Revisão Monstro — ENEM em 77 dias
Dia 41 — 02 de outubro de 2026 — Sexta-feira — Simulado do ENEM
10 questões no estilo ENEM + gabarito comentado

Olá amigos e alunos do blog A Escola Literária! Chegamos ao Dia 41 da nossa Revisão Monstro — ENEM em 77 dias e hoje é dia de descobrir quanto do conteúdo desta semana realmente se transformou em conhecimento. Nosso simulado será um pouco diferente dos anteriores: todas as dez questões partirão de trechos literários autênticos, retirados de obras de autores brasileiros, e exigirão interpretação, Literatura, análise linguística e compreensão das estratégias argumentativas que estamos desenvolvendo.

Nesta semana, estudamos o Pré-Modernismo, com Euclides da Cunha, Lima Barreto, Monteiro Lobato e Augusto dos Anjos; avançamos pela coordenação e subordinação no período composto; aprendemos a aprofundar os desenvolvimentos por meio de causas, consequências e exemplos; e ontem aplicamos essas habilidades à proposta de Redação sobre os impactos das mudanças climáticas nas cidades brasileiras. Agora esses conteúdos aparecerão integrados, exatamente como acontece em uma prova que não separa artificialmente língua, literatura e interpretação.

Os fragmentos abaixo são de obras reais, e preservei a redação das edições consultadas, inclusive formas de grafia histórica quando presentes. A ideia é aproximar nosso treino do contato verdadeiro com a Literatura, porque o ENEM não trabalha com uma Literatura reduzida a listas de escolas e autores: ele coloca o texto diante de você e pergunta o que a linguagem está fazendo.

⏳ Faltam 37 dias para o ENEM!

Hoje, 2 de outubro de 2026, faltam 37 dias para o primeiro dia do ENEM. Neste momento da preparação, os simulados semanais precisam cumprir uma função muito específica: mostrar aquilo que você consegue recuperar e aplicar sem o auxílio imediato dos materiais.

Faça primeiro as dez questões sem consultar as aulas anteriores. Se ficar entre duas alternativas, escolha uma e marque a questão para revisar depois. Na correção, não se preocupe apenas com o número final de acertos; observe principalmente por que a alternativa correta funciona e que raciocínio fez você escolher uma alternativa incorreta.

TEXTO I — Euclides da Cunha

“O sertanejo é, antes de tudo, um forte. […] A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário.”

Euclides da Cunha, Os Sertões. Wikisource

O trecho integra a parte de Os Sertões em que Euclides procura caracterizar o sertanejo. A formulação já mostra uma das tensões mais conhecidas da obra: aquilo que parece fragilidade exterior não corresponde necessariamente à resistência demonstrada pelo indivíduo diante das condições do sertão.

QUESTÃO 1

No contexto do Pré-Modernismo brasileiro, a caracterização do sertanejo nesse trecho evidencia principalmente

A) a retomada integral do herói indígena idealizado pelos escritores românticos.

B) a intenção de representar grupos e regiões brasileiras pouco valorizados pela cultura oficial do período.

C) a defesa de que os habitantes do sertão deveriam abandonar seus costumes para integrar-se às elites urbanas.

D) a valorização exclusiva da beleza física como demonstração de força moral.

E) o afastamento da Literatura Brasileira de qualquer discussão relacionada à realidade social.

QUESTÃO 2

No fragmento, o termo “entretanto” exerce papel fundamental na construção do sentido porque estabelece

A) uma conclusão decorrente da força do sertanejo.

B) uma explicação para a aparência física da personagem coletiva.

C) uma oposição entre a força afirmada inicialmente e a impressão produzida pela aparência.

D) uma relação temporal entre duas fases da vida do sertanejo.

E) uma condição necessária para que a força do sertanejo se manifeste.

TEXTO II — Lima Barreto

“Lia diversos, porque sempre esperava encontrar num ou noutro uma notícia curiosa, a sugestão de uma idéia útil à sua cara Pátria.”

Lima Barreto, Triste Fim de Policarpo Quaresma. Wikisource

O comportamento descrito é de Policarpo Quaresma, personagem cuja relação com o Brasil ultrapassa o interesse comum e se transforma em um patriotismo intenso. Ao longo do romance, suas expectativas sobre o país entram progressivamente em conflito com a realidade política e social que encontra.

QUESTÃO 3

A caracterização de Policarpo Quaresma no trecho contribui para a crítica construída por Lima Barreto porque apresenta um personagem que

A) rejeita qualquer interesse pela cultura brasileira e procura imitar exclusivamente costumes europeus.

B) utiliza o patriotismo apenas como estratégia para obter vantagens políticas.

C) idealiza intensamente a pátria e procura encontrar meios de contribuir para seu aperfeiçoamento.

D) considera impossível realizar qualquer transformação social no Brasil desde o início da narrativa.

E) demonstra indiferença diante dos acontecimentos nacionais.

QUESTÃO 4

Na construção “Lia diversos, porque sempre esperava encontrar […] uma notícia curiosa”, a oração introduzida por “porque” estabelece uma relação de

A) condição, pois apresenta a circunstância necessária para a leitura dos jornais.

B) oposição, pois contradiz a informação apresentada anteriormente.

C) finalidade, pois indica diretamente o objetivo futuro da leitura.

D) causa, pois apresenta o motivo pelo qual Quaresma lia vários jornais.

E) concessão, pois introduz uma informação contrária à expectativa inicial.

TEXTO III — Monteiro Lobato

“Pobre Jeca Tatú! Como és bonito no romance e feio na realidade!”

Monteiro Lobato, Jeca Tatú: Vida e costumes, texto posteriormente integrado a Urupês. Wikisource

A frase estabelece uma oposição direta entre a representação literária idealizada do homem ligado ao interior e a visão que o narrador pretende construir de sua realidade concreta. O texto de Lobato precisa ser lido criticamente, pois sua representação do caboclo também carrega concepções e estereótipos próprios de seu contexto histórico.

QUESTÃO 5

A oposição entre “bonito no romance” e “feio na realidade” revela uma característica importante do Pré-Modernismo porque o texto

A) procura substituir representações idealizadas por uma visão crítica da realidade brasileira.

B) reafirma o projeto romântico de transformar personagens nacionais em heróis perfeitos.

C) elimina qualquer interesse por questões sociais e se concentra exclusivamente no trabalho formal.

D) apresenta o mundo rural como espaço necessariamente harmonioso e livre de conflitos.

E) defende que a Literatura deve permanecer distante das condições concretas da população.

QUESTÃO 6

Embora “e” seja tradicionalmente uma conjunção coordenativa aditiva, no trecho ela participa de uma construção em que predomina o efeito de

A) causa, porque explica por que Jeca é belo no romance.

B) consequência, porque a beleza literária produz sua feiura real.

C) contraste, porque aproxima dois atributos semanticamente opostos.

D) conclusão, porque o segundo adjetivo sintetiza o primeiro.

E) finalidade, porque a realidade procura modificar a Literatura.

TEXTO IV — Augusto dos Anjos

“Eu, filho do carbono e do ammoniaco,
Monstro de escuridão e rutilancia,
Soffro, desde a epigénesis da infancia”

Augusto dos Anjos, “Psychologia de um Vencido”, em Eu. Wikisource

O poema de Augusto dos Anjos chama atenção pela combinação de linguagem poética e termos provenientes do campo científico. Em vez de abandonar a expressão subjetiva, o poeta utiliza esse vocabulário para construir uma percepção angustiada e material da existência humana.

QUESTÃO 7

A presença de expressões como “carbono”, “ammoniaco” e “epigénesis” produz no poema o efeito de

A) eliminar qualquer manifestação subjetiva do eu lírico.

B) combinar vocabulário científico com uma experiência poética marcada pela angústia existencial.

C) reproduzir exclusivamente a linguagem da poesia amorosa romântica.

D) defender uma explicação científica objetiva e completa para o sofrimento humano.

E) estabelecer uma descrição humorística e otimista da condição humana.

QUESTÃO 8

A dificuldade de enquadrar Augusto dos Anjos rigidamente em uma única escola literária ajuda a compreender o Pré-Modernismo como um período

A) caracterizado pela existência de um manifesto estético único seguido por todos os escritores.

B) marcado pela volta integral às características da Literatura Colonial.

C) de transição, no qual autores muito diferentes convivem e começam a romper determinadas convenções anteriores.

D) exclusivamente composto por romances regionalistas de denúncia social.

E) cuja principal característica era a rejeição de qualquer inovação vocabular.

Terminou? Não corra imediatamente para a nota

Antes de conferir as respostas, volte às questões que marcaram alguma dúvida. Tente identificar se sua dificuldade estava no conteúdo literário, na interpretação do fragmento ou na relação gramatical entre as ideias. Essa identificação é importante porque dois estudantes podem errar a mesma questão por motivos completamente diferentes e, consequentemente, precisar de revisões diferentes.

Agora faça a correção com atenção. Nas questões em que você acertou, confirme se realmente compreendeu o raciocínio; nas que errou, descubra exatamente qual elemento do texto conduzia à alternativa correta.

GABARITO

1 — B
2 — C
3 — C
4 — D
5 — A
6 — C
7 — B
8 — C

Gabarito comentado

Questão 1 — B

A alternativa B é correta porque Os Sertões direciona o olhar para o sertanejo e para uma região brasileira que estava distante dos principais centros políticos e culturais do período. Essa atenção a grupos, regiões e problemas frequentemente excluídos da visão oficial do país é uma das características que associamos ao Pré-Modernismo.

A alternativa A seria inadequada porque Euclides não está retomando simplesmente a idealização romântica do herói nacional. Sua representação é muito mais contraditória: ele descreve uma aparência aparentemente frágil e, simultaneamente, destaca a extraordinária resistência do sertanejo.

Questão 2 — C

“Entretanto” introduz uma oposição. Primeiro o narrador afirma que o sertanejo é forte; depois informa que sua aparência, em um primeiro olhar, parece revelar justamente o contrário.

Observe como a palavra organiza o próprio pensamento do texto. Não estamos apenas classificando uma conjunção ou um conectivo, mas percebendo como ele produz a tensão entre essência e aparência, aspecto fundamental dessa descrição.

Questão 3 — C

Policarpo Quaresma é caracterizado por um patriotismo intenso e por uma confiança extraordinária nas possibilidades brasileiras. O hábito de ler vários jornais à procura de uma ideia que pudesse ser útil à pátria combina diretamente com essa personalidade.

Essa característica será fundamental para a ironia do romance. Quanto mais Policarpo acredita no Brasil ideal que construiu intelectualmente, mais doloroso se torna o choque com as contradições das instituições e da sociedade que encontra.

Questão 4 — D

A oração introduzida por “porque” apresenta a razão pela qual Policarpo lia diversos jornais. Ele realizava a ação porque esperava encontrar alguma notícia ou sugestão útil à pátria.

Temos, portanto, uma relação de causa. Esse é exatamente o tipo de relação que estudamos nesta semana e que também pode ser utilizado para aprofundar os parágrafos de desenvolvimento da Redação.

Questão 5 — A

A alternativa A identifica uma tendência importante do período. Monteiro Lobato estabelece um contraste entre a figura idealizada pela tradição literária e a representação que pretende construir da realidade rural brasileira.

Entretanto, isso não significa que devamos aceitar automaticamente essa representação como retrato neutro e definitivo do homem do campo. O próprio Jeca Tatu deve ser analisado historicamente e criticamente, porque a caracterização também carrega estereótipos e concepções de seu tempo.

Questão 6 — C

A palavra “e” normalmente estabelece adição, mas o sentido não depende apenas da classificação tradicional da conjunção. No fragmento, ela aproxima duas ideias claramente opostas: bonito no romance e feio na realidade.

Isso demonstra algo importante para a prova: o ENEM pode pedir o efeito de sentido produzido por determinada estrutura, e não simplesmente o nome da classificação gramatical. A análise precisa considerar a relação construída dentro do texto.

Questão 7 — B

Augusto dos Anjos utiliza vocabulário científico sem abandonar a subjetividade. Pelo contrário, palavras relacionadas à química e à biologia participam da construção de uma visão profundamente angustiada da condição humana.

Essa mistura torna sua poesia muito particular. O corpo, a matéria, a decomposição e a ciência entram em um espaço tradicionalmente associado à expressão lírica e produzem uma experiência poética difícil de confundir com a de outros autores.

Questão 8 — C

A alternativa C é correta porque o Pré-Modernismo não constitui uma escola literária homogênea. Euclides da Cunha, Lima Barreto, Monteiro Lobato e Augusto dos Anjos escrevem de maneiras bastante diferentes.

O que os aproxima está muito mais relacionado ao período de transição, ao questionamento de determinadas convenções e à entrada de novos temas e perspectivas na Literatura Brasileira. Essa heterogeneidade é justamente uma das razões pelas quais devemos evitar tratar o Pré-Modernismo como um movimento rigidamente organizado.

O que este simulado realmente avaliou?

Talvez você tenha percebido que as questões não ficaram presas a uma única disciplina. O fragmento de Euclides permitiu discutir Pré-Modernismo e relações de oposição; Lima Barreto reuniu interpretação literária e causalidade; Monteiro Lobato mostrou como uma conjunção tradicionalmente aditiva pode produzir contraste; Augusto dos Anjos exigiu leitura estética; e Machado de Assis terminou o simulado aproximando Literatura e construção argumentativa.

É justamente essa integração que precisamos fortalecer. O ENEM trabalha com textos, e os conhecimentos gramaticais, literários e discursivos funcionam como ferramentas para compreendê-los. Saber que “entretanto” é adversativo é útil, mas perceber o contraste que ele produz dentro da descrição do sertanejo é muito mais importante.

Como interpretar seu resultado?

Se você acertou 9 ou 10 questões, seu desempenho nesta semana foi bastante consistente. Ainda assim, reveja qualquer item em que tenha chegado à resposta por eliminação, porque uma alternativa correta marcada com muita insegurança pode esconder um conteúdo ainda pouco consolidado.

Se conseguiu 7 ou 8 acertos, você possui uma boa base, mas provavelmente existe um ponto específico a revisar. Observe se os erros se concentraram em Pré-Modernismo, relações sintáticas ou interpretação argumentativa e faça uma retomada direcionada, em vez de reler toda a semana.

Com 5 ou 6 acertos, parte importante dos conteúdos está presente, mas ainda existe dificuldade para aplicá-los aos textos. Volte às aulas dos Dias 37, 38 e 39 e tente explicar os conceitos com suas próprias palavras antes de refazer este simulado.

Se ficou abaixo de 5, utilize o resultado como diagnóstico. Você ainda tem 37 dias para o ENEM, e descobrir uma fragilidade agora é muito melhor do que encontrá-la durante a prova. Revise os pontos específicos, espere alguns dias e resolva novamente as dez questões sem consultar o gabarito.

Atualize seu caderno de erros

Não escreva apenas o número da questão errada. Registre a dificuldade que o erro revelou, porque é isso que permitirá uma revisão realmente eficiente.

Você pode fazer anotações como: “Pré-Modernismo — preciso diferenciar representação crítica de idealização”, “Sintaxe — ainda confundo causa e finalidade”, “Conectivos — preciso observar o sentido no contexto, não apenas a classificação” ou “Redação — ainda menciono repertório sem explicar sua função”. Essas pequenas anotações formarão um mapa extremamente valioso quando chegarmos às semanas finais.

Quatro textos, Quatro maneiras de olhar o Brasil

O simulado de hoje também nos permitiu percorrer diferentes momentos da Literatura Brasileira. Euclides da Cunha apresentou o sertanejo; Lima Barreto colocou diante de nós o patriotismo idealista de Policarpo; Monteiro Lobato questionou representações idealizadas do interior; e Augusto dos Anjos transformou ciência e decomposição em matéria poética.

Isso demonstra por que a Literatura é tão importante na preparação para o ENEM. Ela não existe apenas para que você identifique escolas literárias, mas para oferecer diferentes maneiras de interpretar sociedade, linguagem e comportamento humano.

Amanhã encerramos a Semana 6

No Dia 42 da Revisão Monstro — ENEM em 77 dias, chegaremos novamente ao nosso sábado de Resumo Completo. Será o momento de fechar mais uma semana, acrescentar outra obra ao nosso repertório literário e consolidar a preparação antes de entrarmos na Semana 7.

Depois, no domingo, reorganizaremos novamente nossa rota. E na semana seguinte começaremos um dos blocos mais importantes de toda a Literatura Brasileira: o Modernismo, iniciando pela primeira fase e pela ruptura representada pela Semana de Arte Moderna.

Estamos cada vez mais próximos da contemporaneidade.

Faltam 37 dias: agora precisamos saber usar aquilo que estudamos

Nesta altura da Revisão Monstro, você já viu uma quantidade considerável de conteúdo. A grande pergunta deixa de ser apenas “quantas aulas eu assisti ou li?” e passa a ser “quantas dessas ideias eu consigo recuperar e utilizar diante de um texto que nunca vi?”

É exatamente isso que o simulado de hoje tentou medir. Os fragmentos eram autênticos, mas as questões exigiam algo além de reconhecer nomes e obras: era necessário perceber contrastes, causas, ironias, escolhas linguísticas e relações entre repertório e argumentação.

Hoje faltam 37 dias para o ENEM. Ainda temos muito trabalho pela frente, mas você já está construindo uma ferramenta fundamental para a prova: a capacidade de chegar diante de um texto desconhecido e fazer perguntas inteligentes sobre aquilo que ele está dizendo e sobre como ele constrói esse sentido.

Não leia apenas procurando respostas.

Leia procurando relações.

É nelas que grande parte da prova acontece.

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Faltam 37 dias. Nesta reta final, conhecer o conteúdo é importante; reconhecer o que o texto faz com esse conteúdo é aquilo que transforma conhecimento em resposta certa.