Hoje entrei em um café pouco depois das sete da manhã. Havia umas vinte cadeiras espalhadas pelo salão, mas apenas uma estava ocupada. Um senhor de cabelos completamente brancos lia um jornal que parecia mais velho do que ele. A moça do balcão secava as mesmas xícaras pela terceira vez, embora todas já estivessem limpas.
Escolhi uma mesa perto da janela. Gosto das janelas. Elas têm o hábito de nos lembrar que o mundo continua acontecendo mesmo quando tudo parece parado.
Enquanto esperava meu café, pensei em como temos medo dos dias vazios. É curioso. Passamos semanas desejando um pouco de descanso, um intervalo, um momento de silêncio. Quando ele finalmente chega, logo começamos a procurar alguma ocupação para preenchê-lo, como se o vazio fosse um erro que precisasse ser corrigido.
O senhor do jornal terminou a leitura, dobrou cuidadosamente as folhas e permaneceu sentado. Não pegou o celular. Não chamou ninguém. Apenas ficou olhando a rua. Fiquei imaginando o que passava pela cabeça dele. Talvez nada. Talvez tudo.
Depois de alguns minutos, uma menina atravessou a calçada correndo atrás de uma folha seca que o vento insistia em levar embora. Não era uma folha bonita. Estava amassada, meio rasgada, de um marrom sem graça. Mas a menina ria como se estivesse perseguindo um balão colorido.
Foi então que percebi uma coisa engraçada: nós adultos raramente corremos atrás de folhas. Esperamos que a vida nos entregue grandes acontecimentos para justificar um sorriso. As crianças, ao contrário, aceitam a brincadeira que o dia oferece.
Terminei meu café devagar. Antes de sair, olhei novamente para o salão quase vazio. De repente, ele já não me parecia vazio. Havia o cheiro do pão recém-assado, o barulho discreto da colher batendo na xícara, a luz da manhã desenhando pequenos retângulos no chão, a moça cantarolando uma música que eu não conhecia e um senhor que, sem saber, me ensinara que nem todo silêncio precisa ser preenchido.
Voltei para a rua pensando que talvez a felicidade tenha um estranho senso de humor. Ela raramente aparece quando a procuramos com ansiedade. Mas gosta de se esconder nos intervalos, justamente naqueles momentos em que acreditamos que nada está acontecendo.
Talvez hoje seja um desses dias.
Se for, não tenha pressa de estragá-lo.
