas suficientes para organizar o raciocínio. A dificuldade começa quando lemos a proposta rapidamente e substituímos o tema real por uma versão muito mais genérica criada em nossa cabeça.

Transforme o tema em uma pergunta

Uma das estratégias mais eficientes para interpretar uma proposta consiste em transformar o tema em uma pergunta. Ao fazer isso, você deixa de observar apenas uma frase abstrata e começa a procurar possíveis respostas.

Veja:

Tema:

Desafios para ampliar o hábito da leitura entre os brasileiros.

Podemos transformá-lo em:

Pergunta:

Por que ainda é difícil ampliar o hábito da leitura entre os brasileiros?

Agora começam a surgir possíveis respostas: desigualdade no acesso aos livros, ausência de bibliotecas, dificuldades na formação de leitores, condições socioeconômicas, falta de incentivo familiar ou escolar e concorrência com outras formas de entretenimento.

Essas respostas ainda não formam uma redação pronta, mas fornecem matéria-prima para o planejamento. Você poderá analisar quais delas são mais relevantes, quais consegue desenvolver melhor e quais possuem repertórios capazes de fortalecer a argumentação.

Esse procedimento ajuda especialmente quem costuma ficar alguns minutos olhando para a folha e pensando: “Não sei o que escrever.” Muitas vezes, o problema não está na ausência de conhecimentos, mas na dificuldade de formular a pergunta que precisa ser respondida.

A tese nasce da interpretação

Na nossa primeira aula sobre Redação, aprendemos que a tese representa a posição central defendida ao longo do texto. Agora podemos avançar um pouco mais e perceber que uma tese consistente normalmente nasce de uma leitura precisa do tema.

Voltemos à proposta sobre leitura. Se nossa pergunta é “Por que ainda é difícil ampliar o hábito da leitura entre os brasileiros?”, poderíamos responder:

A ampliação do hábito da leitura no Brasil é dificultada tanto pela desigualdade de acesso aos livros quanto pela insuficiência de práticas permanentes de formação de leitores ao longo da educação básica.

Essa resposta já funciona como uma possível tese porque apresenta uma interpretação do problema e indica duas causas que poderão estruturar os parágrafos seguintes. O primeiro desenvolvimento poderia discutir o acesso desigual aos livros; o segundo, as limitações na formação de leitores.

Observe que não começamos procurando uma citação famosa para impressionar o corretor. Começamos compreendendo a pergunta, construímos uma resposta e somente depois poderemos selecionar repertórios capazes de fortalecer essa argumentação.

Esse é um princípio que repetiremos várias vezes ao longo da revisão: o repertório deve servir ao argumento, e não o argumento servir ao repertório decorado.

O perigo de falar sobre algo próximo do tema

Um dos erros mais traiçoeiros ocorre quando o estudante escreve sobre algo relacionado ao tema, mas não exatamente sobre o problema solicitado. Como o assunto parece próximo, ele pode passar vários parágrafos sem perceber que está se afastando do recorte.

Imagine a proposta:

Desafios para garantir a inclusão digital da população idosa no Brasil

Um estudante poderia escrever uma longa introdução sobre os avanços tecnológicos das últimas décadas. Depois, poderia comentar os benefícios dos smartphones, mencionar redes sociais, falar sobre inteligência artificial e discutir como a internet transformou a sociedade.

Tudo isso pertence ao universo tecnológico. Entretanto, ainda faltaria responder questões fundamentais: onde estão os idosos? Quais dificuldades específicas eles enfrentam? O que significa inclusão digital nesse contexto? Quais obstáculos impedem que essa inclusão seja efetivamente garantida no Brasil?

Um texto pode ser linguisticamente excelente e ainda apresentar problemas de abordagem. Por isso, mantenha o tema visível durante toda a produção e faça uma pergunta simples ao final de cada parágrafo: “Esta ideia realmente ajuda a responder à proposta?”

Se a resposta não for clara, provavelmente será necessário ajustar o caminho.

Não basta mencionar uma palavra do tema

Existe outra armadilha importante. Alguns estudantes percebem que estão se afastando do assunto e começam a repetir palavras do tema para criar uma aparência de pertinência.

Se a proposta fala sobre inclusão digital, por exemplo, repetir diversas vezes expressões como “inclusão digital”, “tecnologia” e “sociedade brasileira” não garante que a argumentação esteja realmente desenvolvendo o problema.

Uma redação pertinente não apenas utiliza o vocabulário do tema. Ela explica relações.

Você precisa mostrar por que existe determinada dificuldade, como ela se manifesta, quais grupos são afetados e que consequências podem surgir. É essa relação entre ideias que demonstra compreensão temática.

Os textos motivadores ajudam a revelar dimensões do problema

Além do tema, a prova apresenta uma coletânea de textos motivadores. Esses materiais podem trazer dados estatísticos, trechos informativos, imagens, informações históricas, conceitos ou diferentes perspectivas sobre a questão proposta.

A função deles não é entregar uma redação pronta. Eles ajudam o candidato a compreender melhor o problema.

Por isso, ao ler cada texto, procure identificar qual dimensão da discussão ele acrescenta. Um texto pode apresentar dados sobre a extensão do problema; outro pode apontar uma consequência; um terceiro pode trazer uma iniciativa existente; outro pode oferecer uma perspectiva histórica.

Quando você consegue identificar a função de cada elemento da coletânea, começa a perceber conexões importantes entre os textos. Essa leitura também ajuda a encontrar caminhos argumentativos sem depender exclusivamente de ideias que surgem de maneira improvisada.

Uma maneira eficiente de ler a coletânea

Para muitos estudantes, uma estratégia bastante funcional consiste em ler primeiro o tema rapidamente, apenas para saber qual problema está sendo apresentado. Depois, faça uma leitura cuidadosa dos textos motivadores e, ao final, retorne novamente ao tema.

Essa segunda leitura costuma ser muito mais produtiva porque agora você possui informações que não tinha no início.

Imagine que a proposta seja:

Desafios para promover a educação digital no Brasil

Na primeira leitura, você identifica o campo da discussão. Depois, ao observar os textos motivadores, talvez encontre informações sobre acesso à internet, alfabetização midiática, golpes virtuais, segurança de dados, desigualdade social ou formação dos professores.

Quando retornar ao tema, conseguirá compreender melhor aquilo que a expressão “educação digital” pode envolver naquele contexto específico.

A coletânea amplia sua visão, mas o tema continua funcionando como o centro da redação.

Não transforme os textos motivadores em sua redação

Outro erro bastante comum é construir o texto inteiro apenas reorganizando as informações apresentadas na coletânea. O estudante lê um dado, repete esse dado em um parágrafo, acrescenta uma frase e depois faz o mesmo com outro texto motivador.

Isso pode gerar uma produção pouco autoral.

Uma maneira mais eficiente consiste em resumir mentalmente a contribuição de cada texto. Você poderia anotar no rascunho:

Texto I → apresenta dimensão do problema.

Texto II → mostra uma consequência.

Texto III → apresenta dado estatístico.

Texto IV → aponta possível caminho de enfrentamento.

Depois, utilize essas informações para pensar. Você pode relacioná-las a conhecimentos construídos ao longo de sua formação e desenvolver uma posição própria sobre o problema.

Os textos motivadores são ponto de partida, não ponto de chegada.

Delimitar também significa saber o que não cabe

Talvez essa seja uma das habilidades mais difíceis para quem possui bastante repertório: aceitar que não é necessário colocar tudo na redação.

Imagine novamente o tema sobre educação digital. Durante o planejamento, você poderia se lembrar de acesso à internet, inteligência artificial, cyberbullying, golpes virtuais, fake news, privacidade, celulares nas escolas, alfabetização midiática, redes sociais, desigualdade econômica e vários outros assuntos.

Todos podem ter alguma relação com tecnologia.

Mas sua redação possui espaço limitado.

Se tentar trabalhar dez ideias, provavelmente não aprofundará nenhuma delas. O resultado poderá ser um texto cheio de assuntos importantes, mas com pouca argumentação.

Uma redação consistente geralmente faz o movimento contrário: seleciona poucas ideias e desenvolve bem cada uma delas.

Delimitar o tema, portanto, também significa aceitar que algumas ideias interessantes precisarão ficar fora do texto.

Escolha argumentos que você consiga desenvolver

Depois de compreender o tema, chegou o momento de selecionar os caminhos de argumentação. Não escolha automaticamente as duas primeiras ideias que aparecerem.

Pergunte:

Consigo explicar essa ideia?

Tenho algum exemplo ou repertório relacionado a ela?

Ela realmente responde ao recorte?

Ela é diferente do meu segundo argumento?

Imagine que, diante do tema sobre educação digital, você escolha:

desigualdade de acesso às tecnologias

e

falta de formação crítica para utilização dos ambientes digitais.

São dois caminhos diferentes e complementares. O primeiro permite discutir condições materiais e desigualdade social. O segundo pode abordar educação, leitura crítica, desinformação e segurança digital.

Outro estudante poderia escolher argumentos completamente diferentes e produzir uma redação igualmente válida.

Isso nos leva a um ponto essencial: não existe uma única tese correta para um tema do ENEM. Existem teses mais ou menos pertinentes, coerentes e bem desenvolvidas.

Diferencie palavra-chave de argumento

Às vezes, o estudante termina o planejamento com algo assim:

Argumento 1: educação.

Argumento 2: desigualdade.

Essas palavras podem indicar caminhos, mas ainda não constituem argumentos.

Você precisa transformar a palavra em uma ideia.

Por exemplo:

A insuficiente educação midiática dificulta que parte da população reconheça conteúdos enganosos no ambiente digital.

Agora existe uma relação entre causa e problema.

Ou:

A desigualdade socioeconômica limita o acesso de parte da população a equipamentos, conexão de qualidade e formação tecnológica.

Novamente temos uma ideia que pode ser desenvolvida.

Quanto melhor estiver formulado o argumento no rascunho, mais fácil será construir o parágrafo depois.

Observe os comandos presentes no tema

Algumas palavras aparecem com frequência em propostas de redação e mudam completamente o tipo de discussão esperado. Entre elas estão:

desafios, caminhos, impactos, efeitos, obstáculos, estratégias, importância, consequências e possibilidades.

Imagine três temas aparentemente semelhantes:

Impactos das redes sociais na vida dos jovens brasileiros

Aqui o foco está nas consequências.

Desafios para combater a violência nas redes sociais

Agora precisamos discutir principalmente os obstáculos relacionados ao enfrentamento do problema.

Caminhos para promover o uso responsável das redes sociais entre adolescentes

Nesse caso, a formulação direciona o texto para formas de promoção de um comportamento mais responsável.

Os três temas tratam de redes sociais, mas exigiriam projetos argumentativos diferentes.

Por isso, nunca reduza o tema ao substantivo principal. As palavras ao redor dele possuem tanta importância quanto.

Um pequeno treinamento

Vamos aplicar nosso método a um novo tema:

Desafios para ampliar o acesso à cultura entre jovens brasileiros

Primeiro, pergunte:

Qual é o assunto geral?

Cultura.

Agora identifique o recorte:

ampliação do acesso à cultura.

Existe um grupo específico?

Sim: jovens brasileiros.

Finalmente:

O que a proposta espera que eu discuta?

Os obstáculos que dificultam esse acesso.

Agora podemos transformar o tema em pergunta:

Por que ainda existem dificuldades para ampliar o acesso à cultura entre jovens brasileiros?

A partir dessa pergunta, podemos levantar hipóteses: desigualdade socioeconômica, concentração de equipamentos culturais, ausência de políticas públicas, custos de determinadas atividades, limitações de transporte, pouco incentivo ou dificuldades de acesso em determinadas regiões.

A próxima etapa seria selecionar duas ideias que ofereçam maior potencial de desenvolvimento.

Observe como toda a arquitetura inicial da redação surgiu simplesmente porque aprendemos a conversar com o tema por meio de perguntas.

Uma tese que parece boa, mas não responde ao problema

Imagine que, diante dessa proposta, o estudante escreva:

A cultura desempenha um papel fundamental na formação dos jovens, pois contribui para o desenvolvimento da criatividade, da sensibilidade e do pensamento crítico.

É uma afirmação razoável e poderia até fazer parte de uma introdução.

Mas ela responde diretamente à proposta?

Ainda não.

O tema não pergunta principalmente por que a cultura é importante para os jovens. Ele pergunta quais desafios dificultam a ampliação de seu acesso à cultura.

Uma tese mais próxima do recorte poderia ser:

A ampliação do acesso à cultura entre jovens brasileiros ainda encontra obstáculos relacionados à desigualdade socioeconômica e à concentração de equipamentos culturais em determinadas regiões e áreas urbanas.

Agora temos uma resposta direta ao problema.

Essa é a precisão que buscamos.

A introdução deverá anunciar um caminho que o desenvolvimento cumprirá

Quando estudarmos especificamente a introdução, aprofundaremos essa questão. Por enquanto, é importante compreender que sua tese também funciona como uma espécie de contrato com o leitor.

Se você afirma que dois fatores explicam determinado problema, os parágrafos seguintes precisam desenvolvê-los.

Não apresente na introdução:

falta de políticas públicas e desigualdade social

e depois utilize seus dois desenvolvimentos para falar apenas sobre influência das redes sociais e educação familiar.

O texto perde unidade.

Um bom projeto de texto permite que o leitor perceba uma sequência lógica:

problema → tese → argumentos → intervenção.

Tudo começa na interpretação da proposta.

Não comece procurando uma citação

Existe um comportamento bastante comum na preparação para a redação. O estudante recebe o tema e imediatamente tenta lembrar uma frase de filósofo, uma série, um filme ou um artigo da Constituição.

Isso pode inverter a lógica do texto.

Primeiro pergunte:

O que estou defendendo?

Depois:

Por que estou defendendo isso?

Somente então:

Qual repertório pode fortalecer essa explicação?

Quando o processo acontece nessa ordem, a referência entra naturalmente no argumento. Quando acontece ao contrário, existe o risco de o estudante distorcer o tema apenas para encaixar uma citação previamente decorada.

Repertório não deve comandar seu texto.

Sua tese deve comandar o repertório.

Amanhã vamos colocar tudo isso em prática

No Dia 12 da Revisão ENEM em 77 Dias, teremos nossa segunda proposta completa de redação:

Desafios para promover a educação digital no Brasil

Quero que amanhã você faça conscientemente tudo aquilo que aprendemos hoje antes de escrever a primeira linha.

Comece identificando:

Assunto geral: educação digital.

Depois pergunte:

O que significa promover educação digital?

Quais obstáculos podem dificultar esse processo?

Por que o tema delimita a discussão ao Brasil?

Que grupos ou instituições podem estar envolvidos?

Em seguida, transforme o tema em uma pergunta e formule sua própria resposta. Essa resposta começará a formar sua tese.

Somente depois pense nos dois argumentos que desenvolverá.

Esse será um excelente treinamento porque a aula de hoje e a proposta de amanhã foram planejadas justamente para funcionar em sequência.

Crie um pequeno roteiro antes de escrever

A partir de agora, vale a pena reservar alguns minutos para escrever um esquema muito simples no rascunho:

Tema: o que exatamente está sendo pedido?

Problema: qual questão precisa ser explicada?

Tese: qual é minha resposta?

Argumento 1: qual será meu primeiro eixo?

Argumento 2: qual será meu segundo eixo?

Repertório: que conhecimento ajuda a aprofundar cada argumento?

Intervenção: que ação pode responder aos problemas discutidos?

Esse planejamento não precisa ocupar meia página. Algumas palavras podem ser suficientes, desde que representem decisões realmente tomadas.

Planejar não significa atrasar a redação. Significa evitar que você descubra no terceiro parágrafo que não sabe para onde está indo.

E se eu interpretar errado durante os treinos?

Isso poderá acontecer, e não há motivo para esconder o erro.

Se alguém corrigir seu texto e disser que você se afastou do tema, volte à proposta. Identifique qual palavra ignorou e em que momento sua argumentação tomou outro caminho.

Talvez tenha confundido causas com consequências.

Talvez tenha falado sobre o assunto geral sem abordar o problema específico.

Talvez tenha ignorado um grupo social indicado na proposta.

Descobrir esse padrão durante os treinos é extremamente valioso.

Nossa meta não é passar os próximos 67 dias sem cometer erros.

Nossa meta é cometer erros antes do ENEM, compreender por que eles aconteceram e reduzir a chance de repeti-los na prova.

Não tenha pressa para começar

No dia do exame, o relógio estará correndo e você terá muitas questões pela frente. Mesmo assim, não economize justamente os minutos utilizados para interpretar a proposta.

Leia o tema.

Leia a coletânea.

Volte ao tema.

Identifique suas palavras-chave.

Transforme-o em uma pergunta.

Pense na resposta.

Escolha seus argumentos.

Só depois comece a redigir.

Uma redação iniciada três minutos mais tarde, mas baseada em um projeto claro, pode ser muito mais eficiente do que outra iniciada imediatamente e construída sem direção.

Faltam 67 dias: aprenda a enfrentar qualquer tema

Todos os anos aparecem especulações sobre qual será o tema da Redação do ENEM. Surgem listas, apostas, previsões e até supostos temas “certeiros”.

Conhecer atualidades e ampliar seu repertório é importante, mas não coloque sua preparação inteira na esperança de adivinhar o assunto da prova.

Existe uma estratégia muito mais segura: aprender a interpretar qualquer proposta que aparecer.

Se você souber localizar o problema, delimitar o recorte, construir uma tese e selecionar argumentos, estará preparado para reagir a temas diferentes daqueles que imaginava.

Esse é exatamente o treinamento que estamos fazendo aqui.

Hoje faltam 67 dias para o ENEM. Ainda teremos várias propostas de redação nas próximas quintas-feiras e, a cada uma delas, você terá uma nova oportunidade de aperfeiçoar esse processo.

Amanhã teremos o primeiro grande teste da habilidade trabalhada hoje.

Quando encontrar o tema sobre educação digital, não tenha pressa para escrever.

Leia.

Questione.

Delimite.

Planeje.

E então argumente.

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Antes de encontrar a frase perfeita para começar sua redação, encontre a pergunta exata que o tema está fazendo: quem compreende bem o problema já começou a construir a resposta.