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Muitos estudantes conhecem várias regras gramaticais, mas ainda erram porque não conseguem identificar qual regra deve ser aplicada em cada frase. Isso acontece com frequência quando o problema envolve concordância e regência. Os dois conteúdos estão relacionados à organização das palavras na oração, porém tratam de relações diferentes.

Na concordância, observamos como determinadas palavras modificam sua forma para acompanhar outras. Na regência, analisamos como um verbo ou um nome se liga ao seu complemento, especialmente por meio de preposições. Antes de corrigir uma frase, portanto, é necessário fazer uma pergunta fundamental: o erro está na forma da palavra ou na ligação entre os termos?

Reconhecer essa diferença é mais importante do que decorar listas isoladas. Quando o estudante aprende a localizar o núcleo do problema, a aplicação da regra se torna mais lógica, segura e rápida.

O que é concordância?

A concordância é o mecanismo pelo qual uma palavra ajusta sua forma de acordo com outra. Esse ajuste pode envolver gênero, número ou pessoa gramatical.

Existem dois tipos principais:

  • concordância verbal;
  • concordância nominal.

Na concordância verbal, o verbo se relaciona com o sujeito. Na concordância nominal, artigos, adjetivos, pronomes e numerais se relacionam com o substantivo.

Observe:

Os alunos chegaram cedo.

O verbo chegaram está no plural porque concorda com o sujeito os alunos.

Agora veja:

As atividades estavam difíceis.

O artigo as e o adjetivo difíceis acompanham o substantivo atividades, que está no feminino plural.

Nos dois casos, o problema de concordância seria percebido pela forma assumida pelas palavras.

O que é regência?

A regência estuda a relação de dependência entre uma palavra e seu complemento. O termo principal pode ser um verbo ou um nome, e essa relação pode exigir ou não uma preposição.

Existem dois tipos principais:

  • regência verbal;
  • regência nominal.

Observe:

Os alunos assistiram ao documentário.

O verbo assistir, quando significa ver ou presenciar, exige a preposição a. Por isso, dizemos assistiram ao documentário.

Agora veja:

Ela tem orgulho de sua trajetória.

O nome orgulho exige a preposição de antes de seu complemento.

Nesse caso, o problema não está no singular ou no plural, mas na ligação estabelecida entre os termos.

A pergunta que separa concordância de regência

Uma forma prática de distinguir os dois conteúdos é fazer duas perguntas.

Primeiro:

Alguma palavra deveria mudar de gênero, número ou pessoa?

Quando a resposta for positiva, o problema provavelmente envolve concordância.

Depois:

Está faltando, sobrando ou sendo usada incorretamente alguma preposição?

Quando isso acontece, o problema provavelmente envolve regência.

Compare:

Fazem dois anos que ele saiu.

O erro está na forma verbal. O verbo fazer, quando indica tempo decorrido, é impessoal e deve permanecer no singular:

Faz dois anos que ele saiu.

Agora observe:

Ela prefere estudar do que trabalhar.

O problema não está na forma de nenhuma palavra. Está na construção exigida pelo verbo preferir, que pede a estrutura preferir uma coisa a outra:

Ela prefere estudar a trabalhar.

No primeiro exemplo, temos concordância verbal. No segundo, regência verbal.

Concordância verbal: procure o sujeito

Quando o possível erro estiver no verbo, o primeiro passo é localizar o sujeito da oração. Em seguida, identifique seu núcleo.

Observe:

A lista de exercícios estavam sobre a mesa.

O sujeito é a lista de exercícios, mas seu núcleo é lista, que está no singular. O termo de exercícios apenas completa o sentido do substantivo.

A forma correta é:

A lista de exercícios estava sobre a mesa.

Um erro comum ocorre porque o verbo é atraído pelo termo mais próximo. O estudante vê exercícios, no plural, e acaba usando estavam. Entretanto, a concordância deve ser feita com o núcleo do sujeito.

Outro exemplo:

O aumento dos preços preocupam os consumidores.

O núcleo do sujeito é aumento, e não preços. Portanto:

O aumento dos preços preocupa os consumidores.

Antes de aplicar qualquer regra especial, localize o sujeito e descubra qual palavra realmente comanda a concordância.

Concordância nominal: procure o substantivo principal

Na concordância nominal, é necessário observar qual substantivo está sendo determinado ou caracterizado.

Veja:

Seguem anexo os documentos solicitados.

O adjetivo anexo deve concordar com documentos:

Seguem anexos os documentos solicitados.

Observe outro exemplo:

É proibido a entrada de pessoas não autorizadas.

Quando o substantivo vem acompanhado de artigo, o predicativo deve concordar com ele:

É proibida a entrada de pessoas não autorizadas.

Sem o artigo, a construção poderia permanecer invariável:

É proibido entrada de pessoas não autorizadas.

A diferença não depende de uma preposição, mas da relação de gênero e número entre os termos. Por isso, trata-se de concordância nominal.

Regência verbal: descubra o sentido do verbo

Um mesmo verbo pode apresentar regências diferentes conforme o sentido empregado. Esse é um dos motivos pelos quais a regência costuma causar tantas dúvidas.

Observe o verbo assistir:

O médico assistiu o paciente.

Nesse caso, assistir significa prestar assistência. O verbo é transitivo direto e não exige preposição.

Agora veja:

O público assistiu ao espetáculo.

Aqui, assistir significa ver ou presenciar. O verbo exige a preposição a.

O mesmo acontece com o verbo aspirar:

O funcionário aspirou a poeira.

O sentido é sugar ou sorver, sem preposição.

O funcionário aspirava ao cargo de gerente.

O sentido é desejar ou pretender, com a preposição a.

Antes de corrigir a regência, portanto, não basta olhar para o verbo. É preciso compreender o sentido que ele assume no contexto.

Regência nominal: observe a palavra que exige complemento

Na regência nominal, determinados substantivos, adjetivos ou advérbios exigem uma preposição específica.

Veja:

Ele é favorável à mudança.

O adjetivo favorável rege a preposição a.

Ela demonstrou respeito pelos professores.

O substantivo respeito pode relacionar-se com seu complemento por meio de a, por ou para com, conforme a construção adotada.

Estamos conscientes dos riscos.

O adjetivo conscientes exige a preposição de.

Para reconhecer a regência nominal, identifique a palavra que precisa de complemento. Depois, verifique qual preposição normalmente estabelece essa ligação.

O erro está no verbo ou na preposição?

Algumas frases parecem ter um problema de concordância, mas apresentam erro de regência. Outras parecem conter uma preposição inadequada, quando o verdadeiro problema está na forma verbal.

Compare:

Haviam muitos candidatos na sala.

O verbo haver, no sentido de existir, é impessoal. O correto é:

Havia muitos candidatos na sala.

Esse é um erro de concordância verbal.

Agora observe:

O candidato chegou no local da prova com antecedência.

Na norma-padrão, o verbo chegar exige a preposição a:

O candidato chegou ao local da prova com antecedência.

Esse é um problema de regência verbal.

Veja outro par:

Faltou argumentos convincentes no texto.

O sujeito é argumentos convincentes, no plural. Portanto:

Faltaram argumentos convincentes no texto.

Concordância verbal.

O autor simpatiza com ideias progressistas.

O verbo simpatizar exige a preposição com. A construção está correta e pertence ao campo da regência verbal.

Um método prático para analisar qualquer frase

Ao encontrar uma questão de concordância ou regência, siga uma sequência de análise.

1. Localize o verbo

O verbo costuma revelar se o problema está ligado ao sujeito ou ao complemento.

2. Procure o sujeito

Pergunte quem pratica a ação ou de quem se declara algo. Depois, identifique o núcleo do sujeito.

3. Verifique a forma do verbo

Observe se o verbo deveria estar no singular ou no plural e em qual pessoa gramatical.

4. Identifique os complementos

Veja se o verbo ou o nome precisa de outro termo para completar seu sentido.

5. Observe as preposições

Pergunte se a palavra principal exige a, de, com, em, por ou outra preposição.

6. Considere o sentido da palavra

A regência pode mudar de acordo com o significado do verbo.

7. Releia a frase completa

Uma correção gramatical não deve destruir o sentido original da oração.

Esse procedimento evita que o estudante aplique uma regra correta ao problema errado.

Concordância e regência podem aparecer juntas

Uma única frase pode apresentar simultaneamente relações de concordância e regência.

Observe:

Os estudantes obedeceram às orientações apresentadas pela professora.

O verbo obedeceram concorda com o sujeito os estudantes. Ao mesmo tempo, o verbo obedecer exige a preposição a, que se combina com o artigo feminino plural em às orientações.

Na mesma frase, temos:

  • concordância verbal entre estudantes e obedeceram;
  • regência verbal entre obedeceram e às orientações;
  • concordância nominal entre orientações e apresentadas.

Isso mostra que os conteúdos não funcionam de maneira isolada. Eles participam conjuntamente da construção sintática.

A relação entre regência e crase

A crase muitas vezes depende da regência. Para que ocorra o acento grave, deve haver a união de duas vogais idênticas: a preposição a e o artigo feminino a ou as.

Observe:

O aluno referiu-se à questão anterior.

O verbo referir-se exige a preposição a. O substantivo feminino questão admite o artigo a. A combinação resulta em à questão.

Agora veja:

O aluno mencionou a questão anterior.

O verbo mencionar não exige preposição. O termo a é apenas artigo. Por isso, não há crase.

Antes de decorar perguntas ou truques sobre crase, é necessário verificar a regência da palavra anterior.

Casos que costumam aparecer nas provas

Alguns verbos são muito cobrados porque mudam de sentido ou exigem construções específicas.

Assistir

No sentido de ver:

Assistimos ao filme.

No sentido de prestar assistência:

O médico assistiu o paciente.

Preferir

A construção tradicional é:

Prefiro literatura a gramática.

Deve-se evitar, na norma-padrão, estruturas como prefiro mais ou prefiro do que.

Obedecer e desobedecer

Exigem preposição a:

Os estudantes obedeceram às regras.

Visar

No sentido de mirar ou rubricar:

O arqueiro visou o alvo.
O gerente visou o documento.

No sentido de ter como objetivo:

O projeto visa à melhoria do ensino.

Implicar

No sentido de causar ou acarretar, costuma ser transitivo direto:

A ausência de planejamento implica dificuldades.

No sentido de antipatizar, aparece com com:

O aluno implicava com o colega.

Namorar

Na norma-padrão, é transitivo direto:

Ela namora um estudante de Letras.

Não se recomenda, em situações formais, a construção namorar com alguém.

Pegadinhas de concordância mais frequentes

Algumas construções exigem atenção especial.

Verbo haver com sentido de existir

Havia muitas dúvidas.

O verbo permanece no singular.

Verbo fazer indicando tempo

Faz três meses que começamos o curso.

Também permanece no singular.

Expressão “mais de um”

Mais de um candidato faltou.

Em geral, o verbo fica no singular, salvo contextos específicos de reciprocidade ou repetição.

Porcentagens

Trinta por cento dos estudantes faltaram.

A concordância pode ser influenciada pelo número percentual e pelo termo especificador.

Pronome relativo “que”

Fui eu que organizei o material.

O verbo concorda com o antecedente de que.

Pronome relativo “quem”

Fui eu quem organizou o material.

A forma na terceira pessoa do singular é a mais tradicional, embora também se encontre concordância com o antecedente em determinados contextos.

Como a banca transforma esses conteúdos em questão

Nos vestibulares, concordância e regência podem aparecer em questões de correção gramatical, reescrita, interpretação ou adequação à norma-padrão.

A banca pode pedir que o estudante:

  • identifique a alternativa correta;
  • encontre o erro em uma frase;
  • substitua um termo sem alterar a regência;
  • explique o uso de uma preposição;
  • compare duas construções;
  • reconheça uma alteração de sentido;
  • avalie se a concordância foi preservada em uma reescrita.

Por isso, estudar apenas frases soltas não é suficiente. É importante compreender a estrutura sintática e o contexto em que as palavras são empregadas.

Erros de concordância e regência na redação

Na redação, esses desvios podem comprometer a clareza e a correção gramatical do texto.

Veja:

A falta de políticas públicas prejudicam a população.

O núcleo do sujeito é falta, portanto:

A falta de políticas públicas prejudica a população.

Agora observe:

Os cidadãos precisam de que o governo tome providências.

Embora a construção possa ser aceita em alguns contextos sintáticos, muitas vezes é possível produzir uma frase mais clara:

Os cidadãos precisam que o governo tome providências.

Outro exemplo:

O problema ao qual o autor se refere exige atenção.

O uso de ao qual ocorre porque o verbo referir-se exige a preposição a.

Ao revisar sua redação, não procure apenas palavras escritas incorretamente. Analise também a relação entre sujeito e verbo, entre substantivo e adjetivo e entre os termos regentes e seus complementos.

Concordância é ajuste; regência é ligação

Uma maneira simples de guardar a diferença é associar cada conteúdo a uma ideia central:

Concordância é ajuste.
Uma palavra altera sua forma para acompanhar outra.

Regência é ligação.
Uma palavra estabelece uma relação com seu complemento, muitas vezes por meio de uma preposição.

Veja novamente:

As propostas parecem adequadas.

As palavras ajustam gênero e número. Temos concordância.

Os estudantes necessitam de orientação.

O verbo estabelece uma ligação com seu complemento por meio da preposição de. Temos regência.

Essa distinção ajuda o estudante a decidir por onde começar a análise.

Exercícios de revisão

Identifique se o problema das frases seguintes está relacionado à concordância ou à regência. Depois, faça a correção.

  1. Existiam muita desorganização no setor.
  2. Os alunos assistiram o debate sobre literatura.
  3. Fazem cinco anos que o projeto começou.
  4. Ela prefere estudar redação do que gramática.
  5. Segue inclusas as atividades de revisão.
  6. O estudante aspirava uma vaga na universidade.
  7. A maioria dos candidatos chegaram cedo.
  8. O professor referiu-se a proposta apresentada.

Respostas comentadas

1. Concordância verbal

O sujeito é muita desorganização, no singular:

Existia muita desorganização no setor.

2. Regência verbal

O verbo assistir, no sentido de ver, exige preposição a:

Os alunos assistiram ao debate sobre literatura.

3. Concordância verbal

O verbo fazer, indicando tempo, é impessoal:

Faz cinco anos que o projeto começou.

4. Regência verbal

O verbo preferir pede a estrutura preferir uma coisa a outra:

Ela prefere estudar redação a estudar gramática.

5. Concordância nominal

O adjetivo deve concordar com atividades:

Seguem inclusas as atividades de revisão.

Também seria possível:

Seguem incluídas as atividades de revisão.

6. Regência verbal

No sentido de desejar, aspirar exige preposição a:

O estudante aspirava a uma vaga na universidade.

7. Concordância verbal

Com expressões partitivas, a concordância pode ocorrer no singular ou no plural, dependendo do foco da construção:

A maioria dos candidatos chegou cedo.

ou:

A maioria dos candidatos chegaram cedo.

Em contextos escolares, costuma-se valorizar a concordância no singular com o núcleo maioria, embora o plural também seja registrado.

8. Regência verbal e crase

O verbo referir-se exige preposição a, e proposta admite artigo feminino:

O professor referiu-se à proposta apresentada.

Antes da regra, vem o diagnóstico

O maior erro no estudo da gramática é tentar corrigir uma frase antes de compreender sua estrutura. Concordância e regência exigem procedimentos diferentes, embora possam aparecer juntas na mesma oração.

Quando o problema estiver na flexão das palavras, analise a concordância. Quando estiver na relação entre um termo e seu complemento, examine a regência. Localize o sujeito, identifique o núcleo, observe o sentido do verbo e verifique as preposições exigidas.

A gramática deixa de parecer uma coleção de proibições quando o estudante aprende a investigar como as palavras se relacionam. Antes de perguntar qual regra deve ser aplicada, pergunte qual relação foi construída na frase. É esse diagnóstico que transforma a memorização em compreensão.

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