Quem pretende prestar a FUVEST nos próximos anos já pode começar a organizar sua preparação literária. A fundação responsável pelo vestibular da Universidade de São Paulo divulgou antecipadamente as listas de leituras obrigatórias até a edição de 2033, permitindo que estudantes, professores e escolas conheçam as obras com vários anos de antecedência.
As relações apresentam mudanças importantes no perfil das leituras cobradas. Além dos romances tradicionais, aparecem poesia, contos, teatro, literatura africana, produção indígena e até uma graphic novel. Autores consagrados, como Machado de Assis, Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto, dividem espaço com obras que ainda recebem pouca atenção no ensino médio e nos materiais preparatórios.
Neste artigo, você confere todas as leituras obrigatórias da FUVEST entre 2027 e 2033, além das principais mudanças previstas para cada ciclo.
Leituras obrigatórias da FUVEST 2027
A lista da FUVEST 2027 é composta por nove obras escritas exclusivamente por mulheres de língua portuguesa. O conjunto reúne autoras brasileiras, portuguesas, angolanas e moçambicanas, abrangendo diferentes períodos, gêneros e perspectivas sociais.
- Opúsculo Humanitário — Nísia Floresta
- Nebulosas — Narcisa Amália
- Memórias de Martha — Júlia Lopes de Almeida
- Caminho de pedras — Rachel de Queiroz
- A paixão segundo G. H. — Clarice Lispector
- Geografia — Sophia de Mello Breyner Andresen
- Balada de amor ao vento — Paulina Chiziane
- Canção para ninar menino grande — Conceição Evaristo
- A visão das plantas — Djaimilia Pereira de Almeida
Entre os títulos, chama a atenção Memórias de Martha, romance de Júlia Lopes de Almeida que aborda a pobreza urbana, a educação feminina, o trabalho e as dificuldades enfrentadas por uma jovem moradora de um cortiço. A presença da obra na lista ajuda a explicar o aumento recente das pesquisas pelo livro e o interesse crescente por resumos e análises na internet.
Aqui no A Escola Literária, você já pode conferir a resenha de Memórias de Martha, com uma análise da crítica social presente no romance.
Também merece destaque Opúsculo Humanitário, obra de caráter ensaístico na qual Nísia Floresta discute a educação das mulheres e sua posição na sociedade. A lista de 2027, portanto, não está limitada à narrativa ficcional: inclui ensaio, poesia e romances de diferentes tradições da língua portuguesa.
Leituras obrigatórias da FUVEST 2028
A FUVEST 2028 mantém sete títulos da edição anterior e substitui duas obras. Saem Opúsculo Humanitário e Caminho de pedras; entram Conselhos à minha filha, também de Nísia Floresta, e João Miguel, de Rachel de Queiroz. A relação continua composta apenas por escritoras.
- Conselhos à minha filha — Nísia Floresta
- Nebulosas — Narcisa Amália
- Memórias de Martha — Júlia Lopes de Almeida
- João Miguel — Rachel de Queiroz
- A paixão segundo G. H. — Clarice Lispector
- Geografia — Sophia de Mello Breyner Andresen
- Balada de amor ao vento — Paulina Chiziane
- Canção para ninar menino grande — Conceição Evaristo
- A visão das plantas — Djaimilia Pereira de Almeida
A troca dos livros de Nísia Floresta e Rachel de Queiroz permite que a banca mantenha as mesmas autoras, mas apresente outros momentos de suas produções. Isso exige atenção dos estudantes, porque não basta conhecer apenas as características gerais de cada escritora: é necessário compreender a estrutura, os temas e a linguagem da obra indicada para aquele ano específico.
Memórias de Martha, A paixão segundo G. H., Balada de amor ao vento e Canção para ninar menino grande permanecem na lista. Dessa maneira, materiais preparados para a FUVEST 2027 ainda terão utilidade para quem realizará o vestibular de 2028.
Leituras obrigatórias da FUVEST 2029
A lista de 2029 marca uma nova mudança. Depois de três edições com relações compostas exclusivamente por mulheres, autores homens voltam a aparecer entre as leituras obrigatórias. Entram Machado de Assis, Luís Bernardo Honwana e Érico Veríssimo.
- Conselhos à minha filha — Nísia Floresta
- Nebulosas — Narcisa Amália
- Dom Casmurro — Machado de Assis
- João Miguel — Rachel de Queiroz
- Nós matamos o cão tinhoso! — Luís Bernardo Honwana
- Geografia — Sophia de Mello Breyner Andresen
- Incidente em Antares — Érico Veríssimo
- Canção para ninar menino grande — Conceição Evaristo
- A visão das plantas — Djaimilia Pereira de Almeida
A entrada de Dom Casmurro representa a volta de um dos romances mais conhecidos de Machado de Assis. A obra possibilita questões sobre narrador não confiável, memória, ciúme, construção das personagens e ambiguidade. Mais do que perguntar se Capitu traiu ou não Bentinho, a FUVEST pode cobrar a maneira como o narrador constrói seu relato e tenta convencer o leitor de sua versão dos acontecimentos.
Outro destaque é Incidente em Antares, romance de Érico Veríssimo que combina crítica política, elementos fantásticos e sátira social. Na narrativa, um grupo de mortos se levanta durante uma greve de coveiros e passa a revelar os segredos e as hipocrisias da cidade. Segundo a FUVEST, a presença dessa obra também introduz a literatura fantástica como uma novidade dentro do conjunto anunciado para aquele ciclo.
Já Nós matamos o cão tinhoso!, do escritor moçambicano Luís Bernardo Honwana, amplia a presença das literaturas africanas de língua portuguesa. Seus contos permitem discutir colonialismo, violência, racismo e desigualdade.
Leituras obrigatórias da FUVEST 2030 e 2031
Os vestibulares de 2030 e 2031 compartilharão a mesma lista de nove títulos. Nessa etapa, a FUVEST amplia a diversidade de gêneros literários, incluindo contos, poesia, teatro, romance, produção indígena e uma graphic novel.
- Laços de família — Clarice Lispector
- Originárias: uma antologia feminina de literatura indígena — organização de Trudruá Dorrico e Maurício Negro
- A moratória — Jorge Andrade
- Uma faca só lâmina — João Cabral de Melo Neto
- Beco do Rosário — Ana Luiza Koehler
- Esaú e Jacó — Machado de Assis
- Memorial do convento — José Saramago
- A ilha fantástica — Germano Almeida
- Quarto de despejo — Carolina Maria de Jesus
Uma das escolhas mais inesperadas é Esaú e Jacó, romance de Machado de Assis que costuma receber menos atenção do que Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba. A obra apresenta a rivalidade entre os irmãos gêmeos Pedro e Paulo, associados a posições políticas opostas no período de transição entre o Império e a República.
Apesar das diferenças ideológicas, os irmãos se parecem muito mais do que gostariam de admitir. Machado utiliza essa rivalidade para representar uma sociedade dividida por discursos políticos que, muitas vezes, escondem interesses e comportamentos semelhantes. Flora, amada pelos dois irmãos, ocupa o centro desse conflito e reforça a impossibilidade de conciliação.
Outra presença importante é Quarto de despejo, diário de Carolina Maria de Jesus que registra o cotidiano da autora na favela do Canindé, em São Paulo. A obra apresenta a pobreza, a fome, o preconceito, a maternidade e a luta pela sobrevivência a partir do olhar de quem vive diretamente essa realidade.
A lista também inclui Beco do Rosário, de Ana Luiza Koehler, primeira graphic novel escolhida para as leituras obrigatórias da FUVEST. A presença da narrativa gráfica indica que o candidato deverá estar preparado para interpretar não apenas o texto verbal, mas também imagens, enquadramentos, cores, sequências e relações entre palavra e ilustração.
Já Originárias marca a inclusão de autores indígenas nas listas futuras, enquanto A moratória, de Jorge Andrade, representa o retorno do texto teatral.
Leituras obrigatórias da FUVEST 2032 e 2033
As edições de 2032 e 2033 também terão uma lista comum, formada por nove obras. Quatro títulos permanecem do ciclo anterior: Laços de família, Uma faca só lâmina, Beco do Rosário e Esaú e Jacó.
- Laços de família — Clarice Lispector
- Orfeu da Conceição — Vinicius de Moraes
- Uma faca só lâmina — João Cabral de Melo Neto
- Beco do Rosário — Ana Luiza Koehler
- Úrsula — Maria Firmina dos Reis
- Esaú e Jacó — Machado de Assis
- O plantador de abóboras — Luís Cardoso
- Casa de família — Paula Fábrio
- Fantasmas — Daniel Munduruku
A entrada de Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, recupera uma obra fundamental do Romantismo brasileiro. Publicado originalmente em 1859, o romance apresenta uma perspectiva antiescravista e concede humanidade e voz a personagens negros, diferenciando-se de muitas representações produzidas no mesmo período.
Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes, retoma o mito grego de Orfeu e Eurídice, transferindo-o para o contexto de uma comunidade do Rio de Janeiro. A obra ainda se relaciona diretamente com a música e com o teatro, permitindo questões sobre intertextualidade, adaptação e transformação de narrativas clássicas.
A lista também inclui Fantasmas, de Daniel Munduruku, reforçando a presença da literatura indígena. Já O plantador de abóboras, do escritor timorense Luís Cardoso, representa, segundo a FUVEST, a primeira inclusão da literatura asiática entre as leituras obrigatórias do vestibular.
O que muda nas novas listas da FUVEST?
As relações divulgadas até 2033 mostram que a FUVEST pretende trabalhar com uma noção mais ampla de literatura. O romance continua importante, mas passa a conviver com poesia, contos, ensaios, teatro, diários, antologias e narrativas gráficas.
Também se percebe uma ampliação geográfica e cultural. As listas incluem obras do Brasil, de Portugal, de Moçambique, de Angola, de Cabo Verde e de Timor-Leste, além da produção de autores indígenas. Essa diversidade exige que o estudante compreenda os diferentes contextos históricos e sociais relacionados às obras.
A presença de livros menos conhecidos também modifica a preparação. Em muitos casos, haverá menos videoaulas, resumos e análises disponíveis do que para clássicos como Dom Casmurro. Por isso, quem começar a produzir ou estudar esses materiais antecipadamente poderá chegar aos próximos vestibulares com uma vantagem considerável.
Como estudar as leituras obrigatórias da FUVEST?
A leitura integral deve ser o ponto de partida. Resumos e análises ajudam na revisão, mas não substituem o contato com a linguagem, a estrutura e os detalhes da obra. A FUVEST pode selecionar um trecho específico e pedir que o candidato o relacione ao conjunto do livro, ao contexto histórico ou a outra leitura da lista.
Durante o estudo, é importante registrar:
- o enredo e os principais conflitos;
- as características das personagens;
- o tipo de narrador;
- o tempo e o espaço da narrativa;
- os temas centrais;
- as características da linguagem;
- o contexto histórico e literário;
- as relações entre diferentes obras da lista.
Também vale observar diálogos entre os títulos. A banca pode aproximar obras de épocas distintas a partir de temas como pobreza, desigualdade, condição feminina, violência, memória, identidade, relações familiares, colonialismo e conflitos políticos.
Vale a pena começar a estudar com antecedência?
Para quem prestará a FUVEST 2027, o foco deve estar imediatamente nas nove obras correspondentes à edição. Já os estudantes mais novos podem aproveitar a divulgação antecipada para construir uma formação literária gradual, sem deixar todas as leituras para o último ano do ensino médio.
Professores e escolas também podem distribuir os livros ao longo das diferentes séries. Obras que permanecerão em mais de uma edição, como Esaú e Jacó, Laços de família, Uma faca só lâmina e Beco do Rosário, oferecem uma oportunidade especialmente interessante para projetos de leitura de longo prazo.
A antecipação das listas até 2033 não significa que o estudante precise ler tudo de uma vez. Ela oferece, acima de tudo, a possibilidade de planejar. Ler com tempo permite compreender melhor as obras, fazer anotações, comparar interpretações e retomar os pontos mais difíceis antes da prova.
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