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Você escreveria “Ele é favorável e contrário à proposta”? A frase pode até parecer compreensível à primeira leitura, mas existe nela um problema importante: os adjetivos favorável e contrário não estabelecem exatamente a mesma relação de regência. Somos favoráveis a alguma coisa, mas podemos ser contrários a alguma coisa — neste caso específico, ambos admitem “a”; porém, quando estruturas coordenadas reúnem palavras que exigem preposições diferentes, simplesmente compartilhar um único complemento pode produzir uma construção inadequada ou, no mínimo, ambígua.

É justamente nesse ponto que dois assuntos gramaticais se encontram: regência nominal e paralelismo sintático. A regência determina quais preposições substantivos, adjetivos e advérbios exigem para estabelecer relações com seus complementos. O paralelismo, por sua vez, ajuda a organizar elementos coordenados segundo estruturas sintáticas equivalentes. Quando uma frase se torna longa, reúne vários complementos ou coordena palavras com regências distintas, conhecer apenas uma lista de preposições deixa de ser suficiente.

Esse tipo de construção aparece com frequência na escrita formal, nas questões de vestibulares e, principalmente, na redação. Expressões como “necessidade de”, “favorável a”, “compatível com”, “respeito a/por”, “capacidade de” e “ansioso por/para” fazem parte do nosso cotidiano linguístico, mas podem provocar erros quando combinadas dentro de períodos mais complexos.

Por isso, neste artigo vamos além da simples memorização. Vamos compreender como funciona a regência nominal, qual é sua relação com o paralelismo e como descobrir quando uma preposição precisa ser repetida, substituída ou mantida. Quando entendemos a estrutura da frase, escolher a preposição certa deixa de depender apenas daquilo que “soa melhor”.

O que é regência nominal?

Chamamos de regência nominal a relação estabelecida entre um nome e o termo que completa ou especifica seu sentido. Quando falamos em “nome”, estamos tratando principalmente de substantivos, adjetivos e advérbios. Em determinadas construções, esses elementos exigem que seu complemento seja introduzido por uma preposição específica.

Observe a expressão “necessidade de mudanças”. O substantivo necessidade estabelece uma relação com “mudanças” por intermédio da preposição de. O mesmo ocorre em “favorável à proposta”, na qual o adjetivo favorável seleciona a preposição a, e em “compatível com as regras”, em que compatível estabelece normalmente sua relação por meio de com.

Essas preposições não aparecem por acaso. Elas fazem parte do modo como determinadas palavras se relacionam com seus complementos na língua portuguesa. Por isso, estudar regência significa compreender não apenas o significado isolado de uma palavra, mas também as conexões sintáticas e semânticas que ela estabelece dentro da frase.

É importante ainda perceber que nem sempre existe uma única possibilidade de regência. Alguns nomes admitem mais de uma preposição, dependendo do sentido ou do uso consagrado. A consulta a bons dicionários e gramáticas é especialmente útil nesses casos, sobretudo quando estamos produzindo um texto formal.

Regência nominal não é regência verbal

A diferença entre regência nominal e verbal está principalmente na palavra que determina a relação. Na regência verbal, quem exige ou seleciona determinada preposição é um verbo. Na regência nominal, essa função pertence a um substantivo, adjetivo ou advérbio.

Compare “Ele necessita de apoio” com “Ele tem necessidade de apoio”. Na primeira frase, a preposição de está relacionada ao verbo “necessitar”; portanto, temos um caso de regência verbal. Na segunda, quem estabelece a relação é o substantivo “necessidade”, caracterizando a regência nominal.

Outro exemplo ajuda a perceber essa diferença. Podemos dizer “Ele confia em seus colegas”, caso de regência verbal, porque o verbo “confiar” exige a preposição em. Também podemos dizer “Ele está confiante em sua equipe”, construção em que o adjetivo “confiante” estabelece a relação com o complemento.

Essa distinção é importante porque uma questão pode misturar os dois fenômenos dentro do mesmo período. O candidato precisa identificar qual palavra está efetivamente determinando a presença da preposição antes de aplicar qualquer regra.

Substantivos também possuem regência

É comum associarmos regência principalmente aos verbos, mas muitos substantivos dependem de complementos preposicionados. Dizemos, por exemplo, amor a/por alguém, necessidade de alguma coisa, respeito a/por alguém, aversão a alguma coisa, medo de algo, obediência a alguém e capacidade de realizar determinada ação.

Observe a construção “A necessidade de investimentos tornou-se evidente”. O substantivo “necessidade” não apresenta, nesse contexto, uma informação completa sozinho. A expressão “de investimentos” especifica aquilo de que se necessita e estabelece com o substantivo uma relação de complementação.

Em períodos mais longos, essa estrutura pode ficar menos evidente. Imagine: “A necessidade de investimentos em infraestrutura e de ampliação dos programas sociais tornou-se evidente”. Temos dois elementos coordenados relacionados ao substantivo “necessidade”: de investimentos e de ampliação. A repetição da preposição ajuda a deixar claro que os dois termos ocupam posições sintáticas equivalentes.

É justamente quando aparecem essas coordenações que o paralelismo começa a exercer um papel fundamental.

Adjetivos e suas preposições

Os adjetivos constituem um dos grupos em que as dúvidas de regência nominal aparecem com maior frequência. Algumas combinações são tão comuns que praticamente não percebemos a preposição: somos favoráveis a uma proposta, contrários a uma decisão, compatíveis com determinada situação, capazes de realizar uma tarefa e responsáveis por alguma atividade.

O problema aparece quando tentamos coordenar dois adjetivos que não possuem a mesma regência. Considere: “O candidato mostrou-se apto e interessado no cargo”. A construção merece atenção porque apto pode reger “a” ou “para”, enquanto interessado normalmente se constrói com “em”. Ao utilizar apenas “no cargo”, o complemento se liga naturalmente a “interessado”, mas não reproduz de maneira transparente a regência esperada pelo primeiro adjetivo.

Uma redação mais precisa poderia optar por “O candidato mostrou-se apto para o cargo e interessado nele”. Agora cada adjetivo estabelece sua própria relação: apto para e interessado em. A frase fica mais clara justamente porque não tentamos obrigar palavras de regências distintas a compartilhar artificialmente a mesma preposição.

Essa preocupação se torna ainda mais importante em textos acadêmicos, jornalísticos e argumentativos, nos quais a clareza das relações sintáticas contribui diretamente para a compreensão do raciocínio.

E os advérbios?

Alguns advérbios também estabelecem relações de regência. É particularmente frequente encontrarmos advérbios terminados em -mente derivados de adjetivos que conservam a regência da palavra de origem.

Se algo é “relativo a determinado assunto”, podemos escrever que uma informação está “relativamente a determinada questão”, embora na língua contemporânea também sejam frequentes outras construções conforme o contexto. Da mesma maneira, certas locuções adverbiais possuem preposições fixadas pelo uso.

Para o estudante, o mais importante é não pensar na regência como fenômeno restrito a uma única classe gramatical. Sempre que houver um termo dependente de outro e essa relação for intermediada por uma preposição, vale perguntar qual palavra determina essa escolha.

Essa pergunta — “quem está exigindo esta preposição?” — é uma das ferramentas mais úteis para analisar períodos complexos.

Afinal, o que é paralelismo?

O paralelismo sintático consiste na organização de elementos que desempenham funções equivalentes segundo estruturas gramaticais também equivalentes. Ele aparece principalmente em enumerações, comparações e coordenações.

Considere a frase: “O estudante precisa ler os textos, revisar o conteúdo e resolver os exercícios”. Os três elementos coordenados apresentam a mesma estrutura: verbo no infinitivo seguido de seu complemento. Existe, portanto, paralelismo entre ler, revisar e resolver.

Agora imagine: “O estudante precisa de leitura, revisar o conteúdo e dos exercícios”. Mesmo que seja possível deduzir a intenção do autor, a estrutura perdeu sua regularidade. O primeiro elemento é nominal, o segundo é verbal e o terceiro aparece introduzido por uma preposição sem estabelecer uma organização equivalente aos anteriores.

O paralelismo não significa que todas as frases devam possuir uma simetria rígida. Trata-se de um princípio de organização que favorece a clareza, especialmente quando elementos coordenados desempenham a mesma função sintática.

Quando regência e paralelismo se encontram

Regência e paralelismo tornam-se particularmente importantes quando coordenamos palavras que exigem preposições diferentes. É aí que surgem muitas construções problemáticas.

Imagine a frase: “O professor demonstrou confiança e respeito pelos alunos”. O substantivo respeito admite naturalmente a construção “respeito pelos alunos”. Já confiança costuma estabelecer relação por meio de em: “confiança nos alunos”. Ao fazer os dois substantivos compartilharem “pelos alunos”, criamos uma estrutura em que a preposição funciona perfeitamente com um dos termos, mas não corresponde à regência usual do outro.

Uma solução mais precisa seria: “O professor demonstrou confiança nos alunos e respeito por eles”. Agora cada substantivo recebe a preposição adequada, e os dois segmentos aparecem organizados paralelamente.

Esse princípio é extremamente útil: se duas palavras coordenadas exigem preposições diferentes, é preferível apresentar separadamente os complementos de cada uma. Dessa maneira, evitamos que uma única preposição seja forçada a servir simultaneamente a regências incompatíveis.

Quando a preposição pode ser compartilhada?

Nem toda coordenação exige repetição. Quando dois termos possuem a mesma regência e se relacionam claramente com o mesmo complemento, o compartilhamento da preposição pode ocorrer sem comprometer a construção.

Em “Ele é favorável e contrário a diferentes aspectos da proposta”, por exemplo, os dois adjetivos admitem a preposição a. A estrutura pode funcionar porque não existe conflito de regência, embora o sentido precise deixar claro que a pessoa é favorável a determinados aspectos e contrária a outros, e não simultaneamente favorável e contrária ao mesmo elemento.

Também podemos escrever “A população demonstrou respeito e obediência às normas”, considerando os usos possíveis desses substantivos com a preposição a. O contexto e a clareza semântica continuam sendo fundamentais, pois uma frase gramaticalmente possível pode permanecer ambígua.

Portanto, antes de repetir ou eliminar uma preposição, faça duas verificações: os termos coordenados admitem a mesma regência? O complemento estabelece claramente a mesma relação com ambos? Se as duas respostas forem positivas, o compartilhamento tende a ser possível.

Quando a preposição precisa aparecer novamente?

A repetição torna-se especialmente importante quando queremos destacar a autonomia dos elementos coordenados ou evitar interpretações equivocadas. Compare “Precisamos de professores e pesquisadores qualificados” com “Precisamos de professores e de pesquisadores qualificados”. Dependendo do contexto, a repetição pode reforçar que estamos tratando de dois grupos distintos.

Em estruturas mais complexas, a repetição também ajuda o leitor a identificar os limites de cada segmento. Considere: “O projeto depende da aprovação da diretoria, da disponibilidade de recursos e da adesão dos funcionários”. A repetição de da cria uma sequência organizada e facilita a percepção de que temos três condições coordenadas.

Não devemos transformar essa prática em uma regra mecânica segundo a qual toda preposição precisa ser repetida. A questão é principalmente de estrutura e clareza. Em textos longos, repetir a preposição pode tornar visível uma relação sintática que, sem essa marcação, ficaria escondida.

Na redação de vestibular, essa estratégia pode ser particularmente útil porque reduz ambiguidades e demonstra controle sobre a construção do período.

Cuidado com a falsa economia de palavras

Muitos problemas de regência aparecem porque o autor tenta evitar repetições a qualquer custo. Existe uma ideia equivocada de que repetir uma preposição torna o texto necessariamente pobre ou deselegante. Isso não é verdade.

Considere: “A sociedade precisa estar consciente e preparada para os desafios ambientais”. A construção é aceitável se os adjetivos estabelecerem adequadamente suas relações dentro do contexto. Entretanto, quando a tentativa de economia reúne regências incompatíveis, repetir uma palavra pode ser justamente a solução mais elegante.

Em vez de “Ele demonstrou interesse e confiança no projeto”, podemos precisar distinguir interesse pelo projeto e confiança no projeto. Nesse caso, escrever “Ele demonstrou interesse pelo projeto e confiança nele” é mais preciso, ainda que seja um pouco mais longo.

Na escrita formal, clareza é mais importante do que economia artificial. Uma repetição funcional é preferível a uma construção curta, mas sintaticamente defeituosa ou semanticamente ambígua.

Preposição e sentido: a regência não é apenas decoração

Outro erro frequente é imaginar que a preposição seja um elemento vazio, colocado apenas porque a gramática exige. Na realidade, as preposições estabelecem relações de sentido. Trocar uma por outra pode modificar significativamente aquilo que estamos dizendo.

Considere expressões como “amor de mãe”, “amor à mãe” e “amor por uma pessoa”. Embora todas utilizem o substantivo “amor”, as preposições ajudam a construir relações diferentes. “Amor de mãe” pode indicar o sentimento característico ou proveniente da mãe; “amor à mãe” ou “amor pela mãe” pode indicar o sentimento dirigido a ela.

O mesmo princípio aparece em inúmeras construções nominais. Por isso, não é suficiente perguntar “qual preposição vem depois desta palavra?”. Em muitos casos, precisamos perguntar também qual relação de sentido desejo estabelecer?

Essa perspectiva torna o estudo da regência muito mais produtivo, porque substitui a simples memorização por uma análise da relação entre estrutura e significado.

Regência nominal e crase

A regência nominal também está diretamente relacionada ao uso da crase. Se um nome exige a preposição a e o termo seguinte admite o artigo feminino a, ocorre a fusão dessas duas vogais, indicada pelo acento grave.

Observe “Ele é favorável à proposta”. O adjetivo “favorável” exige a preposição a, enquanto o substantivo feminino “proposta” admite o artigo definido a. Temos, portanto, a + a = à.

O mesmo acontece em “A medida é prejudicial à população”, “Ele demonstrou obediência às regras” e “A decisão foi contrária à recomendação”. Antes de tentar decorar onde colocar o acento grave, é muito mais eficiente identificar primeiro a regência da palavra anterior.

Essa relação explica por que estudar crase sem conhecer regência costuma gerar tanta dificuldade. Muitas ocorrências de crase são consequência direta da preposição exigida pelo termo regente.

Um exemplo típico de redação

Imagine que um candidato escreva:

“A população precisa estar consciente e disposta à combater a desinformação.”

Existe um problema nessa construção. O adjetivo disposto rege a preposição a, mas diante de verbo no infinitivo não utilizamos artigo feminino. Portanto, não existe fusão entre duas vogais e não ocorre crase. A forma adequada seria “disposta a combater a desinformação”.

Agora considere outra construção: “A população precisa estar atenta à disseminação de notícias falsas”. O adjetivo atento pode reger a preposição a, e “disseminação” admite artigo feminino. Nesse caso, a crase é possível: atenta à disseminação.

Perceba como regência, preposição e crase estão conectadas. O estudante que compreende a estrutura não precisa tratar cada assunto como uma regra completamente independente.

O paralelismo na redação argumentativa

O paralelismo é especialmente importante na dissertação argumentativa porque esse gênero utiliza frequentemente enumerações e estruturas coordenadas para apresentar causas, consequências, argumentos e propostas.

Imagine uma introdução que afirme: “O problema decorre da ausência de políticas públicas, da desigualdade econômica e do baixo investimento em educação”. A repetição da estrutura preposição + artigo + substantivo cria um paralelismo claro e conduz o leitor pelos três fatores apresentados.

Agora compare: “O problema decorre da ausência de políticas públicas, desigualdade econômica e porque se investe pouco em educação”. O sentido geral pode ser compreendido, mas a estrutura perde equilíbrio: começamos com um sintagma nominal preposicionado, passamos para outro sem a mesma marcação e terminamos com uma oração causal.

Uma versão melhor seria manter todos os elementos no mesmo padrão: “O problema decorre da ausência de políticas públicas, da desigualdade econômica e do baixo investimento em educação”. A frase fica mais clara, organizada e adequada à escrita formal.

Paralelismo semântico também importa

Não basta que os elementos tenham aparência sintática semelhante; eles também precisam possuir relação lógica compatível. Uma enumeração pode ser perfeitamente simétrica do ponto de vista gramatical e ainda apresentar problemas de sentido.

Considere: “O projeto pretende melhorar a educação, ampliar o acesso à cultura e construir três escolas azuis”. Os três elementos apresentam verbos no infinitivo, mas o terceiro introduz uma informação muito específica e de natureza diferente das anteriores. Dependendo do contexto, a sequência pode parecer semanticamente desequilibrada.

Em uma redação, os elementos coordenados precisam pertencer ao mesmo plano argumentativo. Se você apresenta três causas de um problema, todas devem funcionar efetivamente como causas; se apresenta três consequências, não deve inserir repentinamente uma proposta de solução no meio da enumeração.

Isso mostra que paralelismo sintático e coerência argumentativa frequentemente trabalham juntos. Uma boa estrutura ajuda a organizar não apenas as palavras, mas também o pensamento.

Como corrigir frases com regências diferentes

Quando perceber que duas palavras coordenadas exigem preposições distintas, uma estratégia eficiente é desmembrar os complementos. Em vez de tentar encontrar uma preposição que sirva artificialmente para ambas, dê a cada termo a construção que lhe pertence.

Considere “O estudante demonstrou interesse e confiança no curso”. Dependendo do sentido pretendido, podemos tornar a relação mais explícita: “O estudante demonstrou interesse pelo curso e confiança nele”. O substantivo “interesse” estabelece sua relação com por, enquanto “confiança” se liga a em.

Outro exemplo seria uma construção envolvendo “favorável” e “compatível”. Em vez de tentar produzir uma sequência como “A medida é favorável e compatível ao projeto”, devemos observar que favorável rege normalmente a, enquanto compatível rege com. Podemos então escrever: “A medida é favorável ao projeto e compatível com seus objetivos”.

A solução não depende de decorar uma fórmula especial. Basta respeitar a regência de cada palavra.

Como descobrir a preposição correta?

Quando surgir dúvida durante a escrita, o primeiro recurso é observar o uso consagrado da palavra. Pergunte mentalmente como aquela expressão costuma aparecer: temos necessidade de, capacidade de, favorável a, contrário a, compatível com, responsável por, ansioso por/para, conforme o sentido, e assim por diante.

Entretanto, nossa intuição pode falhar, principalmente em construções menos frequentes. Nessas situações, consultar um dicionário de regência ou um bom dicionário da língua portuguesa é uma prática legítima e recomendável. Escritores, revisores, jornalistas e professores também consultam obras de referência; dominar a língua não significa memorizar todas as combinações possíveis.

Para uma prova, obviamente, não teremos um dicionário disponível. Por isso, a leitura frequente é uma das melhores maneiras de desenvolver familiaridade com essas construções. Quanto maior o contato com textos formais bem escritos, mais natural se torna reconhecer determinadas regências.

As pegadinhas que mais confundem

Uma das armadilhas mais frequentes consiste em coordenar palavras de regências diferentes e fornecer apenas um complemento. Frases como “Ele tem interesse e confiança no projeto” precisam ser analisadas cuidadosamente, porque interesse e confiança podem estabelecer relações preposicionais distintas.

Outra dificuldade aparece quando o estudante repete automaticamente uma preposição sem verificar se ela realmente é exigida pelo segundo termo. O paralelismo não significa simplesmente copiar a mesma palavra. Se as regências são diferentes, a estrutura paralela precisa respeitar essa diferença: “favorável a determinado projeto e compatível com seus objetivos”.

Também são comuns questões que relacionam regência nominal e crase. A banca apresenta um adjetivo como “favorável”, “contrário”, “relativo” ou “semelhante” e pergunta se o termo seguinte deve receber acento grave. Para responder, o candidato precisa primeiro identificar a preposição exigida e depois verificar a presença do artigo.

Um método para analisar períodos complexos

Quando a frase estiver muito longa, não tente resolver tudo ao mesmo tempo. Primeiro, localize os substantivos, adjetivos ou advérbios que possuem complementos. Depois, descubra qual complemento está relacionado a cada um deles e verifique a preposição necessária.

Se houver elementos coordenados, separe mentalmente as estruturas. Uma frase como “A proposta é adequada, compatível e favorável aos objetivos do projeto” merece ser desmontada: dizemos adequada a alguma coisa, compatível com alguma coisa e favorável a alguma coisa. Portanto, fazer os três adjetivos dependerem apenas de “aos objetivos” não respeita igualmente suas regências.

Uma redação mais precisa poderia ser: “A proposta é adequada aos objetivos do projeto, compatível com suas diretrizes e favorável à sua execução”. Além de respeitar as diferentes regências, essa versão estabelece um paralelismo claro entre os três segmentos.

Esse procedimento — separar, identificar a regência e reconstruir — resolve grande parte das frases complexas cobradas em exercícios.

Regência não deve ser estudada como lista

É claro que algumas combinações precisam ser conhecidas. Não conseguimos deduzir matematicamente todas as preposições da língua portuguesa. O uso histórico consolidou determinadas relações, e parte do aprendizado depende do contato frequente com elas.

Entretanto, transformar regência em uma enorme tabela para decorar costuma produzir resultados limitados. O estudante memoriza “favorável a”, “compatível com” e “necessidade de”, mas encontra dificuldade assim que essas palavras aparecem combinadas em uma frase maior.

O objetivo mais produtivo é reconhecer a estrutura: há um termo regente, existe um complemento e uma preposição estabelece a relação entre eles. Quando dois termos regentes são coordenados, precisamos verificar se suas regências são iguais ou diferentes. Essa compreensão permite aplicar o conhecimento em situações novas.

Como isso aparece nos vestibulares?

As bancas podem cobrar regência nominal diretamente, solicitando a identificação da preposição adequada, mas também podem esconder o conteúdo dentro de questões de reescrita. Uma alternativa substitui determinado adjetivo por outro e mantém a mesma preposição; o candidato precisa perceber que a mudança do termo regente exige também uma alteração na estrutura.

Questões de paralelismo costumam apresentar períodos longos, especialmente enumerações. O candidato precisa verificar se os elementos coordenados possuem estruturas equivalentes e se cada palavra mantém sua regência. Em muitos casos, o erro está justamente em uma pequena preposição colocada no final de uma frase aparentemente impecável.

A crase também pode funcionar como porta de entrada para o assunto. Quando uma questão pergunta por que existe crase em “favorável à proposta”, parte da resposta está na regência do adjetivo “favorável”. Assim, conteúdos aparentemente separados acabam sendo avaliados conjuntamente.

Na redação, clareza vale mais do que exibicionismo sintático

Alguns estudantes acreditam que períodos muito longos demonstram maior domínio da língua. Isso não é necessariamente verdade. Quanto mais elementos coordenamos dentro da mesma frase, maior se torna o risco de perder o controle sobre concordância, regência, pontuação e paralelismo.

Uma boa redação pode apresentar períodos complexos, mas eles precisam permanecer claros. Se você percebe que três adjetivos exigem preposições diferentes e a frase está se tornando confusa, não há problema algum em reorganizá-la ou dividi-la. Escrever bem não significa construir a frase mais complicada possível; significa construir a frase mais eficiente para comunicar determinada ideia.

Essa escolha também demonstra maturidade linguística. O estudante deixa de usar estruturas apenas para impressionar o avaliador e passa a utilizá-las porque compreende sua função dentro do texto.

Regência e paralelismo trabalham a favor da clareza

A regência nominal nos mostra que substantivos, adjetivos e advérbios não aparecem isoladamente: eles estabelecem relações com outros termos, e muitas dessas relações dependem de preposições específicas. O paralelismo, por sua vez, ajuda a organizar essas estruturas quando várias delas aparecem coordenadas no mesmo período.

Quando duas palavras exigem a mesma preposição, pode ser possível compartilhar o complemento, desde que não haja ambiguidade. Quando exigem preposições diferentes, a solução mais segura é respeitar a regência individual de cada termo e reorganizar a frase. Assim, em vez de procurar uma única preposição que resolva artificialmente toda a construção, permitimos que cada palavra estabeleça a relação que a língua prevê.

Esse cuidado produz um efeito que vai muito além da correção normativa. Um período bem organizado é mais fácil de compreender, apresenta relações lógicas mais transparentes e reduz a possibilidade de interpretações equivocadas. É por isso que regência e paralelismo são tão importantes para quem está se preparando para os vestibulares e, principalmente, para quem deseja escrever uma boa redação.

Na próxima vez que surgir dúvida diante de uma frase complexa, não tente escolher a preposição apenas pelo ouvido. Pergunte qual palavra está regendo o complemento, qual preposição ela exige e se os elementos coordenados possuem a mesma estrutura. Essas três perguntas transformam uma aparente pegadinha em uma análise sintática bastante objetiva — e ajudam a construir textos muito mais precisos.

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