Olá, alunos e amigos do blog A Escola Literária!
Em 1897, o Exército brasileiro anunciou a destruição de Canudos como uma vitória da República contra aquilo que seus dirigentes apresentavam como uma ameaça à ordem nacional. O arraial liderado por Antônio Conselheiro, no sertão da Bahia, havia resistido a sucessivas expedições militares e se transformado, aos olhos das elites políticas e de grande parte da imprensa, em símbolo do atraso, do fanatismo e da suposta oposição ao novo regime republicano. Quando os últimos resistentes foram derrotados, parecia estar encerrado mais um episódio turbulento dos primeiros anos da República.
Euclides da Cunha esteve lá como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo e partiu para o sertão compartilhando, em grande medida, a visão republicana predominante entre os setores urbanos e letrados. O que encontrou, entretanto, abalou suas certezas. A guerra que deveria representar o triunfo da civilização revelou um país profundamente dividido, no qual brasileiros praticamente desconheciam outros brasileiros. De um lado estava o poder institucional da República; de outro, uma população sertaneja miserável, religiosa e abandonada que havia construído sua própria comunidade em uma das regiões mais difíceis do território nacional.
Dessa experiência nasceu Os Sertões, publicado em 1902. A obra é difícil de enquadrar em uma única categoria: possui elementos de reportagem, ensaio histórico, estudo sociológico, descrição geográfica, análise política e literatura. Mais do que registrar a Guerra de Canudos, Euclides da Cunha transformou aquele conflito em uma pergunta incômoda sobre o próprio Brasil: afinal, quem eram os verdadeiros representantes da civilização e quem eram os bárbaros?
Canudos: antes de compreender o livro, é preciso compreender a guerra
A Guerra de Canudos ocorreu no sertão da Bahia entre 1896 e 1897, poucos anos depois da Proclamação da República, em 1889. O novo regime ainda buscava consolidar sua autoridade e enfrentava conflitos políticos, militares e sociais em diferentes regiões do país. Nesse contexto, qualquer movimento que parecesse questionar a ordem republicana poderia ser interpretado como uma ameaça.
Foi nesse cenário que cresceu a comunidade de Belo Monte, mais conhecida como Canudos, liderada por Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro. Durante anos, Conselheiro percorreu diferentes localidades do Nordeste pregando, aconselhando moradores, participando da construção e reforma de igrejas e reunindo seguidores. Sua religiosidade intensa e suas críticas a determinadas mudanças promovidas pelo novo regime contribuíram para que fosse retratado como inimigo da República.
Canudos atraiu milhares de sertanejos. Para uma população submetida à seca, à pobreza, à concentração fundiária e à ausência do Estado, a comunidade oferecia uma possibilidade concreta de reorganização da vida. Esse aspecto é fundamental para compreender o conflito: reduzir Canudos simplesmente a um agrupamento de fanáticos religiosos significa ignorar as condições sociais que fizeram tantas pessoas abandonarem suas antigas vidas para seguir Conselheiro.
A comunidade cresceu rapidamente e passou a preocupar autoridades locais, proprietários de terras e representantes do governo. O conflito escalou até que forças militares foram enviadas para destruir o arraial. O que parecia uma operação simples transformou-se em uma guerra brutal.
Quatro expedições para derrotar Canudos
A resistência sertaneja surpreendeu o governo. As primeiras expedições enviadas contra Canudos foram derrotadas, o que provocou enorme repercussão nacional. Para uma República que desejava demonstrar força e modernidade, ser vencida por sertanejos mal equipados era uma humilhação política e militar.
A derrota da expedição comandada pelo coronel Antônio Moreira César, em março de 1897, aumentou ainda mais o temor de que Canudos representasse uma conspiração monarquista. Conhecido por sua atuação violenta na repressão à Revolução Federalista, Moreira César era uma figura de grande prestígio entre setores republicanos. Sua morte em combate ajudou a transformar a campanha seguinte em uma questão de honra nacional.
A quarta expedição mobilizou milhares de soldados e uma estrutura militar muito superior àquela existente nas campanhas anteriores. Canudos foi cercada e submetida a sucessivos ataques até sua destruição, em outubro de 1897. O confronto terminou com enorme mortandade entre os habitantes do arraial, incluindo mulheres, idosos e crianças.
É justamente essa desproporção entre o discurso de defesa da República e a violência empregada contra brasileiros miseráveis que se tornaria um dos grandes problemas de Os Sertões.
Euclides da Cunha chegou a Canudos como republicano
Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha nasceu em 1866, no Rio de Janeiro. Formou-se engenheiro militar e foi um defensor entusiasmado dos ideais republicanos. Como muitos intelectuais de sua geração, acreditava que a República representaria a modernização do Brasil e a superação das estruturas consideradas atrasadas do Império.
Quando começou a acompanhar os acontecimentos de Canudos, Euclides inicialmente interpretou o movimento segundo a perspectiva dominante nos grandes centros urbanos. A comunidade sertaneja era apresentada como monarquista e retrógrada, enquanto o Exército representaria a modernidade republicana.
Em 1897, enviado ao sertão como correspondente de O Estado de S. Paulo, Euclides acompanhou parte da campanha final. A experiência colocou o jornalista diante de uma realidade muito mais complexa do que aquela construída pelas notícias que circulavam no Rio de Janeiro e em São Paulo. Os sertanejos que deveriam representar a barbárie demonstravam resistência extraordinária, enquanto as forças identificadas com a civilização praticavam atos de extrema violência.
A contradição permaneceria com Euclides durante os anos seguintes e se tornaria uma das forças centrais de Os Sertões.
Um livro dividido em três partes
A organização de Os Sertões revela a ambição intelectual do autor. Euclides não começa diretamente pela guerra. Antes de narrar o conflito, procura explicar o território e as pessoas que nele vivem. A obra é dividida em três grandes partes: A Terra, O Homem e A Luta.
Essa estrutura parte de uma concepção bastante influenciada pelas teorias científicas do final do século XIX. Euclides acreditava que o ambiente ajudava a determinar as características humanas e que, para compreender um acontecimento histórico, era necessário estudar primeiro o espaço e depois a população que nele se desenvolveu.
Hoje sabemos que várias teorias raciais, deterministas e evolucionistas utilizadas naquele período são cientificamente superadas e carregadas de preconceitos. Entretanto, compreender essa influência é essencial para interpretar o livro historicamente. Um dos aspectos mais interessantes da obra é justamente perceber como a experiência concreta de Canudos muitas vezes entra em conflito com as teorias que Euclides utilizava para tentar explicar aquela população.
A Terra: o sertão antes do sertanejo
Na primeira parte, Euclides realiza uma extensa descrição do sertão nordestino. O relevo, a vegetação, os rios, o clima e principalmente a seca recebem atenção minuciosa. Para um leitor acostumado ao romance tradicional, essas páginas podem causar estranhamento, pois o autor utiliza vocabulário técnico de geologia, botânica, climatologia e geografia.
Entretanto, a paisagem não funciona apenas como cenário. Ela participa da construção do significado da obra. O sertão é apresentado como um espaço extremo, submetido a longos períodos de seca e transformações violentas da natureza. Sobreviver naquele ambiente exige adaptação, resistência e conhecimento das condições locais.
Essa descrição prepara o leitor para compreender por que os habitantes de Canudos conseguiram resistir durante tanto tempo ao Exército. Os soldados enviados das cidades enfrentavam um território que desconheciam, enquanto os sertanejos sabiam interpretar suas trilhas, sua vegetação e suas condições climáticas. A geografia, portanto, também participa da guerra.
O Homem: quem é o sertanejo?
Na segunda parte, Euclides procura explicar a formação humana do sertão. É nesse momento que aparecem algumas das ideias mais problemáticas da obra, sobretudo aquelas relacionadas às teorias raciais e ao determinismo característicos de parte do pensamento científico do século XIX.
O autor tenta classificar os diferentes grupos que formaram a população brasileira e estabelecer relações entre raça, ambiente e comportamento. Essas concepções devem ser lidas criticamente. Elas não correspondem ao conhecimento científico contemporâneo e fazem parte de um contexto histórico em que teorias racialistas eram utilizadas para hierarquizar populações e interpretar sociedades.
No entanto, o próprio contato de Euclides com a realidade sertaneja começa a desafiar algumas dessas concepções. O homem que deveria ser considerado inferior segundo determinados modelos científicos demonstra extraordinária capacidade de sobrevivência e resistência. Surge então uma das frases mais conhecidas da literatura brasileira: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte.”
A afirmação sintetiza uma das grandes tensões de Os Sertões. Euclides ainda utiliza conceitos científicos marcados pelo pensamento de sua época, mas aquilo que testemunha impede que simplesmente despreze o sertanejo. O homem do interior passa a ser reconhecido como produto de condições históricas e ambientais extremamente adversas e, ao mesmo tempo, como alguém capaz de resistir a elas.
Antônio Conselheiro: fanático ou líder de uma população abandonada?
Antônio Conselheiro ocupa posição central na tentativa de Euclides de compreender Canudos. O autor frequentemente o interpreta utilizando categorias psicológicas e científicas próprias de seu tempo, associando sua liderança ao fanatismo e à instabilidade. Essa representação precisa ser confrontada com estudos históricos posteriores, que oferecem uma compreensão mais ampla do movimento e de seu líder.
Conselheiro era profundamente religioso e desenvolveu uma pregação marcada por referências católicas populares, críticas morais e desconfiança em relação a determinadas transformações políticas. Seu discurso encontrou receptividade entre populações que conviviam com pobreza, secas recorrentes e reduzida presença das instituições públicas.
O crescimento de Canudos não pode ser explicado apenas pelo carisma de um líder. A comunidade atendia a necessidades concretas de milhares de pessoas que estavam praticamente fora do projeto de modernização defendido pelas elites republicanas. Para compreender por que Conselheiro reuniu tantos seguidores, é necessário perguntar também o que a sociedade brasileira oferecia àqueles sertanejos antes de Canudos.
A Luta: quando a reportagem se transforma em denúncia
A terceira e mais extensa parte do livro narra a Guerra de Canudos. É aqui que a experiência jornalística de Euclides da Cunha aparece com maior intensidade. O autor descreve as expedições militares, as estratégias de combate, as derrotas do Exército, o cerco e finalmente a destruição da comunidade.
A narrativa ganha ritmo dramático à medida que a resistência se prolonga. Os sertanejos, embora possuíssem recursos militares muito inferiores, aproveitavam seu conhecimento do território e demonstravam uma disposição para a luta que surpreendia os soldados. O conflito deixa de parecer uma simples operação contra rebeldes e assume as proporções de uma guerra entre brasileiros.
Quanto mais a narrativa avança, mais difícil se torna sustentar a divisão inicial entre uma República civilizada e um sertão bárbaro. A violência empregada pelo Exército produz uma inversão inquietante: aqueles que diziam levar a civilização ao interior passam a utilizar métodos que o próprio conceito de civilização deveria condenar.
Civilização contra barbárie?
Essa oposição constitui uma das chaves mais importantes para compreender Os Sertões. No final do século XIX, as elites brasileiras frequentemente associavam as grandes cidades, a ciência, a República e os modelos europeus à civilização. O sertão, por outro lado, era visto como espaço do atraso, da ignorância e da barbárie.
Canudos parecia encaixar-se perfeitamente nessa visão. Uma população pobre, profundamente religiosa e liderada por um pregador popular poderia ser apresentada como obstáculo ao progresso nacional. Destruí-la seria, nessa lógica, uma maneira de defender a modernidade.
O problema é que a própria guerra desmonta essa interpretação. Se a civilização exige a destruição completa de uma comunidade e admite a violência contra prisioneiros e populações vulneráveis, o significado da palavra precisa ser questionado. A barbárie já não pode ser atribuída automaticamente aos sertanejos.
É justamente nesse ponto que Os Sertões ultrapassa o registro jornalístico e se transforma em uma reflexão sobre o Brasil.
O Brasil descobriu que não conhecia o Brasil
Canudos revelou a distância existente entre o litoral urbanizado e o interior do país. Para grande parte da população das cidades, o sertão era praticamente desconhecido. As notícias chegavam carregadas de preconceitos, exageros e interpretações políticas.
Essa distância não era apenas geográfica. Era também social, econômica e cultural. Enquanto determinados setores discutiam modernização, positivismo e modelos europeus de organização política, milhões de brasileiros viviam sem acesso efetivo aos benefícios prometidos pela República.
O conflito mostrou que o projeto nacional não incluía todos da mesma maneira. Os habitantes de Canudos eram brasileiros, mas foram frequentemente tratados como se pertencessem a um país estranho e hostil. O Exército marchou contra eles como se estivesse combatendo um inimigo externo.
Por isso, a guerra pode ser entendida como uma espécie de guerra civil não declarada: brasileiros lutando contra brasileiros porque uma parte do país não conseguia reconhecer a outra como integrante legítima da mesma nação.
A imprensa e a construção do inimigo
Outro aspecto importante é o papel desempenhado pela imprensa. Antes que o país conhecesse efetivamente Canudos, jornais já ajudavam a construir uma imagem ameaçadora da comunidade. Rumores sobre uma conspiração monarquista ganharam força em um momento no qual a República ainda se sentia politicamente vulnerável.
A repetição dessas informações contribuiu para transformar o arraial em inimigo nacional. Quando as expedições militares foram derrotadas, o medo cresceu ainda mais. A resistência dos sertanejos, em vez de provocar imediatamente uma investigação sobre suas causas, foi interpretada como prova de que existia uma grande ameaça organizada contra o regime.
A própria trajetória de Euclides demonstra como essa narrativa poderia influenciar até mesmo intelectuais bem informados. Sua mudança de perspectiva não ocorreu porque abandonou instantaneamente suas convicções, mas porque a realidade observada em Canudos já não cabia inteiramente dentro da explicação que havia recebido.
Essa dimensão torna Os Sertões particularmente interessante para o leitor contemporâneo: o livro também permite pensar sobre como discursos públicos são construídos, como grupos são transformados em inimigos e como uma versão repetida muitas vezes pode adquirir aparência de verdade antes que os fatos sejam plenamente conhecidos.
Ciência e literatura no mesmo livro
Uma das características mais marcantes da escrita euclidiana é a mistura de diferentes formas de conhecimento. Em determinadas páginas, o autor parece um geógrafo descrevendo formações do relevo; em outras, assume o olhar de um historiador, de um sociólogo, de um jornalista ou de um escritor interessado em criar imagens de enorme força expressiva.
O vocabulário científico convive com metáforas, antíteses, hipérboles e construções cuidadosamente elaboradas. A linguagem pode ser densa e exige atenção do leitor, mas essa complexidade participa do projeto da obra: Euclides deseja compreender um acontecimento que considera igualmente complexo.
Essa mistura também ajuda a explicar por que Os Sertões ocupa posição singular na literatura brasileira. Não se trata propriamente de um romance, embora utilize recursos literários; não é apenas reportagem, embora tenha origem na experiência jornalística; e tampouco pode ser reduzido a um estudo científico. A força do livro nasce justamente da convivência dessas diferentes perspectivas.
Por que Os Sertões pertence ao Pré-Modernismo?
O Pré-Modernismo brasileiro, situado convencionalmente entre o início do século XX e a Semana de Arte Moderna de 1922, não constitui uma escola literária organizada por um manifesto comum. O termo reúne autores diferentes que, cada um a seu modo, começaram a dirigir a literatura para aspectos do país pouco representados pela tradição oficial.
Euclides da Cunha volta-se para o sertão e seus habitantes; Lima Barreto denuncia o racismo, a burocracia e a exclusão nos espaços urbanos; Monteiro Lobato direciona parte de sua produção para o interior paulista e para problemas econômicos e sociais. Apesar das enormes diferenças entre esses escritores, existe uma preocupação comum em revelar contradições escondidas pelo discurso de modernização nacional.
Os Sertões é fundamental nesse processo porque coloca o interior do Brasil no centro de uma obra de enorme ambição intelectual. O sertanejo deixa de ser apenas figura pitoresca e passa a representar um problema nacional. A literatura começa a olhar para regiões, grupos e conflitos que seriam fundamentais para compreender o país no século XX.
Uma linguagem ainda distante do Modernismo
Embora seja considerado pré-modernista, Euclides da Cunha não escreve com a simplicidade que seria defendida por parte dos modernistas de 1922. Sua linguagem é frequentemente erudita, técnica e marcada por longos períodos sintáticos. Em alguns momentos, a leitura exige consulta ao dicionário e conhecimentos de áreas que ultrapassam a literatura.
Essa aparente contradição ajuda a compreender o significado do termo Pré-Modernismo. A renovação não acontece necessariamente na forma linguística. Ela está sobretudo no objeto observado e na postura crítica diante da realidade brasileira.
Euclides ainda utiliza uma linguagem ligada à tradição intelectual do século XIX, mas dirige esse instrumental para um Brasil que a literatura dominante conhecia pouco. O novo está principalmente na descoberta do país profundo e na denúncia das contradições existentes por trás do discurso oficial de progresso.
O problema das teorias raciais em Os Sertões
Uma leitura contemporânea precisa enfrentar diretamente um aspecto desconfortável da obra. Euclides utiliza conceitos raciais e deterministas que circulavam amplamente entre intelectuais de sua época. A humanidade era frequentemente dividida em supostas raças com características biológicas, morais e intelectuais próprias, e a miscigenação era interpretada por determinados autores como um problema para o desenvolvimento das sociedades.
Essas teorias foram posteriormente desacreditadas cientificamente e hoje reconhecemos seu papel na sustentação de hierarquias e preconceitos raciais. Por isso, não devemos reproduzir as classificações de Euclides como se fossem explicações válidas sobre a sociedade brasileira.
Entretanto, simplesmente apagar esse aspecto também prejudicaria a compreensão histórica do livro. O mais produtivo é perceber a tensão existente entre teoria e observação. Euclides chega ao sertão carregando determinadas categorias intelectuais, mas encontra pessoas que frequentemente contradizem suas expectativas. A admiração pela resistência sertaneja convive, portanto, com conceitos que hoje sabemos serem inadequados.
Essa contradição faz de Os Sertões também um documento sobre os limites do pensamento científico de seu tempo.
A frase que mudou a interpretação da guerra
Uma das passagens mais importantes aparece quando Euclides reconhece a dimensão criminosa da campanha militar. Logo no início da obra, afirma que a campanha de Canudos foi, na significação integral da palavra, um crime.
Essa avaliação é decisiva porque vem de alguém que havia apoiado a causa republicana. Euclides não escreve como um adversário tradicional do novo regime tentando desacreditá-lo. Sua denúncia nasce do choque entre os princípios que defendia e aquilo que testemunhou.
Isso torna Os Sertões mais complexo do que uma simples condenação da República. O autor continua ligado a muitos ideais de modernização, ciência e progresso, mas percebe que esses conceitos podem ser utilizados para justificar violência quando uma parte da população é considerada inferior ou incompatível com o projeto nacional.
O livro passa, assim, a questionar a própria ideia de progresso quando ela é construída sem inclusão social.
O fim de Canudos
A resistência terminou em outubro de 1897. Antônio Conselheiro havia morrido pouco antes do encerramento dos combates, e os últimos defensores continuaram lutando mesmo diante da superioridade militar esmagadora das tropas governamentais.
A descrição final tornou-se uma das passagens mais conhecidas de Os Sertões. Euclides apresenta Canudos como uma comunidade que não se rendeu. A resistência até os últimos momentos transforma o que poderia ser apresentado como simples vitória militar em uma cena profundamente trágica.
O arraial foi destruído, mas sua destruição produziu uma derrota moral para o discurso civilizatório que justificava a campanha. O Estado venceu militarmente, porém a narrativa de Euclides obrigou o país a confrontar o custo dessa vitória.
Canudos desapareceu fisicamente, mas entrou definitivamente para a história brasileira.
Como Os Sertões pode aparecer nos vestibulares?
Nos vestibulares, a obra costuma ser relacionada ao Pré-Modernismo, ao regionalismo, à Guerra de Canudos e à descoberta de um Brasil distante dos grandes centros urbanos. Também é importante conhecer sua divisão em A Terra, O Homem e A Luta, entendendo que essa organização reflete uma tentativa de explicar o conflito a partir do ambiente, da população e dos acontecimentos históricos.
As bancas também podem trabalhar a linguagem euclidiana, marcada pela mistura entre vocabulário científico e recursos literários. Antíteses, imagens grandiosas, descrições minuciosas e construções sintáticas complexas são características importantes do estilo do autor.
Outro ponto fundamental é a contradição entre civilização e barbárie. Uma questão pode pedir ao candidato que perceba como essa oposição é progressivamente problematizada ao longo da obra. O Exército, inicialmente associado ao progresso republicano, pratica violências que colocam em dúvida sua condição de representante da civilização, enquanto os sertanejos, inicialmente tratados como atrasados, demonstram organização, resistência e profundo conhecimento do território.
Também vale prestar atenção às teorias científicas do século XIX presentes no livro. Uma leitura atual deve ser capaz de reconhecê-las historicamente sem tratá-las como conhecimentos válidos no presente.
Por que ler Os Sertões hoje?
Ler Os Sertões no século XXI não significa aceitar todas as interpretações de Euclides da Cunha. Pelo contrário, uma boa leitura exige reconhecer tanto a genialidade quanto as limitações do autor. É preciso compreender sua denúncia da violência contra Canudos e, simultaneamente, questionar os pressupostos raciais e deterministas utilizados em diferentes momentos da obra.
Essa leitura crítica torna o livro ainda mais relevante. Os Sertões mostra um intelectual tentando reorganizar suas certezas diante de uma realidade que não correspondia às teorias que conhecia. Há algo profundamente importante nesse processo: a experiência obriga o observador a reconsiderar aquilo que acreditava saber.
A obra também continua necessária porque discute quem participa efetivamente do projeto nacional. Quando determinados grupos são vistos apenas como obstáculos ao progresso, abre-se espaço para que sua exclusão seja apresentada como necessária ou inevitável. Canudos demonstra até onde essa lógica pode chegar.
Afinal, quem era civilizado e quem era bárbaro?
Talvez essa seja a pergunta mais poderosa deixada por Os Sertões. No início da campanha, a resposta parecia evidente para grande parte da elite republicana: a civilização estava nas cidades, nas instituições, na ciência e no Exército; a barbárie estava no sertão, na pobreza e no fanatismo atribuído aos seguidores de Antônio Conselheiro.
Depois da guerra, essa certeza já não podia permanecer intacta.
Os sertanejos lutaram por uma comunidade que consideravam sua casa. O Estado, por sua vez, mobilizou enorme poder militar para eliminar um agrupamento de brasileiros que havia sido transformado em ameaça nacional. A vitória militar não resolveu a desigualdade, não integrou o sertão ao projeto republicano e não eliminou as causas sociais que haviam permitido o crescimento de Canudos.
Euclides da Cunha transformou essa contradição em literatura. Ao fazer isso, produziu uma das obras fundamentais para compreender o Brasil: um país que desejava apresentar-se como moderno enquanto ainda desconhecia, marginalizava e, em determinadas circunstâncias, combatia parte significativa de sua própria população.
Os Sertões permanece justamente porque Canudos não é apenas uma história sobre o passado. É também uma advertência sobre o perigo de dividir uma sociedade entre aqueles considerados dignos de participar da civilização e aqueles tratados como obstáculos a serem removidos. Quando o país deixa de reconhecer parte de seus próprios cidadãos, a fronteira entre civilização e barbárie pode estar exatamente no lugar oposto daquele que imaginávamos.
Gostou deste conteúdo? Curta o post, assine o blog A Escola Literária e conte nos comentários: depois de conhecer a Guerra de Canudos, quem você considera que representou a verdadeira barbárie naquele conflito? Compartilhe este artigo com seus amigos e colegas que estão estudando para o ENEM e os vestibulares e ajude mais estudantes a conhecerem essa obra fundamental da literatura brasileira.
Acompanhe também nossos conteúdos
Instagram — @profeduardonagai
TikTok — @eduardonagai2
YouTube — @aescolaliteraria
Para continuar estudando Literatura, Gramática, Redação e vestibulares, acesse www.escolaliteraria.com.
