Revisão Monstro — ENEM em 77 dias
Dia 19 — 10 de setembro de 2026 — Quinta-feira — Temas de Redação
Simulado de Redação no estilo ENEM
Olá amigos e alunos do blog A Escola Literária! Chegamos ao Dia 19 da nossa Revisão Monstro — ENEM em 77 dias e, como acontece às quintas-feiras, chegou o momento de transformar o conteúdo estudado nas aulas anteriores em prática de produção textual. Ontem aprendemos como construir uma introdução organizada a partir de três elementos fundamentais — contextualização, apresentação do tema e tese — e hoje você terá uma nova oportunidade de aplicar exatamente esse conhecimento.
Nossa proposta trata de uma questão profundamente relacionada à formação histórica da sociedade brasileira: o racismo no mercado de trabalho. Entretanto, atenção desde o início: não basta produzir uma redação genérica sobre racismo, preconceito ou desigualdade social. O tema apresenta um recorte específico e exige que você pense nas formas pelas quais a discriminação racial aparece nas relações profissionais e, principalmente, nos caminhos que podem contribuir para seu enfrentamento.
Durante esta aula, você encontrará uma coletânea de textos motivadores baseada em dados e documentos reais, seguida de uma proposta completa no estilo do ENEM. Depois, vamos analisar o recorte temático e organizar estratégias de planejamento sem fornecer uma redação pronta. O objetivo é fazer você pensar, selecionar argumentos e construir seu próprio projeto de texto.
⏳ Faltam 59 dias para o ENEM!
Hoje, 10 de setembro de 2026, faltam 59 dias para o primeiro dia do ENEM. Nossa contagem regressiva entrou definitivamente na casa dos cinquenta dias, e agora cada semana de treinamento se torna ainda mais valiosa. Desde o início da revisão, já estudamos a estrutura da redação, as cinco competências, a interpretação da proposta, a delimitação temática e, ontem, a construção da introdução.
Isso significa que você já possui ferramentas que não tinha quando começamos. O exercício de hoje não será apenas “mais um tema de redação”; ele deverá funcionar como uma oportunidade para reunir habilidades trabalhadas separadamente e observar se você consegue utilizá-las dentro de um mesmo projeto argumentativo.
Se sua introdução ainda não ficar como gostaria, isso não significa que o estudo de ontem não funcionou. Significa que começamos a fase realmente importante: a aplicação. É justamente escrevendo, relendo e reformulando que uma estratégia deixa de ser apenas teoria e começa a se transformar em domínio.
Antes da coletânea: leia o recorte do tema
O tema de hoje é:
Caminhos para combater o racismo no mercado de trabalho brasileiro
Vamos aplicar imediatamente a estratégia que estudamos no Dia 11 e desmontar essa proposta em partes.
A expressão “caminhos” indica que nossa redação deverá refletir sobre possibilidades de enfrentamento do problema. Isso não significa que todo o texto precise ser composto por soluções, pois ainda teremos de analisar as causas e manifestações do racismo para justificar as medidas propostas. Entretanto, a argumentação precisa caminhar em direção a formas concretas de transformação.
O verbo “combater” mostra que existe um problema já reconhecido e que deverá ser enfrentado. A palavra “racismo” delimita a natureza da desigualdade discutida, enquanto a expressão “mercado de trabalho brasileiro” estabelece o espaço social específico no qual essa questão deverá ser analisada.
Portanto, uma redação inteira sobre racismo na sociedade brasileira, sem desenvolver suas manifestações no universo profissional, ficaria ampla demais. Da mesma forma, um texto sobre desemprego de maneira geral poderia abordar um problema social importante e ainda assim não responder ao recorte proposto.
Transforme o tema em uma pergunta
Utilizando nossa estratégia das aulas anteriores, podemos transformar a proposta em uma pergunta orientadora:
Que medidas podem contribuir para combater as desigualdades e práticas racistas presentes no mercado de trabalho brasileiro?
Essa pergunta já começa a organizar o raciocínio. Entretanto, para respondê-la bem, precisamos compreender antes como o problema se manifesta.
Podemos pensar em acesso às oportunidades profissionais, remuneração, informalidade, processos seletivos, ascensão a cargos de liderança, permanência no emprego, discriminação cotidiana e diferenças que se mantêm mesmo entre trabalhadores com níveis semelhantes de escolaridade.
Os textos motivadores ajudarão justamente a ampliar essa compreensão.
SIMULADO DE REDAÇÃO ENEM
Tema: Caminhos para combater o racismo no mercado de trabalho brasileiro
Leia atentamente os quatro textos motivadores a seguir. Eles apresentam dados estatísticos, informações sobre desigualdade racial, mecanismos legais e uma perspectiva internacional sobre a discriminação no trabalho.
Lembre-se de que a coletânea não deve ser simplesmente reproduzida. Sua função é ajudar você a compreender o problema e a construir uma argumentação própria, relacionando essas informações aos conhecimentos adquiridos ao longo de sua formação.
TEXTO I — Escolaridade não elimina as diferenças de rendimento
Dados da Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, referentes a 2024, mostram que trabalhadores brancos apresentavam rendimento-hora superior ao de trabalhadores pretos ou pardos em todos os níveis de instrução analisados. Considerando o conjunto das pessoas ocupadas, o rendimento médio por hora era de R$ 24,60 para pessoas brancas e R$ 15,00 para pessoas pretas ou pardas.
A diferença também permanecia entre trabalhadores com Ensino Superior completo. Nesse grupo, o rendimento-hora médio era de R$ 43,20 entre pessoas brancas e R$ 29,90 entre pessoas pretas ou pardas. Os números mostram que o aumento da escolaridade melhora as possibilidades profissionais, mas não elimina automaticamente as desigualdades relacionadas à cor ou raça no mercado de trabalho brasileiro.
Fonte: IBGE — Síntese de Indicadores Sociais 2025, dados referentes a 2024. Adaptado.
TEXTO II — Desigualdade também aparece no tipo de ocupação
O Ministério do Trabalho e Emprego mantém um boletim específico sobre desigualdade racial no mercado de trabalho, elaborado com dados da PNAD Contínua. A publicação acompanha indicadores como desocupação, rendimento, informalidade e condições de inserção profissional e destaca que pessoas negras continuam enfrentando desvantagens importantes.
O levantamento chama atenção também para a interação entre diferentes formas de desigualdade. As mulheres negras, por exemplo, podem enfrentar simultaneamente obstáculos relacionados a raça e gênero, situação que ajuda a compreender por que determinados grupos aparecem com maior vulnerabilidade em indicadores relacionados ao mercado de trabalho.
O próprio Ministério da Igualdade Racial destaca que trabalhadores negros enfrentam maiores dificuldades de acesso ao emprego formal e à renda e permanecem mais presentes em ocupações precarizadas e de menor remuneração.
Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego e Ministério da Igualdade Racial. Adaptado.
TEXTO III — A discriminação no trabalho é proibida por lei
A legislação brasileira já estabelece mecanismos destinados ao combate à discriminação nas relações profissionais. A Lei nº 9.029/1995 proíbe práticas discriminatórias e limitativas no acesso ao trabalho ou na manutenção da relação profissional por motivos como raça, cor, origem, sexo, idade e outras condições.
Mais recentemente, a Lei nº 14.553/2023 modificou o Estatuto da Igualdade Racial para ampliar a coleta de informações relacionadas à distribuição étnico-racial no mercado de trabalho, incluindo a identificação por autoclassificação em registros administrativos. A produção desses dados permite acompanhar diferenças de contratação, remuneração e ocupação profissional e oferece instrumentos para políticas públicas e fiscalização.
A legislação também estabelece consequências específicas para situações de discriminação remuneratória. A Lei nº 14.611/2023 modificou a Consolidação das Leis do Trabalho para prever que, quando houver discriminação salarial por motivo de sexo, raça, etnia, origem ou idade, o pagamento das diferenças devidas não elimina o direito da pessoa discriminada de buscar indenização por danos morais.
Fonte: Legislação Federal brasileira. Adaptado.
TEXTO IV — O racismo prejudica pessoas, empresas e sociedades
Em relatório publicado em março de 2026, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) destacou que a discriminação racial reduz a igualdade de oportunidades e limita as possibilidades de desenvolvimento profissional das pessoas atingidas. Segundo a organização, seus efeitos não ficam restritos ao trabalhador individualmente, alcançando também empresas, mercados de trabalho, sociedades e economias.
O documento defende que o enfrentamento das desigualdades raciais no mundo do trabalho depende de políticas e ações capazes de promover efetivamente igualdade de oportunidades e de tratamento. A discussão envolve não apenas normas legais, mas também produção de dados, políticas institucionais, participação de diferentes atores sociais e acompanhamento permanente das desigualdades.
Fonte: Organização Internacional do Trabalho — In conditions of freedom and dignity: Pathways to racial equality in the world of work, 2026. Adaptado.
PROPOSTA DE REDAÇÃO
A partir da leitura dos textos motivadores e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, produza um texto dissertativo-argumentativo em modalidade escrita formal da Língua Portuguesa sobre o tema:
“Caminhos para combater o racismo no mercado de trabalho brasileiro”
Apresente uma tese clara e desenvolva argumentos capazes de sustentar seu ponto de vista de maneira coerente e coesa. Ao final, elabore uma proposta de intervenção social relacionada ao problema discutido, respeitando os direitos humanos e articulando-a aos argumentos apresentados ao longo da redação.
Sua produção deverá demonstrar capacidade de interpretar o recorte temático, selecionar informações relevantes, desenvolver um projeto argumentativo e apresentar possibilidades concretas de enfrentamento do problema.
Agora não comece imediatamente pela introdução
Ontem estudamos justamente a introdução, e talvez sua vontade seja testar o conteúdo o mais rápido possível. Entretanto, uma boa introdução começa antes da primeira frase.
Faça primeiro o planejamento.
Pergunte quais aspectos do racismo no mercado de trabalho você pretende discutir. Depois, selecione dois eixos argumentativos que realmente consiga aprofundar. Somente quando souber quais ideias sustentarão a redação será o momento de decidir qual contextualização utilizar e como formular sua tese.
Esse procedimento reduz significativamente o risco de produzir uma abertura aparentemente muito boa e descobrir, no desenvolvimento, que você não sabe como continuar.
Lembre-se da nossa comparação: a tese funciona como uma promessa ao leitor. Não faça uma promessa antes de saber como pretende cumpri-la.
Racismo no mercado de trabalho não significa apenas ofensa racial
Esse é um ponto importantíssimo para interpretar corretamente o tema. Quando falamos em racismo nas relações profissionais, podemos pensar imediatamente em situações explícitas de discriminação, como comentários ofensivos, rejeição de uma candidatura por motivo racial ou tratamento desigual dentro do ambiente empresarial.
Essas situações são graves e fazem parte da discussão, mas o problema pode assumir formas mais amplas. Os dados sobre rendimento, informalidade e participação em diferentes posições profissionais mostram que a desigualdade também pode aparecer como um fenômeno estrutural, no qual determinados grupos enfrentam obstáculos persistentes mesmo quando não existe uma declaração abertamente racista.
Os dados do IBGE apresentados na coletânea ajudam a perceber esse ponto. Mesmo entre trabalhadores com Ensino Superior completo, as diferenças de rendimento entre brancos e pretos ou pardos permaneciam em 2024.
Isso permite que sua redação ultrapasse uma interpretação excessivamente individual do problema.
Um caminho possível: processos de contratação
Uma possibilidade de argumentação está relacionada ao acesso às oportunidades profissionais. Você poderia refletir sobre como preconceitos conscientes ou inconscientes podem interferir na seleção de candidatos e na maneira como determinados perfis são avaliados.
Nesse caminho, seria possível discutir a necessidade de processos seletivos mais objetivos, transparência nos critérios de contratação, formação das equipes responsáveis por recrutamento e mecanismos internos capazes de identificar padrões discriminatórios.
Entretanto, não basta escrever que “as empresas precisam contratar mais pessoas negras”. Você precisa explicar qual problema pretende enfrentar, por que determinada medida poderia produzir resultado e como ela poderia ser implementada.
Esse aprofundamento transforma uma sugestão genérica em argumentação.
Outro caminho: ascensão profissional
O racismo no mercado de trabalho não termina quando alguém consegue um emprego. A discussão também pode envolver promoção, ocupação de cargos de decisão, remuneração e possibilidade de crescimento profissional.
Uma empresa pode apresentar diversidade em determinadas funções e ainda manter desigualdades importantes nos postos de maior poder e remuneração. Nesse caso, apenas analisar o número total de trabalhadores talvez não seja suficiente para compreender como as oportunidades estão distribuídas.
Políticas de acompanhamento de carreira, critérios transparentes de promoção e análise periódica de indicadores raciais podem ser utilizadas como possibilidades de enfrentamento dentro desse eixo.
Perceba que cada argumento precisa olhar para uma dimensão específica do problema. Não tente discutir contratação, salários, liderança, educação, informalidade, fiscalização e cultura empresarial dentro de um único parágrafo.
A desigualdade salarial também pode entrar na discussão
Os dados do IBGE oferecem um repertório bastante forte para esse caminho argumentativo. Em 2024, o rendimento-hora médio das pessoas ocupadas brancas foi de R$ 24,60, enquanto o de pretos ou pardos ficou em R$ 15,00. A diferença permaneceu mesmo entre trabalhadores com Ensino Superior completo.
Esses dados podem servir para demonstrar que qualificação educacional, embora extremamente importante, não é capaz de resolver sozinha todas as desigualdades presentes no mercado profissional.
Se você escolher esse eixo, porém, não utilize o número apenas como decoração. Pergunte quais fatores podem ajudar a explicar a permanência da diferença e quais mecanismos poderiam contribuir para reduzi-la.
Dados se tornam repertório quando participam do raciocínio.
Educação é importante, mas tome cuidado com a simplificação
Uma resposta muito frequente em temas relacionados à desigualdade é afirmar que “a solução é investir em educação”. A educação possui importância indiscutível para ampliar oportunidades, mas os próprios dados da coletânea mostram que a diferença de rendimento permanece mesmo entre trabalhadores de níveis semelhantes de escolaridade.
Isso significa que uma redação consistente precisa evitar a ideia de que o racismo no mercado de trabalho seria resolvido exclusivamente pela qualificação individual da população negra.
Se um trabalhador negro possui a mesma escolaridade que outro trabalhador branco e ainda assim existem diferenças estatísticas de remuneração entre os grupos, estamos diante de um problema que ultrapassa apenas a formação educacional.
Essa percepção pode enriquecer bastante sua argumentação.
O papel das empresas
As empresas podem aparecer como agentes importantes dentro da proposta de intervenção. Processos transparentes de seleção e promoção, canais eficientes para denúncias, acompanhamento de dados sobre diversidade, formação das equipes e políticas voltadas à igualdade de oportunidades são algumas possibilidades.
Entretanto, evite transformar sua conclusão em uma lista de boas intenções.
Se você colocar uma empresa como agente, determine o que ela deverá fazer, como realizará a ação e qual resultado se espera alcançar.
Quanto mais relacionada estiver a proposta aos argumentos desenvolvidos anteriormente, maior será a unidade de sua redação.
O papel do Estado
O Estado também possui responsabilidades importantes. A existência de legislação antidiscriminatória mostra que o combate ao racismo no mercado de trabalho não depende exclusivamente de mudanças voluntárias nas empresas.
Fiscalização, produção de indicadores, aplicação da legislação, políticas de igualdade racial e mecanismos de denúncia podem fazer parte da discussão. As leis apresentadas na coletânea demonstram que o Brasil já possui instrumentos jurídicos importantes, mas a existência de uma norma não garante, sozinha, a eliminação das desigualdades.
Esse contraste entre direito formal e realidade social pode formar um excelente eixo argumentativo.
Você poderia, por exemplo, discutir por que políticas existentes precisam ser acompanhadas por fiscalização, transparência e mecanismos de responsabilização.
E a sociedade?
Também é possível discutir mudanças culturais mais amplas. Estereótipos raciais são construídos socialmente e podem influenciar expectativas sobre competência, aparência, comportamento e adequação profissional.
Campanhas educativas, formação sobre relações raciais e maior representatividade em diferentes posições profissionais podem ajudar a combater determinadas percepções naturalizadas.
Entretanto, tome cuidado para não concluir simplesmente que “a sociedade precisa se conscientizar”.
Quem deverá produzir essa conscientização? Escolas? Empresas? Poder público? Meios de comunicação? Entidades profissionais?
Como?
Por qual meio?
Com qual objetivo?
Quanto mais concreta for sua resposta, melhor.
Racismo estrutural pode ser um conceito produtivo
Um repertório bastante relacionado ao tema é o conceito de racismo estrutural, utilizado para compreender como desigualdades raciais podem ser reproduzidas por instituições, práticas e relações sociais mesmo quando não dependem exclusivamente de uma manifestação individual explícita.
Caso você domine esse conceito e saiba explicá-lo, ele pode ajudar a interpretar justamente os dados de desigualdade presentes no mercado de trabalho.
Entretanto, não basta escrever:
“Segundo determinado autor, existe racismo estrutural no Brasil.”
Depois da referência, explique o que isso significa dentro do argumento que você está construindo.
O repertório precisa trabalhar.
Torto Arado pode voltar como repertório?
Pode, desde que exista conexão argumentativa. Estudamos recentemente Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, e vimos como o romance representa comunidades negras submetidas a relações historicamente desiguais de trabalho e acesso à terra.
Se sua argumentação discutir as permanências históricas da desigualdade racial na organização do trabalho brasileiro, a obra poderá funcionar como uma referência interessante, especialmente quando relacionada à herança de processos sociais formados desde o período escravista.
Entretanto, evite fazer uma associação simplista. Os moradores da Fazenda Água Negra vivem uma realidade rural específica, enquanto o tema de hoje abrange o mercado de trabalho brasileiro de maneira mais ampla.
Você precisa explicar a ponte entre a obra e seu argumento.
E Castro Alves?
Também estudamos recentemente a terceira geração romântica e a poesia abolicionista de Castro Alves. Textos como O Navio Negreiro participaram da denúncia da violência da escravidão no século XIX.
Esse repertório pode ser utilizado para mostrar que o combate à opressão racial possui uma longa trajetória dentro da sociedade e da cultura brasileiras. Entretanto, novamente será necessário avançar para o presente.
A abolição jurídica da escravidão não eliminou automaticamente as desigualdades construídas durante séculos. Essa permanência histórica pode servir como ponte para discutir diferenças contemporâneas no mercado de trabalho.
Perceba como nossos conteúdos de Literatura começam a formar também um banco de repertórios para a Redação.
Uma boa contextualização para a introdução
Como ontem estudamos especificamente a introdução, o tema de hoje é uma ótima oportunidade para treinar diferentes estratégias.
Uma contextualização histórica poderia partir da abolição da escravidão e da ausência de uma integração social ampla da população negra no período posterior. Uma introdução jurídica poderia iniciar a partir do princípio de igualdade ou das normas que proíbem a discriminação profissional. Uma contextualização literária poderia mobilizar uma obra relacionada à desigualdade racial e ao trabalho.
Você também poderia iniciar diretamente com a realidade contemporânea, utilizando os dados de rendimento apresentados na coletânea.
Existem vários caminhos possíveis.
O importante é que sua escolha conduza naturalmente ao problema e à tese.
Não copie a introdução de ontem
Ontem utilizamos justamente este tema como exemplo para ensinar a estrutura do primeiro parágrafo. Se você acompanhou aquela aula, viu uma possibilidade de contextualização e tese.
Agora quero que você faça algo diferente.
Construa sua própria introdução.
Utilize outro repertório, outro recorte ou outros argumentos.
O objetivo da aula anterior não era fornecer uma introdução para ser decorada. Era mostrar como uma introdução funciona.
Se você apenas copiar o modelo, perderá justamente o exercício que mais precisa fazer.
Aprenda a estrutura.
Depois crie.
Pense em dois argumentos realmente diferentes
Um erro bastante frequente acontece quando o estudante acredita possuir dois argumentos, mas escreve duas versões praticamente iguais da mesma ideia.
Imagine:
Argumento 1: existe preconceito racial nas empresas.
Argumento 2: as empresas discriminam trabalhadores negros.
Não temos dois argumentos. Temos a mesma ideia repetida.
Você poderia construir dois eixos mais claramente diferenciados, como:
um relacionado a processos de contratação e promoção;
outro relacionado a fiscalização e efetividade das políticas antidiscriminatórias.
Ou escolher:
um eixo histórico e estrutural;
outro institucional e empresarial.
A escolha é sua.
Mas os dois parágrafos precisam acrescentar algo ao projeto.
Desenvolva o argumento, não apenas apresente
Suponha que você escolha a desigualdade na ascensão profissional.
Não escreva apenas:
“Outro problema é a dificuldade de pessoas negras chegarem a cargos de liderança.”
Pergunte por quê.
Que práticas podem contribuir para isso?
Quais consequências surgem quando determinados grupos permanecem afastados dos espaços de decisão?
Como critérios mais transparentes de promoção poderiam contribuir?
Essa sequência produz aprofundamento.
Uma afirmação isolada é apenas o começo de um argumento.
Sua proposta de intervenção precisa responder à redação que você escreveu
Como o tema utiliza a palavra “caminhos”, será particularmente importante que a conclusão não apareça como uma solução improvisada.
Imagine que você tenha discutido processos seletivos discriminatórios e dificuldade de ascensão profissional. Sua intervenção deveria dialogar com esses dois problemas.
Agora imagine que, depois de vinte linhas sobre essas questões, você termine dizendo apenas:
“As escolas devem realizar palestras contra o racismo.”
A proposta pode até ser positiva, mas existe uma distância muito grande entre seus argumentos e a solução escolhida.
Quanto maior a continuidade entre diagnóstico e intervenção, mais coerente será o projeto de texto.
Dados podem ajudar a tornar a intervenção mais inteligente
Uma das informações mais interessantes da coletânea está na legislação que determina a coleta de dados raciais em registros relacionados ao mercado de trabalho.
Por que isso importa?
Porque não é possível combater adequadamente uma desigualdade que não conseguimos medir.
Empresas e órgãos públicos podem utilizar indicadores para perceber se determinados grupos estão concentrados em posições específicas, se existem diferenças de remuneração ou se políticas internas estão produzindo resultados.
A produção de dados não resolve o racismo sozinha, mas oferece instrumentos para diagnóstico, acompanhamento e responsabilização.
Esse é um ótimo exemplo de solução que ultrapassa frases genéricas.
Não transforme a redação em um discurso moral
Dizer que racismo é errado é correto, mas a redação do ENEM precisa avançar além dessa constatação.
O leitor já sabe que a discriminação racial é um problema.
Sua tarefa é analisar.
Como ela se manifesta?
Por que permanece?
Que estruturas contribuem para sua reprodução?
Que ações poderiam enfrentá-la?
Esse movimento transforma um texto opinativo genérico em uma argumentação.
A redação não deve apenas declarar valores.
Precisa construir raciocínio.
Cuidado com generalizações
Evite frases como:
“Todas as empresas brasileiras são racistas.”
ou:
“Nenhuma pessoa negra consegue ocupar cargos importantes.”
Generalizações absolutas são facilmente contestáveis e podem enfraquecer seu texto.
Prefira formulações que consigam reconhecer o caráter estrutural do problema sem transformar uma tendência social em uma afirmação universal.
Você poderia escrever, por exemplo, que desigualdades raciais persistem na distribuição de oportunidades e rendimentos no mercado brasileiro, apoiando essa afirmação nos dados apresentados.
Precisão fortalece a argumentação.
Não reduza pessoas negras à condição de vítimas
Outro cuidado importante está na maneira como você constrói o texto. Discutir racismo significa analisar estruturas de desigualdade e práticas discriminatórias, mas isso não exige representar toda a população negra apenas como passiva diante do problema.
Você pode reconhecer também trajetórias de resistência, movimentos sociais, atuação profissional, produção intelectual e políticas construídas historicamente para combater essas desigualdades.
Uma argumentação madura consegue discutir vulnerabilidade sem retirar dos sujeitos sua capacidade de ação.
Esse cuidado também ajuda a produzir um texto socialmente mais responsável.
Se possível, escreva a redação completa
Nossa proposta de quinta-feira existe para ser enfrentada. Se você dispõe de tempo hoje, produza o texto completo e tente utilizar conscientemente aquilo que estudamos ontem sobre introdução.
Faça o planejamento primeiro. Depois escreva a contextualização, estabeleça a conexão com o tema e formule sua tese. No desenvolvimento, verifique se cada parágrafo cumpre aquilo que foi prometido no primeiro.
Quando chegar à conclusão, construa uma intervenção vinculada aos problemas analisados.
Depois releia.
Na primeira releitura, observe o conteúdo e a organização.
Na segunda, procure também os aspectos linguísticos estudados na terça-feira: ortografia, acentuação, concordância e pontuação.
Perceba como três dias da nossa revisão podem trabalhar juntos dentro de uma única redação.
Se não puder escrever tudo, faça o projeto
Caso seu dia esteja corrido, não abandone completamente a proposta. Reserve alguns minutos para organizar seu projeto de texto.
Defina qual seria sua contextualização, escreva sua tese e estabeleça dois argumentos. Depois pense em pelo menos um repertório que poderia fortalecer cada desenvolvimento e em uma intervenção relacionada ao diagnóstico.
Esse exercício é muito mais produtivo do que simplesmente ler a coletânea e pensar:
“Eu saberia escrever sobre isso.”
Talvez soubesse.
Mas a melhor maneira de descobrir é tentar.
Quero ler sua tese nos comentários
As quintas-feiras também foram pensadas para aumentar a participação dos estudantes do A Escola Literária. Você não precisa colocar uma redação inteira no campo de comentários para participar.
Compartilhe sua tese.
Se quiser, acrescente seus dois argumentos.
Você pode escrever algo no formato:
Minha tese: …
Primeiro argumento: …
Segundo argumento: …
Possível intervenção: …
Ao ler outras respostas, você poderá perceber quantos caminhos diferentes podem ser construídos a partir da mesma proposta.
Isso também é aprendizado.
Compare ideias, mas não copie
Se outro estudante apresentar um argumento que você não havia imaginado, tente compreender por que ele funciona. Não transforme os comentários em um banco de frases para copiar.
Pergunte:
Como eu desenvolveria essa ideia com minhas próprias palavras?
Que repertório diferente eu utilizaria?
Existe alguma outra perspectiva sobre o mesmo problema?
Uma das maiores habilidades na redação é desenvolver autonomia argumentativa.
Você precisa chegar ao dia da prova sabendo tomar decisões sozinho.
Faltam 59 dias: sua terceira redação já deve ensinar algo
Se você vem acompanhando todas as propostas, esta é nossa terceira quinta-feira de treinamento. Já trabalhamos desinformação, educação digital e agora racismo no mercado de trabalho.
Pegue suas produções e observe se existe alguma mudança.
Suas teses estão mais claras?
Você está delimitando melhor os temas?
Começou a planejar antes de escrever?
As introduções possuem mais direção?
Sua intervenção está menos genérica?
Mesmo que a evolução ainda pareça pequena, continue.
Escrita é uma habilidade acumulativa. Muitas vezes, o estudante melhora durante várias semanas sem perceber e só nota a diferença quando compara um texto recente com outro escrito meses antes.
Por isso, guarde suas redações.
Elas são registros do seu desenvolvimento.
Amanhã continuamos
No Dia 20 da Revisão Monstro — ENEM em 77 dias, chegaremos novamente à nossa sexta-feira dedicada a ENEM e Vestibulares, ampliando o conhecimento sobre diferentes processos seletivos e oportunidades de ingresso no Ensino Superior.
Depois, no sábado, teremos mais um Resumo Completo, encerrando a terceira semana da nossa jornada. No domingo, faremos novamente nossa organização semanal e já estaremos diante de uma nova etapa da revisão.
Hoje, porém, ainda temos uma missão importante.
Leia novamente o tema:
Caminhos para combater o racismo no mercado de trabalho brasileiro
Não procure a redação perfeita.
Procure construir um raciocínio claro.
Leia.
Delimite.
Planeje.
Escreva.
Releia.
E melhore.
Faltam 59 dias para o ENEM, e cada texto produzido agora aumenta sua experiência para aquele único texto que realmente contará no dia da prova.
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Combater o racismo no trabalho não significa apenas abrir portas de entrada: significa garantir que todos possam permanecer, crescer e ocupar os espaços profissionais com igualdade de oportunidades e dignidade.
