Revisão Monstro — ENEM em 77 dias
Dia 23 — 14 de setembro de 2026 — Segunda-feira — Literatura

Olá amigos e alunos do blog A Escola Literária! Chegamos ao Dia 23 da nossa Revisão Monstro — ENEM em 77 dias e começamos uma nova semana de Literatura com dois movimentos fundamentais do século XIX: Realismo e Naturalismo. Depois de estudarmos o Romantismo, marcado pela subjetividade, pela idealização e pela intensidade dos sentimentos, encontraremos agora escritores muito mais interessados em observar criticamente o comportamento humano e as contradições existentes na sociedade.

Essa mudança não significa simplesmente que os escritores decidiram trocar personagens apaixonados por personagens pessimistas. O século XIX estava passando por intensas transformações econômicas, científicas, filosóficas e sociais. O crescimento das cidades, a consolidação da sociedade burguesa, o desenvolvimento das ciências, as novas teorias sobre o ser humano e as críticas às instituições tradicionais influenciaram profundamente a maneira como a Literatura passou a representar a realidade.

No Brasil, esse movimento produzirá alguns dos autores mais importantes de nossa tradição literária. No Realismo, encontraremos Machado de Assis, cuja ironia e profundidade psicológica continuam desafiando leitores mais de um século depois. No Naturalismo, conheceremos principalmente Aluísio Azevedo, que transformou questões como desigualdade, habitação, sexualidade, preconceito e condições sociais em matéria literária.

⏳ Faltam 55 dias para o ENEM!

Hoje, 14 de setembro de 2026, faltam 55 dias para o primeiro dia do ENEM. Nosso caminho avança e, neste momento da revisão, uma estratégia começa a ganhar ainda mais importância: comparar os conteúdos novos com aqueles que acabamos de estudar.

Na semana anterior, conhecemos o Romantismo. Hoje, não quero que você simplesmente apague aquelas informações para preencher a memória com Realismo e Naturalismo. Faça o contrário. Pergunte constantemente o que mudou de um movimento para outro, que valores passaram a ser questionados e como as novas formas de representação dialogam com as transformações da sociedade brasileira do século XIX.

Esse tipo de comparação fortalece os dois conteúdos ao mesmo tempo. Você compreende melhor o Realismo justamente porque lembra daquilo que o Romantismo valorizava.

Antes do Realismo: o que estava mudando no século XIX?

Para compreender uma escola literária, precisamos olhar também para seu contexto. A segunda metade do século XIX foi marcada pela expansão da industrialização, pelo crescimento das cidades, pelo avanço das ciências e pela circulação de novas teorias sobre sociedade e comportamento humano.

O positivismo, associado a Auguste Comte, valorizava a ciência e a observação dos fatos. As ideias evolucionistas de Charles Darwin produziram enorme impacto intelectual. Também se difundiram teorias deterministas que buscavam explicar o comportamento humano por fatores como hereditariedade e ambiente.

É importante fazer uma observação crítica: algumas teorias chamadas de “científicas” naquele período foram posteriormente rejeitadas ou reconhecidas como pseudocientíficas, especialmente aquelas utilizadas para sustentar hierarquias raciais. Quando estudamos Literatura do século XIX, precisamos compreender essas ideias como parte do contexto histórico, sem tratá-las como verdades científicas atuais.

A Literatura absorveu muitas dessas discussões. O ser humano deixou de ser representado apenas como sujeito movido por grandes sentimentos e passou a ser observado também dentro de relações econômicas, sociais, psicológicas e biológicas.

O Realismo reage à idealização romântica

Uma das maneiras mais fáceis de começar a compreender o Realismo é perceber sua reação contra determinadas características românticas.

No Romantismo, o amor frequentemente aparece idealizado. A mulher pode ser construída como figura quase perfeita. O herói pode apresentar qualidades excepcionais. Os sentimentos ganham enorme intensidade e o mundo muitas vezes é filtrado pela subjetividade do personagem ou do eu lírico.

O Realismo olha para tudo isso com desconfiança.

O casamento pode esconder interesses econômicos.

O amor pode envolver ciúme, vaidade e conveniência.

Uma pessoa aparentemente virtuosa pode agir de maneira contraditória.

A sociedade pode defender valores elevados em público e comportar-se de maneira diferente na prática.

Essa postura crítica é uma das grandes marcas do movimento.

Realismo: observar as contradições humanas

O Realismo busca representar o indivíduo de maneira mais complexa e menos idealizada. As personagens não são divididas simplesmente entre boas e más. Elas podem apresentar desejos contraditórios, interesses ocultos, inseguranças, vaidade e comportamentos difíceis de interpretar.

Essa complexidade será especialmente importante em Machado de Assis.

Em vez de entregar ao leitor uma verdade pronta sobre determinada personagem, Machado frequentemente constrói situações ambíguas. O narrador pode sugerir uma interpretação, mas o leitor precisa decidir se deve confiar completamente nele.

É justamente esse tipo de literatura que combina muito bem com o perfil interpretativo do ENEM.

A prova pode apresentar um fragmento e exigir que você perceba ironia, contradição, crítica social ou diferença entre aquilo que o personagem afirma e aquilo que suas ações revelam.

O marco do Realismo brasileiro

Tradicionalmente, considera-se 1881 um ano decisivo para o Realismo no Brasil, principalmente pela publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.

A obra rompe com várias convenções anteriores. Seu narrador já começa de maneira extraordinária: Brás Cubas está morto e decide contar sua própria vida depois da morte.

Essa escolha permite que Machado construa uma narrativa cheia de ironia, digressões, comentários ao leitor e críticas à sociedade.

O narrador não apresenta sua própria trajetória como uma história heroica.

Ao contrário, revela vaidades, fracassos, egoísmo e contradições.

Com Brás Cubas, a Literatura brasileira ganha um narrador que não devemos aceitar ingenuamente.

Machado de Assis: muito além de Dom Casmurro

Quando muitos estudantes ouvem “Machado de Assis”, pensam imediatamente em Dom Casmurro e na famosa pergunta sobre Capitu. Entretanto, reduzir Machado à discussão sobre uma possível traição seria perder grande parte da riqueza de sua obra.

Entre seus principais romances realistas estão:

Memórias Póstumas de Brás Cubas

Quincas Borba

Dom Casmurro

Esaú e Jacó

Memorial de Aires

Nesses livros, encontramos crítica às relações sociais, análise psicológica, ironia, reflexão sobre poder, vaidade, dinheiro, casamento, status e comportamento humano.

Machado também escreveu contos extraordinários. Textos como O Espelho, A Cartomante e Pai contra Mãe mostram diferentes dimensões de sua capacidade de analisar o indivíduo e a sociedade.

Ironia: uma das grandes armas machadianas

A ironia ocorre quando existe uma distância entre aquilo que é dito e aquilo que realmente se pretende revelar. Machado utiliza esse recurso constantemente.

Imagine um narrador elogiando determinado comportamento enquanto a própria narrativa mostra que esse comportamento é egoísta ou hipócrita. O leitor precisa perceber a diferença entre a superfície da frase e seu sentido mais profundo.

É justamente por isso que ler Machado exige atenção.

Você não deve perguntar apenas:

O que o narrador disse?

Pergunte também:

Por que ele disse isso?

Posso confiar completamente nele?

Existe alguma contradição entre sua fala e os acontecimentos?

Essas perguntas ajudam muito na interpretação de textos realistas.

Brás Cubas: um narrador nada exemplar

Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o próprio protagonista narra sua vida. Como está morto, afirma possuir uma liberdade especial para contar os acontecimentos sem determinadas preocupações sociais.

Mas isso não significa que Brás Cubas seja um narrador neutro.

Ele é vaidoso.

Tenta controlar a narrativa.

Justifica determinadas escolhas.

Conversa com o leitor.

Interrompe a história.

Constrói sua própria imagem.

O leitor precisa avaliar constantemente aquilo que está sendo contado.

Essa relação entre narrador e leitor é uma das grandes inovações da obra.

Dom Casmurro e o narrador não confiável

Dom Casmurro oferece outro exemplo extraordinário. Bento Santiago, já mais velho, reconstrói sua juventude e sua relação com Capitu.

Toda a história chega até nós pela perspectiva dele.

Esse detalhe muda tudo.

Quando Bentinho descreve o comportamento de Capitu, não estamos observando diretamente uma realidade objetiva. Estamos lendo a interpretação de um homem dominado pelo ciúme, pela memória e pela tentativa de compreender o próprio passado.

Por isso, a grande questão literária do romance não deveria ser apenas:

“Capitu traiu ou não traiu?”

Uma pergunta muito mais interessante seria:

Até que ponto podemos confiar na interpretação apresentada por Bentinho?

Essa mudança de perspectiva revela o funcionamento sofisticado do narrador machadiano.

Crítica à sociedade brasileira

Machado de Assis não precisa construir discursos políticos explícitos para criticar a sociedade. Muitas vezes, sua crítica aparece justamente no comportamento cotidiano das personagens.

Casamentos podem ser tratados como estratégias de ascensão social.

Relações de amizade podem envolver interesses.

Personagens podem defender valores morais enquanto agem por vaidade.

A própria escravidão aparece em textos machadianos revelando profundas contradições sociais.

No conto Pai contra Mãe, por exemplo, a violência do sistema escravista está diretamente ligada à sobrevivência econômica de personagens pobres.

Machado mostra uma sociedade na qual diferentes pessoas disputam espaço dentro de uma estrutura profundamente desigual.

Psicologia das personagens

Outra característica importante do Realismo está na análise psicológica.

O escritor não se interessa apenas pelo que a personagem faz.

Quer compreender também:

por que ela faz;

o que deseja;

o que tenta esconder;

como justifica suas escolhas;

que contradições existem entre pensamento e comportamento.

Essa atenção à interioridade não significa retorno ao sentimentalismo romântico.

A diferença está justamente no tratamento.

O Realismo não idealiza a subjetividade.

Ele a investiga.

Linguagem realista

A prosa realista costuma buscar maior precisão e capacidade analítica. Em Machado de Assis, porém, essa linguagem também pode ser extremamente irônica, fragmentada e construída por meio de diálogos constantes com o leitor.

Por isso, cuidado com definições excessivamente simples como:

“Realismo usa linguagem objetiva.”

Isso pode ajudar como ponto inicial, mas não explica completamente Machado.

A Literatura Realista procura afastar-se da idealização romântica, mas cada autor possui estratégias próprias.

O ENEM provavelmente estará mais interessado nessas estratégias do que em uma frase decorada de manual.

E o Naturalismo?

O Naturalismo surge ligado ao Realismo, mas desenvolve algumas características específicas. Os escritores naturalistas receberam forte influência das teorias científicas e deterministas que circulavam no século XIX.

O comportamento humano passa a ser interpretado frequentemente como resultado de diferentes forças.

O ambiente interfere.

A hereditariedade interfere.

As condições sociais interferem.

Impulsos físicos e desejos também ganham destaque.

O indivíduo não aparece como completamente livre e autônomo, mas condicionado por fatores que o cercam.

Realismo e Naturalismo são iguais?

Não.

Os dois movimentos compartilham a oposição à idealização romântica e a preocupação com a realidade social, mas apresentam enfoques diferentes.

O Realismo costuma desenvolver uma análise especialmente psicológica e social do comportamento humano.

O Naturalismo enfatiza mais fortemente fatores biológicos, ambientais e sociais, influenciado pelo pensamento determinista do período.

Podemos pensar assim:

Realismo → análise crítica da sociedade e da psicologia humana.

Naturalismo → análise do indivíduo submetido a forças do meio, da hereditariedade e dos impulsos.

Essa síntese ajuda, mas novamente não substitui a leitura das obras.

O marco do Naturalismo brasileiro

Também em 1881 foi publicado O Mulato, de Aluísio Azevedo, obra frequentemente apontada como marco inicial do Naturalismo no Brasil.

O romance trabalha questões relacionadas ao preconceito racial e à sociedade maranhense, revelando tensões bastante importantes para compreender o Brasil do final do século XIX.

Aluísio Azevedo alcançaria ainda maior projeção com outra obra:

O Cortiço

Publicada em 1890, ela se tornou uma das principais referências do Naturalismo brasileiro.

O Cortiço: quando o ambiente parece ganhar vida

Em O Cortiço, acompanhamos uma comunidade de moradores em uma habitação coletiva no Rio de Janeiro. O espaço reúne personagens de diferentes origens e condições sociais, e suas relações permitem que Aluísio Azevedo desenvolva um amplo retrato da vida urbana popular.

Uma das características mais interessantes da obra é que o próprio cortiço parece funcionar quase como uma personagem.

Ele cresce.

Transforma-se.

Abriga conflitos.

Influência comportamentos.

O ambiente possui enorme importância dentro da lógica naturalista.

Isso representa uma aplicação clara da ideia de que o indivíduo não pode ser compreendido isoladamente das condições em que vive.

João Romão e a ambição

Uma das figuras centrais de O Cortiço é João Romão, imigrante português profundamente ambicioso que acumula riqueza por meio de exploração, economia extrema e diferentes estratégias.

Sua trajetória permite discutir ascensão social, exploração do trabalho e desejo de pertencimento às classes mais privilegiadas.

Quanto mais acumula dinheiro, mais deseja reconhecimento social.

Essa dimensão aproxima a obra de uma crítica ao funcionamento de uma sociedade marcada por competição econômica e desigualdade.

Bertoleza e a violência social

Outra personagem fundamental é Bertoleza, mulher negra explorada por João Romão.

Sua trajetória é especialmente importante para compreender as relações entre raça, gênero, trabalho e escravidão no período.

Mesmo em uma sociedade que caminhava para a abolição, as estruturas de exploração permaneciam extremamente fortes.

A relação entre João Romão e Bertoleza revela justamente como interesses econômicos e relações de poder podem determinar a maneira como uma pessoa é tratada.

Uma leitura contemporânea de O Cortiço precisa observar essa dimensão com atenção.

Zoomorfização no Naturalismo

Um recurso frequentemente associado ao Naturalismo é a zoomorfização, ou seja, a representação de comportamentos humanos por meio de características aproximadas das ações animais.

Isso aparece porque determinados autores naturalistas enfatizam impulsos, instintos e aspectos corporais da existência.

Entretanto, é importante analisar esse recurso criticamente.

Em alguns textos do período, determinadas representações carregam preconceitos de classe, raça ou gênero relacionados às teorias pseudocientíficas do século XIX.

Por isso, uma leitura contemporânea não precisa repetir essas concepções.

Pode justamente perceber como elas foram historicamente construídas.

Determinismo

O determinismo é um conceito central para compreender o Naturalismo. Segundo essa perspectiva, o comportamento humano seria condicionado fortemente por elementos que escapam à vontade individual.

Entre eles aparecem:

meio;

hereditariedade;

condições sociais;

impulsos biológicos.

Isso ajuda a explicar por que os personagens naturalistas frequentemente parecem presos às condições em que vivem.

A ideia de liberdade individual é reduzida.

O comportamento passa a ser observado quase como objeto de estudo.

É daí que surge a famosa aproximação entre o escritor naturalista e uma espécie de observador experimental da sociedade.

Émile Zola e o Naturalismo europeu

O grande nome do Naturalismo europeu é o francês Émile Zola. Suas ideias tiveram enorme influência sobre escritores de diferentes países.

Zola defendia uma literatura capaz de observar o comportamento humano dentro de determinadas condições sociais e biológicas, aproximando a criação literária de métodos de investigação científica valorizados no século XIX.

Essa proposta explica por que muitos romances naturalistas trabalham ambientes considerados marginalizados ou situações sociais extremas.

Os autores queriam observar aquilo que a literatura tradicional muitas vezes evitava.

Outros autores naturalistas brasileiros

Além de Aluísio Azevedo, podemos lembrar Adolfo Caminha, autor de Bom-Crioulo, romance que aborda uma relação homoafetiva masculina em contexto militar e marítimo, temática extremamente ousada para o final do século XIX.

Também aparece Júlio Ribeiro, autor de A Carne, obra marcada por temas relacionados à sexualidade e ao comportamento humano.

Esses livros ajudam a perceber como o Naturalismo frequentemente colocou no centro da narrativa questões consideradas incômodas ou socialmente proibidas.

Ao mesmo tempo, suas representações precisam ser lidas dentro dos limites e preconceitos de seu período histórico.

E Raul Pompeia?

Raul Pompeia, autor de O Ateneu, ocupa uma posição particular dentro da Literatura brasileira. A obra apresenta características que dialogam com Realismo, Naturalismo e outras tendências do final do século XIX, sendo frequentemente tratada de maneira própria nos estudos literários.

O Ateneu acompanha Sérgio, que recorda sua experiência em um colégio interno comandado pelo diretor Aristarco.

A escola funciona como um microcosmo social.

Ali encontramos poder, hierarquias, aparências, conflitos, competição e diferentes formas de violência.

O ambiente escolar torna-se uma representação crítica da própria sociedade.

Realismo e crítica social

Uma característica que aproxima vários autores do período é justamente a disposição para questionar instituições e valores considerados naturais.

O casamento.

A família.

A religião.

A escola.

A propriedade.

A ascensão social.

A escravidão.

As relações entre homens e mulheres.

Tudo pode ser colocado sob observação.

A Literatura deixa de simplesmente confirmar valores da sociedade e passa a revelar suas contradições.

Isso transforma o texto literário em um instrumento poderoso de reflexão.

Um pequeno treinamento: Romantismo ou Realismo?

Imagine duas descrições.

Na primeira, um jovem apaixonado observa a mulher amada e a compara a uma criatura angelical, perfeita e inacessível. A natureza parece refletir seu estado emocional.

Temos fortes características românticas.

Na segunda, o narrador descreve um casamento aparentemente respeitável, mas aos poucos revela interesses econômicos, ciúme, vaidade e comportamento contraditório entre os envolvidos.

Estamos muito mais próximos do Realismo.

Observe que não precisamos começar pela data.

Começamos pela maneira como o ser humano está sendo representado.

E Realismo ou Naturalismo?

Agora imagine outra comparação.

Em um texto, o autor investiga profundamente as motivações psicológicas de um personagem e utiliza ironia para revelar as contradições das relações sociais.

Essa tendência se aproxima do Realismo.

Em outro, o comportamento dos personagens é apresentado como fortemente influenciado pelo ambiente degradado, pelas condições materiais e por impulsos tratados segundo concepções deterministas.

Temos características mais próximas do Naturalismo.

Esse tipo de comparação é muito mais produtivo do que simplesmente decorar duas listas separadas.

Machado de Assis não é naturalista

Essa confusão aparece bastante entre estudantes porque Realismo e Naturalismo acontecem praticamente no mesmo período.

Machado de Assis é o grande nome do Realismo brasileiro.

Aluísio Azevedo é o principal representante do Naturalismo brasileiro.

Podemos pensar na diferença de maneira simples:

Machado investiga a mente e as relações sociais.

Aluísio observa fortemente a interação entre indivíduo, ambiente e condições materiais.

Essa síntese não esgota os autores, mas ajuda bastante na organização inicial.

Como o ENEM pode cobrar Realismo?

Uma questão pode apresentar um fragmento machadiano e pedir que você perceba ironia, crítica social, ambiguidade ou comportamento de um narrador.

Talvez nem apareça a palavra “Realismo” no comando.

A prova pode simplesmente perguntar qual efeito determinada escolha narrativa produz.

É exatamente por isso que você precisa ler Machado, e não apenas conhecer sua classificação.

Quando um narrador conversa diretamente com o leitor, interrompe a narrativa ou apresenta uma versão duvidosa dos fatos, essa construção possui função.

Descobrir essa função é interpretação literária.

Como o ENEM pode cobrar Naturalismo?

Um fragmento de O Cortiço pode aparecer destacando a importância do ambiente, a representação coletiva dos moradores ou a relação entre comportamento e condições sociais.

Uma questão também pode permitir análise crítica das teorias deterministas do período.

Nesse caso, conhecer o contexto histórico ajuda bastante.

O candidato precisa perceber que uma representação literária também pode carregar valores e concepções de sua época.

Ler criticamente significa reconhecer essas marcas.

Literatura e História se encontram novamente

Realismo e Naturalismo aparecem no Brasil em um momento decisivo.

O final do século XIX é marcado por importantes transformações:

a campanha abolicionista;

a Abolição da Escravidão em 1888;

a crise do Império;

a Proclamação da República em 1889;

crescimento urbano;

mudanças econômicas;

circulação de novas ideias científicas e políticas.

Essas transformações ajudam a compreender por que os escritores estavam tão interessados em observar criticamente a sociedade.

A Literatura acompanha um país em transformação.

Compare o tratamento da mulher

Esse também é um exercício interessante.

No Romantismo, encontramos frequentemente mulheres idealizadas como puras, angelicais ou extraordinariamente belas.

No Realismo, essa idealização começa a ser desmontada.

As personagens femininas passam a ser construídas com desejos, interesses, contradições e maior complexidade psicológica.

Entretanto, devemos também analisar criticamente o olhar masculino predominante em boa parte dessas obras.

A representação literária nunca está completamente separada das relações de gênero existentes no período em que foi produzida.

Compare também a representação do amor

No Romantismo, o amor pode aparecer como sentimento absoluto capaz de organizar toda a existência do personagem.

No Realismo, o casamento e as relações amorosas frequentemente são observados juntamente com interesses econômicos, status, ciúme e convenções sociais.

Isso não significa que os personagens realistas não amem.

Significa que o amor não aparece isolado das outras forças presentes na sociedade e na psicologia humana.

Essa diferença diz muito sobre a mudança de perspectiva entre os movimentos.

O humor de Machado de Assis

Quando falamos em Realismo, muitos estudantes imaginam textos sérios e pesados. Machado de Assis mostra que crítica social e humor podem funcionar perfeitamente juntos.

Sua ironia pode ser extremamente engraçada.

Mas o riso frequentemente esconde alguma coisa desconfortável.

Rimos de Brás Cubas e, ao mesmo tempo, percebemos sua vaidade.

Rimos de determinadas situações sociais e depois descobrimos que a crítica também pode ser dirigida ao próprio leitor.

Esse humor inteligente é uma das características que tornam Machado tão atual.

Um narrador pode manipular o leitor

Essa talvez seja uma das ideias mais importantes para levar desta aula.

Narrador não é autor.

E narrador não precisa dizer a verdade.

Quando Bentinho conta sua história em Dom Casmurro, estamos ouvindo Bentinho, uma personagem construída por Machado.

Quando Brás Cubas narra suas memórias, estamos ouvindo Brás Cubas.

O escritor cria essas vozes.

Seu trabalho como leitor é perceber como elas funcionam.

Essa habilidade também serve para outros gêneros textuais: saber distinguir perspectiva, posicionamento e estratégia discursiva é fundamental no ENEM.

Realismo e repertório sociocultural

Na quarta-feira desta semana estudaremos especificamente repertório sociocultural, e a aula de hoje já acrescenta várias possibilidades ao nosso banco.

Machado de Assis pode ser utilizado em discussões sobre:

hipocrisia social;

relações de interesse;

aparência e realidade;

desigualdade;

escravidão;

poder;

comportamento humano.

O Cortiço pode dialogar com:

habitação;

desigualdade urbana;

trabalho;

exploração;

preconceito;

condições sociais.

Como sempre, porém, uma obra só se transforma em bom repertório quando conseguimos explicar sua relação com o argumento.

Um exemplo com O Cortiço

Imagine uma proposta sobre desafios para garantir moradia digna nas cidades brasileiras.

Uma utilização superficial seria:

“No livro O Cortiço, existe um cortiço.”

Isso praticamente não acrescenta nada.

Uma utilização produtiva poderia explicar que Aluísio Azevedo representa uma habitação coletiva em que condições materiais, desigualdade e organização do espaço influenciam profundamente a vida dos moradores. A obra poderia então ser relacionada historicamente às dificuldades de acesso a condições adequadas de moradia nos centros urbanos.

Agora a Literatura participa do argumento.

Um exemplo com Machado

Imagine um tema sobre desafios para combater a cultura das aparências nas redes sociais.

Você poderia relacionar o tema à crítica machadiana das convenções sociais e da preocupação com status e imagem pública.

Entretanto, não bastaria escrever:

“Machado de Assis criticava as aparências.”

Seria necessário explicar que suas personagens frequentemente constroem comportamentos orientados pelo reconhecimento social, permitindo estabelecer uma comparação entre diferentes formas históricas de busca por prestígio.

Perceba como uma obra do século XIX pode dialogar com problemas contemporâneos quando existe uma relação argumentativa clara.

Uma síntese para guardar

Se você precisar recuperar rapidamente o conteúdo, pense assim:

Realismo

Contexto: segunda metade do século XIX.

Marco brasileiro: Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881.

Principal autor: Machado de Assis.

Características: crítica social, ironia, análise psicológica, personagens complexas, questionamento das idealizações e observação das relações de interesse.

Naturalismo

Marco brasileiro: O Mulato, 1881.

Principal autor: Aluísio Azevedo.

Características: determinismo, influência do meio e da hereditariedade, atenção aos aspectos biológicos e sociais, representação de grupos marginalizados e forte presença das condições materiais.

Principal obra: O Cortiço.

Use essa síntese para revisar.

Depois volte aos textos.

Um exercício para hoje

Pegue uma folha e escreva no centro:

ROMANTISMO → REALISMO → NATURALISMO

Abaixo de Romantismo, escreva três palavras que recuperem a aula passada.

Talvez:

idealização — subjetividade — sentimento.

Abaixo de Realismo:

ironia — psicologia — crítica social.

Abaixo de Naturalismo:

determinismo — meio — hereditariedade.

Depois acrescente um autor e uma obra para cada movimento.

Essa pequena atividade ajuda a construir uma linha histórica e diminui a sensação de que estamos estudando dezenas de informações isoladas.

Leia Machado hoje

Se você puder fazer apenas uma atividade prática depois desta aula, escolha um pequeno texto de Machado de Assis.

Um conto é uma ótima opção.

A Cartomante, O Espelho, Missa do Galo ou Pai contra Mãe podem oferecer excelente contato com sua escrita.

Não leia apenas para descobrir o que acontece.

Observe o narrador.

Observe as escolhas de palavras.

Procure ironia.

Veja como as personagens justificam seus comportamentos.

Pergunte o que o texto deixa sem resposta.

Isso é estudar Realismo.

Leia um fragmento de O Cortiço

Se tiver mais tempo, procure também um trecho de O Cortiço.

Observe como Aluísio Azevedo descreve o espaço coletivo.

Pergunte se o ambiente está funcionando apenas como cenário.

Veja como os personagens são apresentados em relação às condições em que vivem.

Compare essa construção com aquilo que encontrou em Machado.

Você começará a perceber a diferença entre os dois movimentos de maneira muito mais clara.

Não tente decorar tudo hoje

Realismo e Naturalismo possuem muitos autores, obras e conceitos. Você não precisa terminar a aula sabendo cada detalhe.

Priorize aquilo que realmente organiza o conteúdo:

contexto;

diferença em relação ao Romantismo;

Realismo versus Naturalismo;

Machado de Assis;

Aluísio Azevedo;

Memórias Póstumas de Brás Cubas;

O Cortiço;

ironia;

análise psicológica;

determinismo e influência do meio.

Depois acrescente informações gradualmente.

O conhecimento precisa de estrutura antes de receber detalhes.

Amanhã: Morfologia

No Dia 24 da Revisão Monstro — ENEM em 77 dias, voltaremos para Gramática com:

Morfologia: as classes gramaticais e seus efeitos de sentido

Vamos revisitar substantivos, adjetivos, artigos, pronomes, verbos, advérbios, preposições, conjunções, numerais e interjeições, mas nosso objetivo principal será compreender como essas escolhas participam da construção dos textos.

Depois de observarmos hoje como Machado e Aluísio escolhem estratégias para representar a sociedade, amanhã diminuiremos nossa lente e olharemos para as próprias palavras.

Literatura e Gramática continuarão dialogando.

Faltam 55 dias: desconfie das aparências

Existe uma lição curiosiosamente apropriada do Realismo para nossa preparação.

Nem tudo aquilo que parece aprendido realmente está consolidado.

Você pode ler uma aula e sentir que compreendeu tudo. Mas somente quando fecha o material e tenta explicar, comparar ou resolver uma questão descobre o que realmente permaneceu.

Por isso, não confie apenas na sensação de familiaridade.

Teste-se.

Tente explicar a diferença entre Romantismo e Realismo sem consultar.

Explique Realismo e Naturalismo.

Diga por que Machado de Assis utiliza narradores tão importantes.

Explique por que o ambiente possui papel fundamental em O Cortiço.

Se conseguir fazer isso, ótimo.

Se travar, você encontrou aquilo que precisa revisar.

É exatamente assim que devemos utilizar os 55 dias que ainda temos pela frente: transformando dúvidas em objetivos específicos de estudo.

Hoje conhecemos uma Literatura que desconfia das aparências.

Faça o mesmo com sua preparação.

Não pergunte apenas:

“Parece que eu aprendi?”

Pergunte:

“Consigo usar aquilo que aprendi?”

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O Romantismo nos ensinou a olhar para os sonhos; o Realismo e o Naturalismo nos convidam a olhar para aquilo que existe por trás das aparências. No ENEM, aprender a enxergar além da superfície também pode fazer toda a diferença.