Olá, amigos e alunos do blog A Escola Literária!
Depois de conhecermos os narradores inquietantes de Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, nossa série de resumos completos chega a uma obra em que o protagonista não é apenas uma pessoa. Em O Cortiço, de Aluísio Azevedo, o espaço coletivo parece nascer, crescer, despertar, agitar-se e transformar todos aqueles que vivem dentro dele.
Publicado em 1890, o romance acompanha a ascensão econômica de João Romão, comerciante português que constrói uma habitação popular no Rio de Janeiro e acumula riqueza por meio da exploração do trabalho alheio. Paralelamente, o livro apresenta as histórias de dezenas de moradores submetidos à pobreza, à violência, ao preconceito e às condições precárias de vida. Entre essas trajetórias, destacam-se a de Bertoleza, mulher escravizada enganada pelo companheiro; a de Jerônimo, trabalhador português transformado pelo ambiente; a de Rita Baiana, figura associada à sensualidade e à cultura brasileira; e a de Pombinha, jovem cuja vida sofre uma mudança radical.
Mais do que contar histórias individuais, Aluísio Azevedo procura demonstrar como o meio social, as condições materiais, os impulsos e as relações econômicas influenciam o comportamento humano. Por isso, O Cortiço é uma das obras mais representativas do Naturalismo brasileiro e continua sendo frequentemente estudado em escolas, universidades, no ENEM e nos principais vestibulares.
Aviso de spoilers
Este artigo apresenta toda a narrativa de O Cortiço, incluindo os conflitos entre Jerônimo e Firmo, as transformações de Pombinha e Piedade, a ascensão social de João Romão e o final trágico de Bertoleza. Caso você ainda pretenda realizar uma primeira leitura sem conhecer o desfecho, recomendamos que retorne a este conteúdo depois de concluir o livro.
Ficha da obra
Título: O Cortiço
Autor: Aluísio Azevedo
Primeira publicação: 1890
Gênero: romance
Movimento literário: Naturalismo
Estrutura: 23 capítulos
Narrador: narrador onisciente em terceira pessoa
Tempo narrativo: predominantemente cronológico
Tempo histórico: segunda metade do século XIX, antes da Abolição da Escravatura
Espaço principal: um cortiço localizado em Botafogo, no Rio de Janeiro
Personagem coletivo: o próprio cortiço
Temas principais: exploração econômica, escravidão, desigualdade social, ambição, sexualidade, violência, racismo, imigração, influência do meio e ascensão social
O romance foi publicado em 1890 e tornou-se a obra mais conhecida de Aluísio Azevedo. A narrativa se passa em uma habitação coletiva carioca e apresenta características fundamentais do Naturalismo, como determinismo, zoomorfização, destaque para os impulsos corporais e observação das condições de vida das camadas populares.
Contexto histórico e literário
O Cortiço foi publicado apenas dois anos depois da Abolição da Escravatura, ocorrida em 1888, e um ano depois da Proclamação da República, em 1889. Apesar disso, a história se passa antes da abolição e apresenta uma sociedade ainda organizada por relações escravistas, desigualdades raciais e mecanismos de exploração extremamente violentos.
O Brasil do período atravessava uma transição econômica. A escravidão ainda sustentava parte significativa da produção e da riqueza, mas as relações capitalistas avançavam nas cidades. João Romão representa justamente esse capitalismo nascente: não pertence inicialmente à elite tradicional, mas enriquece acumulando propriedades, cobrando aluguéis, explorando trabalhadores, praticando pequenos furtos e utilizando o trabalho de Bertoleza sem remunerá-la.
O crescimento urbano do Rio de Janeiro também contribuiu para o surgimento de habitações coletivas destinadas à população pobre. Trabalhadores, imigrantes, pessoas negras libertas ou escravizadas e famílias de baixa renda dividiam espaços pequenos, com pouca higiene e infraestrutura precária. No romance, o cortiço reúne moradores de diferentes origens e transforma-se em uma representação concentrada das tensões sociais da cidade.
O Naturalismo surgiu no final do século XIX sob forte influência das teorias científicas e filosóficas daquele período. Os escritores naturalistas procuravam observar o ser humano quase como um objeto de estudo, enfatizando a influência do ambiente, da hereditariedade e do momento histórico. Essa perspectiva recebe o nome de determinismo.
É necessário, contudo, realizar uma leitura crítica dessas teorias. Parte do pensamento científico do século XIX estava marcada pelo racismo, pelo sexismo e pela tentativa de estabelecer hierarquias entre povos e grupos sociais. Algumas descrições presentes em O Cortiço reproduzem essas ideias. Em vez de aceitá-las como verdades, o leitor contemporâneo deve compreender o contexto em que foram produzidas e analisar como a obra representa os preconceitos de sua época. O próprio material crítico sobre o romance reconhece tanto seu caráter determinista quanto a presença de visões racistas e homofóbicas associadas ao pensamento naturalista daquele período.
Os personagens principais
João Romão
João Romão é um comerciante português extremamente ambicioso. No início, possui uma pequena venda, mas gradualmente se torna proprietário de uma pedreira, de terras e do cortiço de São Romão. Economiza obsessivamente, explora empregados, engana clientes e utiliza qualquer oportunidade para aumentar seu patrimônio.
Sua transformação é uma das linhas centrais do romance. Inicialmente, deseja apenas enriquecer. Depois de perceber que o vizinho Miranda possui título, prestígio e acesso à alta sociedade, passa a desejar também reconhecimento social. Para isso, modifica a aparência, os hábitos, os negócios e até suas relações pessoais.
Bertoleza
Bertoleza é uma mulher negra escravizada que possui uma pequena quitanda e paga mensalmente uma quantia ao homem que a considera sua propriedade. Ao aproximar-se de João Romão, entrega-lhe suas economias para que ele compre sua alforria.
João Romão falsifica um documento de liberdade e faz Bertoleza acreditar que está livre. Na realidade, apropria-se do dinheiro e continua utilizando seu trabalho. Ela cozinha, limpa, vende alimentos, cuida da casa e participa diretamente da construção da riqueza do comerciante, sem receber qualquer parte do patrimônio.
Bertoleza é uma das personagens mais exploradas e violentadas da obra. Sua trajetória revela a relação entre escravidão, racismo, trabalho e acumulação de capital.
Miranda
Miranda é um comerciante português que vive em um sobrado ao lado do cortiço. Já possui riqueza, prestígio social e uma família reconhecida publicamente.
Ele disputa com João Romão uma faixa de terreno e se incomoda com o crescimento da habitação popular ao lado de sua casa. Embora inicialmente seja rival do vendeiro, posteriormente se aproxima dele quando percebe sua ascensão econômica.
Estela
Estela é esposa de Miranda. O casamento dos dois está profundamente desgastado, e Miranda sabe que ela mantém relações extraconjugais. Mesmo assim, evita a separação porque parte de sua fortuna está ligada ao patrimônio da esposa.
A relação entre os dois demonstra que o casamento burguês não é apresentado como resultado do amor, mas como um acordo sustentado por dinheiro, conveniência e aparência social.
Zulmira
Zulmira é filha de Miranda e Estela. Ao final do romance, transforma-se em uma peça importante nos planos de ascensão social de João Romão, que pretende casar-se com ela e ingressar definitivamente no universo da elite.
Botelho
Botelho é um homem velho e empobrecido que vive como agregado na casa de Miranda. Observador, interesseiro e socialmente dependente, acompanha as relações da família e atua como intermediário na aproximação entre João Romão e Zulmira.
Jerônimo
Jerônimo é um imigrante português contratado para trabalhar na pedreira de João Romão. No início, apresenta-se como homem disciplinado, forte, econômico, responsável e dedicado à esposa.
Sua chegada melhora a produtividade da pedreira. Entretanto, depois de se instalar no cortiço e conhecer Rita Baiana, passa por uma transformação radical. Abandona hábitos portugueses, torna-se mais impulsivo, envolve-se em festas, deixa a esposa e participa do assassinato de Firmo.
Piedade
Piedade é esposa de Jerônimo e também portuguesa. No início, vive em uma relação estável e demonstra dedicação ao marido e à filha.
Depois de ser abandonada, entra em um processo de decadência. Entrega-se ao álcool, perde a estabilidade emocional e social e representa uma das consequências mais dolorosas da transformação de Jerônimo.
Rita Baiana
Rita Baiana é uma moradora alegre, independente, sensual e muito admirada no cortiço. Organiza festas, canta, dança e exerce forte atração sobre os homens.
No início, mantém uma relação com Firmo. Posteriormente, envolve-se com Jerônimo. Na lógica naturalista do romance, Rita é frequentemente associada ao calor, ao corpo, à música e à própria representação do Brasil tropical.
A palavra “mulata”, utilizada repetidamente pelo narrador original para caracterizá-la, pertence a uma tradição racializada do século XIX. Ao estudar a obra hoje, é importante observar criticamente como a personagem é construída por meio de estereótipos ligados à raça e à sexualidade.
Firmo
Firmo é um capoeirista que mantém uma relação com Rita Baiana. Habilidoso, vaidoso e violento, percebe o interesse de Jerônimo por ela e enfrenta o português durante uma festa.
Depois de ferir Jerônimo gravemente com uma navalha, torna-se alvo de vingança. Mais tarde, é atraído para uma emboscada e assassinado.
Pombinha
Pombinha é uma jovem alfabetizada, delicada e considerada diferente das demais moradoras. Como sabe ler e escrever, ajuda os vizinhos a redigir cartas e documentos.
Sua mãe, Dona Isabel, deposita nela a esperança de ascensão social. Pombinha está prometida a João da Costa, mas o casamento só poderá ocorrer depois de sua primeira menstruação.
Após uma experiência sexual com Léonie, Pombinha menstrua, casa-se e posteriormente abandona o marido. Mais tarde, torna-se uma cortesã e passa a reproduzir sobre outras jovens o mesmo processo de iniciação que viveu.
Léonie
Léonie é uma cortesã francesa que circula entre o cortiço e os espaços mais ricos da cidade. Possui dinheiro, roupas elegantes e maior liberdade do que as outras mulheres.
Ela é madrinha de Jujú e mantém uma relação próxima com Dona Isabel e Pombinha. Durante uma visita, envolve Pombinha em uma experiência sexual que modifica profundamente a trajetória da jovem.
A cena deve ser analisada com atenção, pois existe uma evidente diferença de idade, experiência e poder entre as duas personagens. Embora o narrador naturalista associe o episódio ao despertar sexual de Pombinha, uma leitura contemporânea também pode identificar nessa relação uma forma de manipulação.
Dona Isabel
Dona Isabel é mãe de Pombinha. Empobrecida, acredita que o casamento da filha poderá devolver à família uma posição social respeitável.
Sua dedicação a Pombinha revela tanto o amor materno quanto a falta de alternativas oferecidas às mulheres pobres. O casamento aparece como praticamente o único caminho possível de estabilidade.
João da Costa
João da Costa é o noivo e depois marido de Pombinha. O casamento, porém, não alcança a estabilidade esperada por Dona Isabel. Pombinha abandona o marido e segue outro caminho.
Leocádia e Bruno
Leocádia é uma mulher portuguesa casada com Bruno, ferreiro do cortiço. Ela mantém um encontro sexual com Henrique, jovem hospedado no sobrado de Miranda, esperando engravidar para conseguir trabalho como ama de leite.
Quando Bruno descobre a situação, reage violentamente e a expulsa. O episódio mostra como a miséria econômica interfere até mesmo nas decisões relacionadas ao corpo e à maternidade.
Paula, a Bruxa
Paula é uma mulher idosa respeitada pelos moradores por suas rezas, bênçãos e conhecimentos populares. É conhecida como Bruxa.
Perturbada psicologicamente, possui o desejo recorrente de ver o cortiço em chamas. Durante um conflito, provoca o incêndio que destrói parte da habitação.
Libório
Libório é um velho miserável que vive pedindo comida e fingindo não possuir recursos. Durante o incêndio, descobre-se que escondia dinheiro.
Sua trajetória reforça a visão naturalista de uma comunidade dominada pela luta pela sobrevivência e pelo apego aos bens materiais.
O cortiço
Embora seja um espaço, o cortiço pode ser considerado a principal personagem coletiva do romance. Aluísio Azevedo o descreve como um organismo vivo que nasce, cresce, acorda, movimenta-se, reproduz-se e sofre transformações.
As ações individuais acontecem dentro desse corpo coletivo. O ambiente influencia comportamentos e reúne as diferentes trajetórias em uma mesma dinâmica social.
O início da ascensão de João Romão
João Romão começa sua trajetória como empregado de um comerciante português. Ao receber a venda e uma quantia em dinheiro como pagamento pelos salários acumulados, passa a administrar o próprio negócio.
Sua vida é orientada por uma obsessão: acumular riqueza. Ele trabalha intensamente, economiza tudo o que pode, alimenta-se de maneira precária e evita qualquer gasto que não contribua para o aumento do patrimônio.
O esforço, contudo, não é a única origem de sua fortuna. João Romão também engana clientes, pratica pequenos furtos, apropria-se de materiais e explora pessoas em situação de vulnerabilidade. Sua ascensão não representa o sucesso honesto de um trabalhador, mas o crescimento de um capitalista que transforma todos ao redor em instrumentos de enriquecimento.
Bertoleza e a falsa liberdade
Bertoleza trabalha em uma quitanda, vendendo alimentos, e paga mensalmente uma quantia ao homem que a mantém escravizada. Mesmo submetida a essa cobrança, consegue guardar algum dinheiro com o objetivo de comprar a própria liberdade.
Depois da morte de seu companheiro, aproxima-se de João Romão. Ela confia ao comerciante suas economias e acredita que ele negociará a alforria.
João Romão prepara uma carta falsa e afirma que Bertoleza está livre. Em vez de entregar o dinheiro ao proprietário, fica com a quantia. A partir desse momento, passa a viver com ela e a utilizar intensamente seu trabalho.
Bertoleza acorda cedo, cozinha, limpa, vende, carrega objetos e participa de praticamente todas as atividades do comércio. João Romão apropria-se tanto de seu dinheiro quanto de sua força física.
A falsa alforria possui importância central. Bertoleza acredita ter escapado da escravidão, mas continua submetida a uma relação de exploração. João Romão apresenta-se como companheiro, embora na prática a trate como trabalhadora sem salário e como parte de suas propriedades.
A compra de terras e o nascimento do cortiço
Com o dinheiro acumulado, João Romão amplia seus negócios. Adquire terrenos, apropria-se de materiais e constrói pequenas casas para alugar.
A habitação cresce rapidamente. Novos moradores chegam, atraídos pelo preço e pela proximidade do trabalho. Lavadeiras, vendedores, operários, imigrantes, pessoas negras e famílias pobres passam a ocupar os quartos.
O comerciante lucra de diferentes maneiras. Recebe os aluguéis, vende alimentos aos moradores e emprega parte deles em sua pedreira. Assim, o dinheiro pago aos trabalhadores retorna para seus próprios negócios.
O cortiço torna-se uma máquina de enriquecimento. João Romão controla a moradia, o trabalho e o consumo de grande parte da comunidade.
A descrição do despertar da habitação é uma das passagens mais conhecidas da obra. Pela manhã, portas se abrem, pessoas circulam, crianças choram, trabalhadores saem e lavadeiras iniciam suas atividades. O espaço parece respirar e despertar como um animal coletivo.
Essa personificação confirma que o cortiço não funciona apenas como cenário. Ele interfere na narrativa, reúne as personagens e materializa as condições sociais que determinam suas vidas.
O sobrado de Miranda
Ao lado do cortiço está o sobrado de Miranda. A proximidade entre as duas construções estabelece uma oposição social visível.
O sobrado representa a riqueza estabelecida, a família burguesa, o prestígio e as aparências. O cortiço representa o trabalho braçal, a pobreza, a aglomeração e a instabilidade.
Miranda inicialmente entra em conflito com João Romão por causa de uma faixa de terreno. Também se incomoda com o barulho, a movimentação e o crescimento da habitação popular.
Apesar de viver em uma casa confortável, Miranda não é feliz. Seu casamento com Estela é marcado pelo ressentimento e pela infidelidade. Ele sabe que a esposa mantém outros relacionamentos, mas evita separar-se porque isso colocaria em risco os bens ligados ao matrimônio.
O contraste revela que a miséria não está apenas no cortiço. No sobrado existem dinheiro e aparência, mas também traições, interesses e relações degradadas.
A inveja entre João Romão e Miranda
João Romão e Miranda representam duas formas de poder. O primeiro possui cada vez mais dinheiro, mas não tem prestígio social. O segundo já pertence ao mundo burguês, frequenta ambientes reconhecidos e possui uma família considerada respeitável.
João Romão inicialmente despreza os luxos do vizinho. Considera inúteis as roupas elegantes, os móveis e os gastos sociais. Entretanto, sente inveja do reconhecimento recebido por Miranda.
Miranda, por sua vez, observa com desconforto a rapidez com que o vendeiro acumula propriedades. Embora se considere socialmente superior, percebe que João Romão pode tornar-se mais rico.
A rivalidade se intensifica quando Miranda recebe o título de barão. João Romão compreende que possuir dinheiro não é suficiente. Para ser aceito pela elite, precisará mudar sua aparência, seus hábitos e suas relações.
Os moradores e a vida coletiva
O romance apresenta um grande número de personagens, muitas vezes organizadas por famílias, profissões ou comportamentos. As lavadeiras ocupam posição importante, pois trabalham juntas e participam ativamente da circulação de notícias.
As fofocas, discussões, festas, brigas e reconciliações atravessam rapidamente o espaço. A privacidade é limitada. Todos observam a vida dos vizinhos e participam, de alguma maneira, dos acontecimentos.
As crianças crescem nas áreas comuns, os animais circulam, os comerciantes vendem produtos e os trabalhadores retornam da pedreira. A habitação possui ritmos próprios, determinados pelo trabalho e pelos momentos de descanso.
Aluísio Azevedo descreve esses movimentos com grande atenção aos corpos, aos sons, aos cheiros e às atividades materiais. Essa linguagem sensorial é uma das principais características da estética naturalista.
A chegada de Jerônimo e Piedade
João Romão precisa aumentar a produtividade da pedreira e contrata Jerônimo, trabalhador português reconhecido por sua força e disciplina.
Jerônimo chega acompanhado de Piedade. Os dois formam um casal aparentemente estável. Ele trabalha com seriedade, evita desperdícios e mantém hábitos ligados à cultura portuguesa.
Sua presença transforma a pedreira. Os trabalhadores passam a seguir um ritmo mais organizado, e a produção aumenta.
Nesse primeiro momento, Jerônimo representa a disciplina, a estabilidade familiar e o trabalho regular. O romance, entretanto, utilizará sua trajetória para demonstrar a tese naturalista de que o ambiente pode transformar profundamente um indivíduo.
O retorno de Rita Baiana
Depois de passar algum tempo fora, Rita Baiana retorna ao cortiço. Sua chegada provoca grande animação entre os moradores.
Rita é associada à música, à dança, ao calor e ao movimento corporal. Ela organiza festas e atrai a atenção de toda a comunidade.
Jerônimo fica fascinado. A princípio, observa-a com curiosidade, mas gradualmente modifica seus hábitos. Passa a apreciar comidas, bebidas, músicas e comportamentos que anteriormente não faziam parte de sua rotina.
Na lógica determinista do romance, a atração por Rita representa também a influência do ambiente tropical sobre o imigrante europeu. Jerônimo abandona progressivamente a disciplina associada à origem portuguesa e adota uma vida mais impulsiva.
Essa representação deve ser lida criticamente. A oposição entre o português disciplinado e o brasileiro sensual reproduz estereótipos raciais e culturais do século XIX. Ao mesmo tempo, ela ajuda a compreender o projeto naturalista de Aluísio Azevedo.
Rita Baiana e Firmo
Rita mantém uma relação com Firmo, capoeirista conhecido por sua habilidade e por seu comportamento provocador.
Ela não deseja casamento e valoriza a própria liberdade. Para Rita, a formalização da união poderia representar perda de autonomia. Sua relação com Firmo é marcada pela atração, mas não por um projeto familiar semelhante ao de Jerônimo e Piedade.
Firmo percebe o interesse crescente do português e sente ciúme. A rivalidade entre os dois homens combina disputa amorosa, orgulho e competição física.
O conflito se torna inevitável quando Rita demonstra proximidade com Jerônimo durante uma festa.
A festa no cortiço
As festas ocupam papel importante na narrativa. Música, dança, comida e bebida alteram o ritmo do espaço e aproximam os moradores.
Durante um pagode, Rita dança e exerce forte atração sobre Jerônimo. A cena é construída por meio de imagens corporais e sensoriais.
Firmo acompanha a aproximação com irritação. Quando Rita se inclina sobre Jerônimo e conversa com ele de maneira íntima, o capoeirista reage.
Os dois iniciam uma briga. Jerônimo confia na força física e nos golpes diretos. Firmo utiliza agilidade, movimentos de capoeira e uma navalha.
Jerônimo consegue atingi-lo com um pedaço de madeira, mas Firmo corta gravemente o ventre do adversário e foge. O português precisa ser levado para receber tratamento.
A transformação de Jerônimo
Depois de ser ferido, Jerônimo não retorna ao comportamento anterior. Seu desejo por Rita torna-se ainda mais intenso, e o conflito com Firmo assume caráter de vingança.
Piedade percebe que está perdendo o marido. O homem disciplinado e dedicado à família passa a gastar dinheiro, beber, participar de festas e agir violentamente.
A mudança não é explicada por uma decisão isolada. O narrador naturalista relaciona o comportamento de Jerônimo ao ambiente, ao clima, à música, ao desejo e à convivência no cortiço.
O personagem parece sofrer uma espécie de “abrasileiramento”, segundo a visão estereotipada construída pelo romance. Sua transformação confirma a tese de que o meio seria capaz de modificar hábitos e valores.
Leocádia, Henrique e a violência de Bruno
Henrique é um jovem rico hospedado na casa de Miranda. Apesar de ocupar o sobrado, mantém contato com pessoas do cortiço.
Leocádia encontra-se secretamente com ele. A mulher espera engravidar para poder trabalhar como ama de leite, atividade que naquele contexto poderia garantir melhor remuneração.
O episódio mostra a forma extrema como a pobreza determina escolhas. Leocádia transforma a própria possibilidade de maternidade em uma estratégia de sobrevivência.
Quando Bruno encontra a esposa com Henrique, agride-a violentamente. O jovem consegue fugir, enquanto Leocádia sofre as consequências.
A diferença social é evidente: Henrique retorna protegido ao sobrado; Leocádia enfrenta a violência do marido e o julgamento da comunidade.
Pombinha e a esperança de ascensão
Pombinha ocupa uma posição especial entre os moradores. Ela sabe ler e escrever e, por isso, torna-se responsável por cartas, pedidos e mensagens dos vizinhos.
Sua alfabetização oferece a ela uma forma de poder. Por meio das cartas, conhece os conflitos amorosos, familiares e econômicos da comunidade.
Dona Isabel deseja que a filha se case com João da Costa. O casamento, entretanto, é adiado porque Pombinha ainda não teve a primeira menstruação.
A expectativa em torno do corpo da jovem demonstra como a identidade feminina estava vinculada ao casamento, à sexualidade e à maternidade. Sua passagem para a vida adulta é tratada como requisito para o futuro familiar.
O encontro entre Pombinha e Léonie
Dona Isabel e Pombinha visitam Léonie. Depois da refeição, enquanto a mãe dorme, a cortesã aproxima-se sexualmente da jovem.
O episódio representa um momento decisivo. Pombinha entra em contato com uma experiência diferente da educação moral recebida da mãe e da vida que lhe fora planejada.
No dia seguinte, tem sua primeira menstruação. O narrador naturalista aproxima a experiência sexual do despertar biológico, como se ambas fizessem parte de uma transformação corporal inevitável.
Essa associação revela o interesse naturalista pelo corpo e pela sexualidade. Entretanto, uma leitura atual deve questionar as condições desse encontro e a diferença de poder entre a jovem inexperiente e a mulher adulta.
Pouco depois, Pombinha finalmente se casa com João da Costa. O casamento, porém, não produzirá o futuro estável imaginado por Dona Isabel.
A emboscada contra Firmo
Depois de sair do hospital, Jerônimo decide matar Firmo. Em vez de enfrentá-lo novamente de maneira aberta, organiza uma emboscada.
Ele paga Pataca e Zé Carlos para ajudá-lo. Os homens localizam Firmo, provocam-no e o conduzem para um lugar onde podem atacá-lo.
Firmo tenta reagir, mas está em desvantagem. É espancado e morto violentamente. O assassinato encerra a disputa amorosa e permite que Jerônimo fique com Rita.
A passagem marca a transformação completa do português. O trabalhador disciplinado torna-se adúltero e assassino.
Na perspectiva naturalista, o meio e os impulsos teriam vencido a razão. Entretanto, o assassinato também revela uma escolha moral e a utilização do dinheiro para contratar a violência.
Jerônimo abandona Piedade e passa a viver com Rita.
A rivalidade com o Cabeça-de-Gato
O cortiço de São Romão possui um rival conhecido como Cabeça-de-Gato. As duas comunidades mantêm uma relação de hostilidade.
Firmo possuía ligações com os moradores do cortiço rival. Quando sua morte se torna conhecida, um grupo decide vingar o assassinato.
Os homens do Cabeça-de-Gato avançam contra o cortiço de João Romão. Os moradores se armam com pedaços de madeira, ferramentas, pedras e objetos disponíveis.
A briga transforma o espaço em um campo de batalha. O sentimento coletivo supera temporariamente as diferenças internas. Pessoas que discutiam entre si unem-se para defender a habitação.
O cortiço aparece novamente como um organismo. Quando ameaçado por outro grupo, reage como um corpo coletivo.
O incêndio
Durante a confusão, Paula, a Bruxa, coloca fogo no cortiço. Ela alimentava havia algum tempo o desejo de ver o lugar queimando.
As chamas se espalham rapidamente entre as casas construídas com materiais frágeis. Os moradores tentam salvar crianças, objetos, móveis e animais.
O incêndio destrói dezenas de habitações e provoca desespero. A precariedade da construção facilita a propagação do fogo.
João Romão inicialmente teme perder o patrimônio, mas logo percebe que a destruição pode tornar-se uma oportunidade. O incêndio permitirá reconstruir a habitação, aumentar o número de quartos e elevar os aluguéis.
A tragédia coletiva converte-se em novo instrumento de lucro.
O dinheiro escondido de Libório
Durante o incêndio, o velho Libório tenta salvar um recipiente no qual escondia dinheiro.
Ele sempre se apresentava como completamente miserável, pedia comida e recolhia restos. A descoberta demonstra que guardava recursos enquanto vivia como mendigo.
João Romão percebe a existência do dinheiro e se apropria dele em meio à confusão.
O episódio reforça sua ausência de limites morais. Mesmo durante um incêndio que ameaça vidas e moradias, o comerciante consegue transformar a situação em oportunidade de enriquecimento.
A reconstrução do cortiço
Depois do incêndio, João Romão reconstrói a habitação. O novo espaço torna-se maior, mais organizado e mais rentável.
Gradualmente, o antigo cortiço recebe uma aparência diferente e passa a ser chamado de Vila João Romão ou Avenida São Romão, dependendo da edição e da interpretação do processo de transformação.
A mudança não representa necessariamente melhoria para os moradores mais pobres. O aumento dos aluguéis e a reorganização do espaço afastam parte da população anterior.
João Romão adapta o negócio ao novo projeto social. O cortiço miserável que lhe permitiu acumular capital transforma-se em uma propriedade mais respeitável e compatível com sua imagem burguesa.
Assim como seu proprietário, o espaço troca de aparência sem abandonar a lógica da exploração.
A decadência de Piedade
Abandonada por Jerônimo, Piedade entra em profunda crise. Ela perde o companheiro, a estabilidade familiar e o projeto de vida que mantinha desde Portugal.
A dor transforma-se em ressentimento e alcoolismo. A personagem passa a beber com frequência e deixa de conservar os hábitos anteriores.
Sua decadência funciona como contraponto à relação de Jerônimo e Rita. Enquanto os amantes vivem o entusiasmo da nova união, Piedade sofre as consequências materiais e emocionais do abandono.
A filha do casal também é afetada. A destruição da família demonstra que a transformação de Jerônimo não atinge apenas sua própria vida.
A trajetória de Piedade é um dos exemplos mais evidentes do caráter determinista e pessimista da obra. Depois de perder sua estrutura familiar, ela não encontra recursos sociais ou emocionais capazes de reconstruir a existência.
A transformação de Pombinha
O casamento de Pombinha com João da Costa dura pouco. Depois de algum tempo, ela abandona o marido.
A jovem aproxima-se novamente de Léonie e torna-se cortesã. Passa a frequentar outros espaços, vestir-se de maneira elegante e alcançar uma independência financeira que não teria no casamento.
Sua transformação pode ser analisada de diferentes perspectivas. Na visão moralista de algumas personagens, representa decadência. Na lógica naturalista, confirma o domínio da sexualidade e do meio.
Entretanto, Pombinha também conquista uma forma de autonomia econômica. Ela passa a sustentar a mãe e deixa de depender do marido.
Essa liberdade, porém, não rompe completamente o ciclo de exploração. Pombinha passa a iniciar outras jovens no mesmo universo, reproduzindo a influência que Léonie exerceu sobre ela.
João Romão deseja tornar-se burguês
O título de barão recebido por Miranda provoca uma mudança decisiva em João Romão. Ele percebe que riqueza sem prestígio não lhe garante entrada na elite.
O comerciante começa a modificar a própria imagem. Compra roupas melhores, melhora a alimentação, passa a frequentar ambientes sociais e abandona alguns hábitos considerados grosseiros.
Seus negócios também se transformam. A venda adquire aparência mais organizada, o cortiço é reconstruído e seu nome passa a circular entre pessoas influentes.
João Romão aproxima-se de Miranda e de Botelho. A antiga rivalidade cede lugar a uma relação baseada em interesses.
O passo seguinte é o casamento com Zulmira. A união permitiria combinar a fortuna de João Romão com o prestígio da família de Miranda.
Mais uma vez, o casamento aparece como negócio social, e não como resultado do amor.
Bertoleza torna-se um obstáculo
Durante anos, Bertoleza foi indispensável para o enriquecimento de João Romão. Seu dinheiro, seu trabalho e sua dedicação ajudaram a construir os negócios.
Quando o comerciante deseja casar-se com Zulmira, porém, passa a considerá-la um problema. Uma mulher negra, escravizada e envelhecida não combina com a imagem burguesa que pretende construir.
João Romão começa a afastar-se. Bertoleza percebe as mudanças e compreende que está sendo descartada.
Ela exige participar do patrimônio acumulado. Sabe que trabalhou durante anos e que possui direito aos resultados daquela vida construída em conjunto.
João Romão, entretanto, não pretende dividir nada. Depois de utilizá-la como trabalhadora, companheira e fonte de capital, deseja eliminá-la de sua trajetória.
Chega a imaginar diferentes maneiras de resolver o problema. Considera abandoná-la, entregá-la e até sua morte, mas teme as consequências.
O plano contra Bertoleza
Botelho recorda João Romão de que Bertoleza nunca foi legalmente libertada. A carta de alforria havia sido falsificada pelo próprio comerciante.
João Romão entra em contato com os herdeiros do antigo proprietário da mulher. Informa onde ela está e prepara sua captura como escravizada fugitiva.
O plano revela a dimensão completa da traição. Durante anos, Bertoleza acreditou que João Romão havia ajudado em sua liberdade. No final, ele utiliza justamente a mentira da alforria para devolvê-la ao cativeiro.
A escravidão torna-se um mecanismo conveniente para a ascensão social do comerciante. Quando o trabalho de Bertoleza era lucrativo, ele a manteve ao lado. Quando sua presença se tornou inconveniente, recorreu aos antigos proprietários.
O final de Bertoleza
Bertoleza está trabalhando na cozinha e limpando peixes quando chegam representantes da autoridade e um dos herdeiros de seu antigo proprietário.
Ela reconhece imediatamente o homem e compreende o que aconteceu. Percebe que a carta de liberdade era falsa e que João Romão pretende entregá-la.
Diante da possibilidade de retornar à escravidão, Bertoleza segura a faca com que trabalhava. Antes que possam alcançá-la, abre o próprio ventre e morre.
O suicídio é o desfecho trágico de uma vida marcada pela exploração. Bertoleza não encontra proteção na lei, na relação afetiva ou no patrimônio que ajudou a construir.
João Romão se esconde, mas sua preocupação não representa verdadeiro arrependimento. A morte elimina o último obstáculo para seu casamento e para sua entrada na elite. O texto integral confirma que Bertoleza tira a própria vida ao perceber que seria devolvida ao cativeiro.
A chegada da comissão abolicionista
Logo depois da morte de Bertoleza, uma carruagem para diante do estabelecimento. João Romão acredita inicialmente que a nova chegada pode estar relacionada ao suicídio.
Entretanto, os visitantes são membros de uma comissão abolicionista. Vestidos formalmente, chegam para entregar ao comerciante um diploma de sócio benemérito.
A ironia é devastadora. No mesmo instante em que uma mulher negra morre porque João Romão pretende devolvê-la à escravidão, ele recebe uma homenagem pública por sua suposta participação na causa abolicionista.
A cena revela a distância entre aparência e realidade. Socialmente, João Romão pode apresentar-se como cidadão respeitável e defensor da liberdade. Dentro da cozinha, sua riqueza permanece ligada à exploração escravista.
O final também funciona como alegoria de uma sociedade que adota discursos modernos e humanitários sem modificar verdadeiramente suas práticas. A comissão chega para homenagear João Romão enquanto o corpo de Bertoleza ainda representa o preço de sua ascensão.
O desfecho explicado
O final de O Cortiço confirma que João Romão é o principal vencedor material da narrativa. Ele começou como pequeno comerciante e termina rico, socialmente reconhecido e próximo de casar-se com a filha de um barão.
Sua vitória, contudo, foi construída sobre o sofrimento de outras pessoas. Bertoleza forneceu trabalho e dinheiro; os moradores pagaram aluguéis; os operários produziram riqueza na pedreira; Libório perdeu as economias; e o incêndio tornou-se oportunidade de negócio.
João Romão muda de roupas, hábitos e relações, mas não se transforma moralmente. Sua aparência se torna burguesa enquanto seus métodos permanecem baseados na exploração.
Bertoleza, por outro lado, termina sem acesso ao patrimônio que ajudou a criar. Seu suicídio demonstra que a promessa de liberdade era uma fraude.
A chegada dos abolicionistas completa a crítica. A sociedade aceita João Romão porque observa a fachada de respeitabilidade, não a violência escondida atrás dela.
O romance não termina com a punição do explorador. Pelo contrário: aquele que age de maneira mais inescrupulosa alcança seus objetivos. Essa conclusão reforça o pessimismo naturalista e a denúncia de uma estrutura social que recompensa a acumulação de riqueza independentemente dos meios utilizados.
O cortiço como personagem coletivo
Uma das características mais importantes da obra é a transformação do espaço em personagem.
O cortiço nasce a partir das primeiras casas construídas por João Romão. Depois, cresce, recebe moradores, amplia-se e desenvolve uma rotina própria.
O narrador utiliza verbos e imagens que normalmente seriam aplicados a seres vivos. A habitação acorda, movimenta-se, ferve e reage.
Essa personificação não significa que todos os moradores sejam iguais. Cada personagem possui uma história particular. Entretanto, o ambiente aproxima as trajetórias e influencia comportamentos.
Quando há festa, o cortiço inteiro parece participar. Quando ocorre uma briga, a violência se espalha. Quando o Cabeça-de-Gato ataca, os moradores reagem coletivamente. Quando o fogo começa, todo o organismo entra em desespero.
A habitação também se transforma socialmente. Depois do incêndio, torna-se mais organizada e cara. A mudança acompanha a ascensão de João Romão.
Os principais temas da obra
Exploração econômica
João Romão acumula riqueza apropriando-se do trabalho e dos recursos de outras pessoas.
A exploração de Bertoleza é o exemplo mais evidente, mas não é o único. Trabalhadores da pedreira, moradores do cortiço e clientes da venda também participam da construção de seu patrimônio.
Escravidão
A trajetória de Bertoleza demonstra que a escravidão não aparece como elemento secundário. Ela está diretamente ligada à formação da riqueza de João Romão.
A falsa alforria mostra como a liberdade de uma pessoa negra podia ser manipulada por documentos, interesses econômicos e relações de poder.
Ascensão social
João Romão não deseja apenas dinheiro. Quando vê Miranda tornar-se barão, passa a buscar prestígio, reconhecimento e casamento vantajoso.
Sua ascensão exige o apagamento das pessoas e dos hábitos ligados ao passado.
Influência do meio
Jerônimo é o principal exemplo da tese naturalista segundo a qual o ambiente modifica o indivíduo.
Ao viver no cortiço e aproximar-se de Rita, abandona gradualmente a disciplina, a família e o comportamento anterior.
Sexualidade
O desejo aparece como uma força poderosa. Jerônimo abandona Piedade por Rita; Firmo enfrenta o rival; Pombinha transforma-se depois do contato com Léonie; Estela mantém relações extraconjugais; e Leocádia procura engravidar por necessidade econômica.
A sexualidade não é apresentada de forma idealizada, mas ligada ao corpo, aos interesses e às condições sociais.
Violência
Brigas conjugais, disputas entre comunidades, assassinatos e agressões fazem parte do cotidiano.
A violência não surge apenas de personalidades individuais. Está relacionada à pobreza, à desigualdade, ao alcoolismo, ao machismo e à luta por sobrevivência.
Racismo
As personagens negras e mestiças são frequentemente descritas por meio de estereótipos raciais do século XIX.
Ao mesmo tempo, o romance mostra como a sociedade utiliza o trabalho negro e exclui essas pessoas dos benefícios econômicos e sociais.
Imigração
João Romão, Miranda, Jerônimo, Piedade e outras personagens são portugueses.
A obra apresenta diferentes trajetórias de imigração: João Romão busca enriquecimento; Miranda já possui posição burguesa; Jerônimo transforma-se no contato com o ambiente brasileiro; Piedade não consegue adaptar-se depois do abandono.
Aparência e hipocrisia
Miranda mantém um casamento infeliz para preservar os bens. João Romão muda a aparência para entrar na elite. A comissão abolicionista homenageia um homem responsável pela morte de uma mulher escravizada.
A sociedade valoriza títulos, roupas e discursos, mesmo quando escondem relações violentas.
Determinismo em O Cortiço
O determinismo é uma das bases do Naturalismo. De acordo com essa perspectiva, o comportamento seria condicionado por três elementos principais: meio, hereditariedade e momento histórico.
Em O Cortiço, o ambiente exerce influência constante. Jerônimo muda depois de morar na habitação e entrar em contato com Rita. Piedade entra em decadência depois de perder o marido. Pombinha altera sua trajetória após a convivência com Léonie.
O cortiço também parece estimular comportamentos coletivos. O calor, a aglomeração, o barulho, o álcool, a precariedade e a falta de privacidade contribuem para os conflitos.
Essa visão reduz, em alguns momentos, a liberdade das personagens. Elas parecem conduzidas por impulsos e circunstâncias que não conseguem controlar.
Uma leitura contemporânea pode questionar esse determinismo. Condições sociais realmente influenciam o comportamento, mas não tornam as ações inevitáveis. Além disso, a obra recorre a preconceitos raciais e culturais ao associar determinados grupos a instintos ou comportamentos específicos.
Zoomorfização
A zoomorfização ocorre quando pessoas são descritas por meio de características de animais.
Aluísio Azevedo utiliza esse recurso para representar movimentos coletivos, desejos, agressividade e condições degradantes.
Os moradores podem ser comparados a grupos de animais, e seus corpos são frequentemente descritos de maneira material, enfatizando força, cheiro, suor, fome e sexualidade.
O recurso está relacionado ao projeto naturalista de aproximar o ser humano de sua dimensão biológica. Entretanto, também pode desumanizar especialmente as personagens pobres e racializadas.
No final, Bertoleza é comparada a um animal no momento de desespero. A escolha reforça a estética naturalista, mas também revela a violência do olhar narrativo sobre a personagem.
Narrador e foco narrativo
O romance possui narrador onisciente em terceira pessoa. Isso significa que a voz narrativa não participa diretamente dos acontecimentos, mas conhece pensamentos, sentimentos e ações das personagens.
O narrador circula entre diferentes núcleos. Em um momento acompanha João Romão; depois entra no sobrado de Miranda; em seguida observa as lavadeiras, Jerônimo, Rita, Pombinha ou Bertoleza.
Essa mobilidade permite construir uma visão ampla da comunidade. Diferentemente de Dom Casmurro, em que toda a história depende da memória de Bento, O Cortiço apresenta um narrador que observa várias vidas.
Apesar de parecer objetivo, o narrador não é neutro. Suas descrições reproduzem teorias e preconceitos naturalistas do século XIX.
A linguagem empregada para caracterizar corpos, raças, nacionalidades, sexualidades e comportamentos deve ser analisada criticamente.
Tempo narrativo
O tempo é predominantemente cronológico. Acompanhamos o crescimento dos negócios de João Romão, a expansão do cortiço e a transformação das personagens ao longo dos anos.
A passagem do tempo é percebida pelas mudanças materiais: novas casas são construídas, a pedreira cresce, Miranda recebe um título, o cortiço sofre um incêndio e depois é reconstruído.
Também existe tempo suficiente para que Pombinha amadureça, case-se, abandone o marido e se transforme em cortesã.
A narrativa não informa uma data exata para todos os acontecimentos, mas o contexto indica a segunda metade do século XIX, antes da abolição de 1888.
Espaço
A história ocorre principalmente em Botafogo, no Rio de Janeiro.
Os dois espaços centrais são o cortiço de João Romão e o sobrado de Miranda.
O cortiço é coletivo, barulhento, aberto e marcado pela circulação constante. O sobrado procura preservar privacidade, hierarquia e aparência.
A pedreira representa o trabalho braçal e a produção da riqueza. A venda representa o consumo e o controle econômico exercido por João Romão.
O Cabeça-de-Gato funciona como espaço rival, demonstrando que a precariedade urbana não se limita ao cortiço de São Romão.
Ao longo da obra, os espaços não permanecem estáticos. O cortiço cresce, queima e é reconstruído. O estabelecimento de João Romão torna-se mais elegante. Essas mudanças acompanham sua transformação social.
Linguagem e estilo
A linguagem de O Cortiço procura produzir uma sensação de observação direta da realidade.
O narrador descreve sons, cheiros, alimentos, corpos, animais, objetos e atividades de trabalho. A materialidade da vida cotidiana ocupa grande espaço.
Há também reprodução da oralidade, de expressões populares e de formas de falar associadas às origens sociais e nacionais das personagens.
As descrições coletivas criam movimento. Em vez de observar apenas uma pessoa, o narrador apresenta grupos lavando roupas, trabalhando, dançando, brigando ou fugindo do fogo.
A linguagem utiliza frequentemente metáforas orgânicas e animais. O cortiço cresce como um ser vivo; multidões agem como bandos; personagens são comparadas a animais.
A sexualidade é abordada de maneira mais direta do que nos romances românticos. O corpo deixa de ser idealizado e aparece ligado ao desejo, à reprodução, ao trabalho e à doença.
Características do Naturalismo presentes na obra
Determinismo
As personagens são influenciadas pelo meio, pela origem e pelas condições históricas.
Cientificismo
O narrador tenta observar comportamentos como se realizasse um estudo da sociedade.
Zoomorfização
Pessoas e grupos são comparados a animais, enfatizando instintos e comportamentos coletivos.
Predomínio dos impulsos
Desejo sexual, fome, ambição, ciúme e violência frequentemente superam a razão.
Personagens-tipo
Muitas personagens representam grupos ou forças sociais: João Romão simboliza o capitalista explorador; Miranda, a burguesia estabelecida; Jerônimo, o imigrante transformado pelo meio; Bertoleza, o trabalho escravizado; e o cortiço, as camadas populares urbanas.
Espaços degradados
A habitação coletiva é descrita por meio da sujeira, da aglomeração, do calor e da precariedade.
Crítica social
A obra denuncia exploração econômica, desigualdade, escravidão e hipocrisia burguesa.
Pessimismo
As personagens pobres raramente conseguem romper as condições que as oprimem. João Romão prospera, enquanto Bertoleza, Piedade e outros moradores sofrem as consequências.
Esses elementos fazem de O Cortiço uma das obras mais representativas do Naturalismo brasileiro.
Realismo e Naturalismo: qual é a diferença?
O Naturalismo pode ser compreendido como uma vertente mais radical do Realismo.
Os dois movimentos rejeitam a idealização romântica e procuram analisar criticamente a sociedade. Entretanto, o Realismo costuma concentrar-se mais na psicologia, nas relações sociais e nas contradições morais.
O Naturalismo enfatiza o corpo, os impulsos, o ambiente, a hereditariedade e as explicações consideradas científicas.
Em Dom Casmurro, Machado de Assis investiga a memória e o ciúme de um indivíduo. Em O Cortiço, Aluísio Azevedo observa uma comunidade inteira e procura mostrar como as condições materiais influenciam seus comportamentos.
Machado trabalha principalmente com ambiguidade e ironia psicológica. Aluísio utiliza descrições coletivas, linguagem sensorial e determinismo.
Como O Cortiço pode aparecer no vestibular
Nos vestibulares, a obra pode ser cobrada por meio da identificação das características do Naturalismo.
O estudante deve reconhecer determinismo, zoomorfização, cientificismo, personagens-tipo e influência do meio.
Também são frequentes as questões sobre o cortiço como personagem coletivo. O espaço não funciona apenas como cenário, mas como organismo que nasce, cresce e transforma os moradores.
A trajetória de Jerônimo costuma ser utilizada para exemplificar a influência do ambiente. Ele chega como trabalhador disciplinado e termina transformado pela vida no cortiço e pela relação com Rita.
João Romão pode aparecer em questões sobre capitalismo, exploração econômica e ascensão social. Sua riqueza é construída por meio do controle sobre trabalho, moradia e consumo.
Bertoleza é fundamental para questões sobre escravidão, racismo e falsa liberdade. O final pode ser relacionado à hipocrisia do abolicionismo superficial.
A oposição entre o cortiço e o sobrado também merece atenção. Os espaços representam grupos sociais diferentes, mas ambos possuem relações marcadas por interesse, violência e aparência.
As provas podem solicitar uma leitura crítica dos estereótipos raciais, nacionais e sexuais presentes no romance. É importante compreender que essas representações pertencem ao pensamento do século XIX e não devem ser reproduzidas sem problematização.
O desfecho é especialmente relevante. A chegada da comissão abolicionista no momento da morte de Bertoleza produz uma das ironias mais fortes da literatura brasileira e já foi utilizada diretamente em questões de vestibular. (Projeto Agatha Edu)
Pontos fundamentais para memorizar
João Romão é um comerciante português que enriquece por meio da venda, da pedreira e dos aluguéis do cortiço.
Bertoleza entrega suas economias a João Romão e recebe uma carta de alforria falsa.
O cortiço funciona como personagem coletiva e organismo vivo.
Miranda representa a burguesia estabelecida e mora no sobrado ao lado.
Jerônimo chega como trabalhador disciplinado, mas transforma-se depois de conhecer Rita Baiana.
Firmo enfrenta Jerônimo, fere-o e posteriormente é assassinado em uma emboscada.
Piedade é abandonada e entra em decadência.
Pombinha casa-se com João da Costa, abandona o marido e torna-se cortesã.
Paula, a Bruxa, provoca o incêndio.
João Romão reconstrói e valoriza o cortiço.
Depois de Miranda tornar-se barão, João Romão passa a desejar prestígio social.
Ele pretende casar-se com Zulmira, mas considera Bertoleza um obstáculo.
João Romão entrega Bertoleza aos herdeiros do antigo proprietário.
Bertoleza se mata para não retornar à escravidão.
Logo depois, João Romão recebe uma comissão de abolicionistas que deseja homenageá-lo.
Questões de revisão
1. Por que o cortiço pode ser considerado a principal personagem coletiva do romance?
2. Como João Romão inicia sua ascensão econômica?
3. De que maneira Bertoleza é enganada?
4. Qual é a oposição estabelecida entre o cortiço e o sobrado de Miranda?
5. Por que João Romão sente inveja de Miranda?
6. Como Jerônimo é apresentado no início da narrativa?
7. O que provoca a transformação de Jerônimo?
8. Qual é a relação entre Rita Baiana, Firmo e Jerônimo?
9. Como Firmo morre?
10. O que acontece com Piedade depois de ser abandonada?
11. Qual é a importância de Léonie na trajetória de Pombinha?
12. Por que Paula provoca o incêndio?
13. Como João Romão reage à destruição do cortiço?
14. Por que Bertoleza se torna um obstáculo para João Romão?
15. Qual é o plano de João Romão para se livrar dela?
16. Por que Bertoleza comete suicídio?
17. Qual é a ironia presente na chegada da comissão abolicionista?
18. Como a trajetória de Jerônimo exemplifica o determinismo?
19. O que é zoomorfização?
20. Por que o final pode ser considerado pessimista?
Respostas das questões de revisão
1. Porque o espaço é descrito como um organismo vivo que nasce, cresce, desperta, reage e influencia o comportamento dos moradores.
2. Ele assume uma pequena venda, economiza obsessivamente, pratica irregularidades, amplia os negócios e utiliza o trabalho de Bertoleza para acumular patrimônio.
3. João Romão falsifica uma carta de alforria, fica com o dinheiro dela e a faz acreditar que está livre.
4. O cortiço representa as camadas populares, a aglomeração e o trabalho, enquanto o sobrado representa a burguesia, o prestígio e as aparências sociais.
5. Porque Miranda possui título, reconhecimento e acesso à elite, elementos que o dinheiro de João Romão ainda não havia conseguido comprar.
6. Como trabalhador português disciplinado, econômico, responsável e dedicado à família.
7. A convivência no cortiço, a atração por Rita Baiana e os conflitos com Firmo modificam seus hábitos e seu comportamento.
8. Rita inicialmente se relaciona com Firmo, mas desperta o desejo de Jerônimo, provocando a rivalidade entre os dois homens.
9. Jerônimo organiza uma emboscada e contrata Pataca e Zé Carlos para ajudá-lo a assassinar o rival.
10. Ela entra em decadência, entrega-se ao álcool e perde a estabilidade que possuía.
11. Léonie inicia Pombinha em uma nova experiência sexual e, mais tarde, torna-se referência para sua transformação em cortesã.
12. Porque alimentava o desejo obsessivo de ver a habitação em chamas e aproveita a confusão da batalha com o Cabeça-de-Gato.
13. Depois do prejuízo inicial, percebe a possibilidade de reconstruir o espaço, ampliá-lo e aumentar os lucros.
14. Porque ele deseja casar-se com Zulmira e ingressar na elite, e a presença da antiga companheira não combina com a imagem social que pretende construir.
15. Ele denuncia Bertoleza aos herdeiros de seu antigo proprietário, revelando que ela nunca havia sido legalmente libertada.
16. Porque descobre que foi enganada e prefere morrer a ser devolvida à escravidão.
17. João Romão é homenageado como abolicionista exatamente quando Bertoleza morre em consequência de sua tentativa de devolvê-la ao cativeiro.
18. Ele passa de trabalhador disciplinado a homem impulsivo, adúltero e assassino, transformação atribuída pelo narrador à influência do ambiente.
19. É o recurso de atribuir características animais a pessoas ou grupos, enfatizando impulsos e comportamentos considerados instintivos.
20. Porque o explorador alcança riqueza e prestígio, enquanto várias personagens vulneráveis terminam destruídas, abandonadas ou mortas.
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Para continuar seus estudos sobre o Realismo e o Naturalismo, consulte também:
- Resumo completo de Memórias Póstumas de Brás Cubas
- Resumo completo de Dom Casmurro
- Aluísio Azevedo e o Naturalismo
- Características do Naturalismo
- Diferenças entre Realismo e Naturalismo
- Obras cobradas nos vestibulares
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O Cortiço permanece atual porque mostra que a desigualdade não resulta apenas de escolhas individuais. Moradia, trabalho, raça, gênero, dinheiro e prestígio organizam as possibilidades oferecidas a cada personagem. Enquanto João Romão transforma o sofrimento alheio em patrimônio, Bertoleza trabalha durante anos sem conquistar liberdade, participação nos bens ou proteção.
O romance também nos obriga a observar criticamente o próprio Naturalismo. A obra denuncia a exploração e a hipocrisia social, mas utiliza teorias deterministas e representações racializadas que pertencem ao pensamento do século XIX. Ler além do texto significa reconhecer simultaneamente a força da crítica social e as limitações históricas do olhar empregado pelo narrador.
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