Olá, amigos e alunos do blog A Escola Literária!
Hoje iniciamos uma nova série de conteúdos dedicada aos resumos completos das principais obras cobradas pelos vestibulares brasileiros. A proposta desta seção não é substituir a leitura integral dos livros, mas oferecer um material de apoio detalhado, capaz de ajudar o estudante a compreender a sequência dos acontecimentos, as motivações das personagens, as características literárias e os principais temas que costumam aparecer nas provas. Para inaugurar essa série, começaremos com uma das obras mais importantes da literatura brasileira: Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
Aviso de spoilers
Este artigo apresenta toda a narrativa de Memórias Póstumas de Brás Cubas, incluindo acontecimentos decisivos, revelações sobre as personagens e a explicação completa do final. Caso você ainda pretenda realizar uma primeira leitura sem conhecer o desfecho, recomendamos que retorne a este conteúdo depois de concluir o livro.
Ficha da obra
Título: Memórias Póstumas de Brás Cubas
Autor: Machado de Assis
Primeira publicação: 1880, em capítulos na Revista Brasileira
Publicação em livro: 1881
Gênero: romance
Subgênero: romance psicológico, memorialístico e satírico
Movimento literário: Realismo
Fase do autor: fase madura ou realista de Machado de Assis
Narrador: Brás Cubas, narrador-personagem e autor de suas próprias memórias
Espaço principal: Rio de Janeiro do século XIX
Tempo histórico: período do Segundo Reinado brasileiro
Estrutura: 160 capítulos, em sua maioria breves, fragmentados e não lineares
Contexto histórico e literário
Publicado em livro em 1881, Memórias Póstumas de Brás Cubas é tradicionalmente considerado o marco inicial do Realismo no Brasil. A obra representa uma ruptura significativa com os valores idealizados do Romantismo, pois substitui os heróis virtuosos, os amores grandiosos e as emoções sentimentalizadas por uma visão crítica da sociedade, das relações humanas e do próprio indivíduo. Machado de Assis constrói um protagonista imperfeito, egoísta, ocioso e socialmente privilegiado, por meio do qual revela a hipocrisia da elite brasileira do século XIX.
O Brasil retratado no romance ainda era uma sociedade monárquica e escravocrata, profundamente marcada pelas desigualdades sociais. A elite urbana do Rio de Janeiro procurava imitar costumes europeus, valorizava títulos, cargos políticos, propriedades e relações de influência. Ao mesmo tempo, mantinha sua riqueza apoiada em estruturas violentas, como a escravidão e a exclusão das camadas mais pobres. Machado não apresenta essa sociedade por meio de discursos diretos ou denúncias evidentes. Sua crítica ocorre principalmente pela ironia, pela contradição entre aquilo que as personagens dizem e aquilo que fazem e pela forma como Brás Cubas tenta justificar suas escolhas.
O romance também inaugura a fase mais experimental da produção machadiana. Em vez de contar a vida do protagonista de maneira linear e organizada, Machado cria uma narrativa fragmentada, cheia de interrupções, comentários dirigidos ao leitor, reflexões filosóficas e mudanças repentinas de assunto. Alguns capítulos possuem apenas algumas linhas, enquanto outros apresentam diálogos, pensamentos, símbolos ou provocações. Essa estrutura faz com que o leitor não apenas acompanhe os acontecimentos, mas também questione a forma como eles são contados.
Os personagens principais
Brás Cubas
Brás Cubas é o protagonista, narrador e suposto autor das memórias. Nascido em uma família rica do Rio de Janeiro, nunca precisou trabalhar para sobreviver e passou a vida buscando prazeres, reconhecimento social e prestígio político. Depois de morrer, decide narrar sua trajetória com uma liberdade que não teria enquanto estivesse vivo. Como já não precisa preservar a própria reputação, revela muitos de seus defeitos, embora continue tentando justificar determinadas atitudes.
Virgília
Virgília é o principal amor da vida adulta de Brás Cubas. Inicialmente, é apresentada como uma possível esposa para ele, mas escolhe se casar com Lobo Neves, homem que lhe oferece melhores possibilidades de ascensão social. Anos depois, ela e Brás tornam-se amantes. Virgília é ambiciosa, vaidosa e pragmática, mas também demonstra afeto pelo protagonista em diferentes momentos.
Lobo Neves
Lobo Neves é o marido de Virgília e um político em ascensão. Sua vida é orientada pela busca de cargos, prestígio e reconhecimento público. Embora em alguns momentos desconfie da relação entre Brás e Virgília, sua preocupação com a carreira política e com as aparências sociais interfere em suas decisões.
Quincas Borba
Quincas Borba é um antigo colega de infância de Brás Cubas. Depois de viver na pobreza e aparecer como mendigo, recebe uma herança e passa a desenvolver uma filosofia chamada Humanitismo. Suas ideias procuram justificar guerras, desigualdades e disputas como manifestações naturais da humanidade. Ao longo da narrativa, seu comportamento se torna cada vez mais desequilibrado.
Marcela
Marcela é uma cortesã com quem Brás Cubas vive uma paixão durante a juventude. Ele acredita estar vivendo um grande amor, mas a relação depende dos presentes e do dinheiro que oferece a ela. Marcela representa o caráter interesseiro de muitas relações apresentadas na obra.
Eugênia
Eugênia é uma jovem bonita, inteligente e de origem social modesta. Ela possui uma deficiência física em uma das pernas, motivo pelo qual Brás Cubas a chama cruelmente de “flor da moita”. Embora se sinta atraído por ela, ele não considera seriamente um casamento, pois está mais preocupado com o status social do que com seus sentimentos.
Dona Plácida
Dona Plácida é uma mulher pobre que trabalha para Virgília e aceita cuidar da casa utilizada nos encontros entre ela e Brás Cubas. Inicialmente, demonstra resistência moral à situação, mas acaba cedendo diante das dificuldades econômicas. Sua trajetória evidencia a vulnerabilidade das pessoas pobres diante dos interesses da elite.
Nhã-loló
Nhã-loló, cujo nome verdadeiro é Eulália Damascena de Brito, é uma jovem que surge como possível esposa para Brás Cubas. A aproximação é incentivada por Sabina, irmã do protagonista. Embora Brás demonstre algum interesse, observa a moça com superioridade e imagina que poderá educá-la de acordo com os padrões sociais que considera adequados.
Sabina e Cotrim
Sabina é irmã de Brás Cubas, enquanto Cotrim é seu cunhado. Os dois participam dos conflitos familiares relacionados à herança do pai de Brás. Cotrim é descrito socialmente como um homem respeitável, trabalhador e dedicado à família, mas sua riqueza está relacionada ao comércio de pessoas escravizadas e a práticas violentas.
Prudêncio
Prudêncio é uma pessoa escravizada pela família Cubas durante a infância de Brás. Quando criança, o protagonista o humilha e o utiliza como brinquedo, chegando a montá-lo como se fosse um cavalo. Depois de conquistar a liberdade, Prudêncio aparece espancando outra pessoa escravizada, reproduzindo a mesma violência que sofreu.
O início pelo fim: a morte de Brás Cubas
A narrativa começa de uma maneira completamente incomum. Em vez de apresentar o nascimento do protagonista, o romance começa com sua morte. Brás Cubas informa que faleceu aos 64 anos, em sua propriedade no bairro do Catumbi, no Rio de Janeiro. Solteiro, rico e sem filhos, foi acompanhado ao cemitério por apenas onze amigos. O pequeno número de pessoas presentes em seu funeral já revela que sua vida, apesar do dinheiro e das relações sociais, não produziu vínculos verdadeiramente profundos.
Brás se apresenta como um defunto autor, e não simplesmente como um autor defunto. A diferença é importante: ele não é um escritor que morreu depois de escrever suas memórias, mas um morto que decidiu escrever depois de falecer. Essa condição permite que conte sua história sem se preocupar com julgamentos, convenções sociais ou consequências. A morte torna-se, portanto, uma espécie de posição privilegiada para observar a vida humana.
Nos dias que antecederam sua morte, Brás estava envolvido na criação do emplasto Brás Cubas, um medicamento que supostamente curaria a melancolia humana. Embora apresentasse o projeto como uma contribuição para o bem da humanidade, sua verdadeira motivação era alcançar fama e ver seu nome estampado nas embalagens do produto. Ao trabalhar na invenção, expôs-se ao frio, adoeceu e acabou morrendo de pneumonia antes de concluir o projeto.
Durante sua enfermidade, Virgília, já envelhecida, visita-o acompanhada do filho. A presença da antiga amante leva Brás a recordar o relacionamento que os dois viveram. A partir desse momento, a memória começa a reconstruir sua trajetória, mas sem seguir uma ordem rigorosamente cronológica.
O delírio antes da morte
Antes de voltar à infância, Brás Cubas descreve um longo delírio provocado pela doença. Em sua visão, ele é conduzido por um hipopótamo até o início dos tempos e encontra uma figura gigantesca que se apresenta como Natureza ou Pandora. Essa entidade mostra ao protagonista a sucessão dos séculos e o espetáculo da humanidade, marcado por guerras, ambições, sofrimentos, desejos e disputas.
O delírio apresenta uma visão profundamente pessimista da existência. Os seres humanos acreditam avançar em direção à felicidade, mas continuam presos à ganância, à vaidade e ao sofrimento. A Natureza aparece como uma força indiferente, que cria e destrói sem demonstrar compaixão pelos indivíduos. Esse episódio antecipa uma das ideias fundamentais da obra: a vida humana é conduzida por ilusões, interesses e desejos que raramente produzem satisfação verdadeira.
A origem da família Cubas
Depois de narrar a própria morte, Brás apresenta a origem de sua família. Seu pai gostava de atribuir aos Cubas uma origem nobre e prestigiosa, embora a história familiar fosse muito menos gloriosa do que ele desejava admitir. Machado utiliza esse episódio para ridicularizar a obsessão da elite brasileira por títulos, sobrenomes e tradições aristocráticas.
A família Cubas possuía dinheiro, propriedades e influência, mas buscava também fabricar uma imagem de nobreza. Essa preocupação com as aparências acompanhará Brás durante toda a vida. Muitas de suas escolhas serão determinadas não pelo afeto ou pela convicção, mas pelo desejo de manter uma posição social considerada respeitável.
A infância do “menino diabo”
Brás Cubas descreve sua infância sem demonstrar arrependimento verdadeiro. Filho de uma família rica e protegido pelo pai, foi uma criança mimada, cruel e acostumada a impor suas vontades. Os adultos frequentemente interpretavam suas maldades como sinais de inteligência ou personalidade forte, contribuindo para que ele crescesse sem limites morais.
Um dos episódios mais marcantes envolve Prudêncio, jovem escravizado pela família. Brás montava sobre suas costas, colocava-lhe uma corda na boca e o obrigava a circular como se fosse um animal. Enquanto Prudêncio sofria, o menino se divertia. A cena revela como a escravidão era incorporada ao cotidiano e naturalizada desde a infância das famílias proprietárias.
Brás também utilizava informações comprometedoras para constranger os adultos. Ao descobrir um envolvimento amoroso entre Dona Eusébia e Vilaça, passa a provocar e ameaçar o casal. Em vez de ser corrigido, recebe a admiração do pai, que considera suas atitudes provas de esperteza. Assim, Machado mostra que o egoísmo de Brás não surgiu apenas de sua personalidade, mas foi alimentado por uma educação baseada no privilégio, na impunidade e na superioridade social.
Durante os estudos, Brás conhece Quincas Borba, que ainda não era o filósofo excêntrico que apareceria posteriormente. A educação recebida pelo protagonista não produz grande interesse intelectual. Ele aprende o suficiente para manter a posição social esperada, mas não demonstra disciplina, vocação ou desejo real de contribuir para a sociedade.
A paixão por Marcela
Na juventude, Brás Cubas conhece Marcela e se envolve intensamente com ela. Ele interpreta a relação como uma paixão arrebatadora, mas o próprio narrador revela que Marcela estava interessada principalmente nos presentes e benefícios financeiros que recebia. Brás gasta grandes quantias, compra joias e compromete parte do patrimônio da família para manter o relacionamento.
O pai de Brás percebe a situação e decide afastá-lo de Marcela. Para impedir que o filho continue desperdiçando dinheiro, envia-o a Portugal, onde deverá estudar Direito na Universidade de Coimbra. Brás sofre com a separação, mas sua dor não o transforma profundamente. O romance com Marcela termina como muitas experiências de sua vida: intenso durante algum tempo, mas incapaz de produzir amadurecimento.
Anos depois, Brás reencontra Marcela trabalhando em uma loja. Ela está empobrecida e com o rosto marcado pela varíola. O reencontro mostra a ação do tempo sobre a beleza e sobre as ilusões da juventude. Brás observa a antiga amante com certo desconforto, mas rapidamente transforma a situação em mais uma reflexão irônica sobre a fragilidade das relações humanas.
Os estudos em Coimbra e o retorno ao Brasil
Em Portugal, Brás Cubas conclui o curso de Direito sem demonstrar grande dedicação. Ele recebe o diploma, mas não desenvolve uma verdadeira vocação profissional. Sua formação universitária funciona principalmente como um símbolo de prestígio, algo comum entre jovens das famílias ricas daquele período.
Depois de alguns anos na Europa, Brás retorna ao Brasil ao receber a notícia de que sua mãe está gravemente doente. Ele chega a tempo de acompanhar seus últimos momentos. A morte da mãe provoca sofrimento, mas não altera de maneira definitiva sua forma de viver.
Após o período de luto, Brás permanece algum tempo em uma propriedade da família na Tijuca. É nesse contexto que reencontra Dona Eusébia e conhece Eugênia, filha da antiga relação que ele havia descoberto durante a infância.
Eugênia, a “flor da moita”
Eugênia é apresentada como uma jovem delicada, bonita e inteligente. Brás sente-se atraído por ela e percebe que a moça corresponde ao seu interesse. Os dois conversam, aproximam-se e chegam a trocar um beijo. Por alguns momentos, parece possível que o relacionamento se desenvolva de maneira sincera.
Entretanto, Brás descobre que Eugênia possui uma deficiência em uma das pernas. Além disso, ela não pertence a uma família rica ou socialmente influente. Esses elementos despertam o preconceito do protagonista. Em vez de reconhecer as qualidades da jovem, Brás passa a considerá-la inadequada para seus projetos de ascensão social.
A expressão “flor da moita” utilizada pelo narrador possui uma crueldade particular. Eugênia é associada a uma flor bonita que nasceu fora dos espaços socialmente valorizados, pois é filha de uma relação considerada irregular e não possui o prestígio das famílias tradicionais. Brás afasta-se dela não por falta de afinidade, mas porque teme comprometer sua imagem.
O episódio evidencia o contraste entre o desejo e a conveniência. Brás admira Eugênia, mas não é capaz de enfrentar as convenções sociais para permanecer ao seu lado. Mais tarde, ao saber que ela vive em condições difíceis, não demonstra qualquer esforço concreto para ajudá-la.
O projeto de casamento com Virgília
O pai de Brás deseja encaminhar a vida do filho e apresenta-lhe um projeto que une casamento e carreira política. Brás deveria casar-se com Virgília, filha do Conselheiro Dutra, e aproveitar as relações da família para ingressar na política. O casamento não é tratado como uma união afetiva, mas como um acordo de interesses entre famílias.
Brás conhece Virgília e se sente atraído por ela. A jovem, porém, percebe que Lobo Neves possui maiores possibilidades de crescimento político e decide casar-se com ele. Embora Brás pertencesse a uma família rica, não demonstrava ambição, disciplina ou capacidade de construir uma carreira sólida.
A escolha de Virgília provoca grande decepção no pai de Brás. Ele havia imaginado para o filho uma vida pública prestigiosa e um casamento capaz de fortalecer o nome da família. Pouco tempo depois, o pai adoece e morre, deixando os bens para os filhos.
A disputa pela herança
Após a morte do pai, Brás Cubas entra em conflito com a irmã Sabina e com o cunhado Cotrim durante a divisão da herança. As discussões envolvem propriedades, objetos e valores que cada parte considera ter direito de receber. A família, que deveria se unir durante o luto, revela-se movida por interesses econômicos.
Brás se afasta temporariamente da irmã. O episódio mostra que os laços familiares não são mais fortes do que a disputa por dinheiro. Embora todos pertençam à mesma classe social e procurem manter uma aparência de respeitabilidade, o comportamento durante a partilha revela mesquinhez, ressentimento e ganância.
Posteriormente, Brás volta a conviver com Sabina e Cotrim. O narrador apresenta o cunhado como um homem trabalhador, religioso, dedicado à família e reconhecido socialmente. No entanto, também informa que Cotrim participou do comércio de pessoas escravizadas e utilizava métodos violentos contra aqueles que estavam sob seu domínio. A ironia está no fato de que a sociedade considera Cotrim um cidadão exemplar, porque seus crimes estão de acordo com os interesses e valores do próprio sistema.
O reencontro com Virgília
Alguns anos depois, Brás Cubas reencontra Virgília, agora casada com Lobo Neves. A antiga possibilidade de casamento transforma-se em atração, e os dois iniciam um relacionamento secreto. Brás sente que finalmente conquistou aquilo que havia perdido, mas a relação só se torna possível porque Virgília permanece casada e socialmente protegida.
O adultério é apresentado sem idealização romântica. Brás e Virgília experimentam paixão, ciúmes e entusiasmo, mas também demonstram vaidade, medo do escândalo e preocupação com as aparências. A relação depende de mentiras, encontros escondidos e da colaboração de pessoas socialmente inferiores.
Lobo Neves dedica grande parte de sua atenção à política. Seu desejo de ocupar cargos importantes faz com que passe períodos distante e aceite determinadas situações para preservar a própria carreira. Em alguns momentos, percebe indícios da traição, mas evita um confronto direto que possa produzir escândalo.
A casa dos encontros e a participação de Dona Plácida
Para encontrarem-se com maior segurança, Brás e Virgília alugam uma pequena casa e colocam Dona Plácida como responsável pelo local. A mulher, pobre e dependente do trabalho, percebe que está sendo utilizada para facilitar um adultério. Inicialmente, demonstra desconforto e resistência, pois teme participar de uma situação considerada imoral.
Brás procura convencê-la por meio de dinheiro e promessas de estabilidade. Aos poucos, Dona Plácida aceita a função. O protagonista interpreta sua colaboração como se estivesse prestando um favor à mulher, pois lhe oferece uma casa e alguma segurança financeira. Essa justificativa revela a capacidade de Brás de transformar seus próprios interesses em supostos atos de generosidade.
A trajetória de Dona Plácida mostra como a pobreza limita a liberdade de escolha. Brás e Virgília possuem dinheiro suficiente para organizar encontros clandestinos, enquanto Dona Plácida precisa abandonar suas convicções para sobreviver. Machado evidencia que a moralidade não é aplicada da mesma forma a todas as classes: os ricos cometem transgressões e preservam sua reputação, enquanto os pobres assumem os riscos e as consequências.
A gravidez de Virgília
Durante o relacionamento, Virgília engravida. Brás imagina que a criança possa ser sua e começa a fantasiar uma vida como pai. Pela primeira vez, parece considerar a possibilidade de estabelecer um vínculo que ultrapasse os encontros secretos.
Entretanto, a gravidez não chega ao fim. Virgília sofre a perda da criança, e os projetos imaginados por Brás desaparecem. A reação do protagonista demonstra que mesmo seus sentimentos mais intensos são instáveis. Ele sofre, mas logo retorna às preocupações habituais.
A perda também antecipa a ausência de descendentes que será mencionada no final do romance. Brás Cubas não constrói família, não deixa filhos e não estabelece uma continuidade concreta para sua existência.
As suspeitas de Lobo Neves
O relacionamento começa a enfrentar riscos quando Lobo Neves recebe informações anônimas sobre a possível traição. Ele passa a observar o comportamento de Virgília e de Brás com maior atenção. O medo de serem descobertos altera a relação dos amantes, que precisam agir com mais cautela.
Lobo Neves chega a surpreender situações suspeitas, mas não encontra uma prova definitiva ou evita aprofundar o conflito. Seu comportamento está relacionado à preocupação com a imagem pública. Um escândalo conjugal poderia prejudicar sua carreira política e revelar que ele não possui controle sobre a própria casa.
Quando recebe uma nomeação que exige a mudança da família, Lobo Neves aceita o cargo e parte com Virgília. A distância encerra gradualmente o relacionamento. Embora Brás tenha considerado aquele amor uma das experiências mais importantes de sua vida, ele não toma nenhuma atitude para romper com as convenções e permanecer definitivamente com Virgília.
O reaparecimento de Quincas Borba
Em determinado momento, Brás encontra Quincas Borba vivendo como mendigo. O antigo colega está sujo, pobre e aparentemente desequilibrado. Durante o encontro, Quincas furta o relógio de Brás, demonstrando a situação extrema em que se encontra.
Algum tempo depois, Quincas recebe uma herança e volta a procurar Brás. Agora vestido de maneira elegante, devolve-lhe o relógio e apresenta uma filosofia criada por ele: o Humanitismo. Segundo essa teoria, existe uma força universal chamada Humanitas, da qual todos os indivíduos fariam parte.
O Humanitismo procura explicar e justificar conflitos, guerras, desigualdades e sofrimentos. Se dois grupos disputam alimentos e apenas um deles vence, a vitória seria uma manifestação de Humanitas. Desse raciocínio surge a famosa lógica de que os vencedores ficam com as batatas, enquanto os derrotados desaparecem.
Machado utiliza essa filosofia como uma paródia dos sistemas científicos e filosóficos do século XIX que tentavam explicar a sociedade por meio de leis universais. O Humanitismo também funciona como uma crítica às teorias utilizadas para justificar a dominação dos mais fortes sobre os mais fracos.
Quincas Borba apresenta suas ideias como se fossem extremamente racionais, mas seu comportamento demonstra um processo crescente de loucura. Ao final de sua trajetória, perde completamente o equilíbrio mental e morre. Sua filosofia será retomada por Machado de Assis em outro romance, também intitulado Quincas Borba.
Prudêncio e a reprodução da violência
Anos depois da infância, Brás Cubas encontra Prudêncio, que havia conquistado a liberdade. O protagonista presencia uma cena perturbadora: Prudêncio espanca uma pessoa escravizada que agora lhe pertence. Ele utiliza contra o outro homem as mesmas formas de violência que sofreu quando era escravizado pela família Cubas.
Brás observa a situação e conclui que Prudêncio estaria descontando na nova vítima as humilhações recebidas no passado. No entanto, o narrador não assume responsabilidade por ter participado dessa violência. Ele analisa o comportamento de Prudêncio como uma curiosidade psicológica, mantendo-se distante das consequências de seus próprios atos.
A cena não procura responsabilizar apenas Prudêncio. Machado mostra como um sistema violento pode ser reproduzido até mesmo por aqueles que foram vítimas dele. Ao conquistar alguma posição de poder, Prudêncio repete o modelo de dominação que aprendeu. A escravidão aparece, portanto, não apenas como uma instituição econômica, mas como uma estrutura capaz de deformar as relações humanas.
Os episódios do dinheiro encontrado
Em diferentes momentos, Brás Cubas encontra objetos de valor e utiliza essas situações para avaliar a própria moralidade. Ao encontrar uma moeda, realiza a devolução e sente-se satisfeito com a imagem de honestidade que construiu para si mesmo. Posteriormente, encontra uma quantia maior e passa a criar justificativas para permanecer com o dinheiro.
Esses episódios revelam que sua moral depende das circunstâncias. Brás gosta de realizar boas ações quando elas fortalecem sua reputação, mas age de maneira diferente quando acredita que não será observado. Machado desmonta a ideia de que a elite possui uma superioridade moral natural.
O protagonista raramente se considera uma pessoa má. Em vez disso, procura transformar seus interesses em argumentos razoáveis. Essa característica faz dele um narrador complexo: ele revela seus defeitos, mas nem sempre compreende plenamente a gravidade de suas ações.
A possível união com Nhã-loló
Depois do fim do relacionamento com Virgília, Sabina procura aproximar Brás de Nhã-loló, jovem pertencente a uma família de posição social inferior. Brás considera a possibilidade de casamento, mas observa a moça de maneira condescendente.
Ele reconhece sua beleza e sua juventude, porém acredita que precisaria educá-la e modificar seus comportamentos para que ela pudesse circular adequadamente entre as pessoas de sua classe. Mais uma vez, o protagonista não estabelece uma relação baseada na igualdade. Ele imagina a companheira como alguém que deveria ser moldada de acordo com seus desejos.
O possível casamento nunca se realiza. Nhã-loló contrai febre amarela e morre ainda muito jovem. Sua morte encerra outra possibilidade de Brás construir uma família. O episódio também recorda a fragilidade da vida em uma sociedade frequentemente atingida por epidemias.
A carreira política fracassada
Brás Cubas tenta ingressar na política, seguindo o projeto anteriormente idealizado por seu pai. Consegue ocupar uma posição parlamentar, mas não realiza nada de grande importância. Seu principal desejo é alcançar prestígio, tornar-se ministro e receber reconhecimento público.
Durante sua atuação, envolve-se em discussões superficiais e apresenta propostas pouco relevantes. Sua passagem pela política não nasce de um compromisso com a população ou com a transformação social. Assim como o emplasto e o possível casamento com Virgília, a carreira pública é vista como um instrumento para engrandecer o nome de Brás Cubas.
O protagonista não consegue chegar ao ministério e encerra a experiência política sem deixar qualquer contribuição significativa. A frustração demonstra a distância entre suas ambições e sua capacidade de agir. Brás deseja os resultados do sucesso, mas não está disposto a realizar o esforço necessário para alcançá-los.
A velhice e a ideia do emplasto Brás Cubas
Com o passar dos anos, Brás Cubas permanece solteiro, rico e sem uma ocupação verdadeiramente produtiva. A ideia do emplasto surge como sua última tentativa de alcançar fama. O medicamento seria destinado a combater a melancolia e aliviar o sofrimento humano.
A apresentação humanitária do projeto esconde uma motivação vaidosa. Brás imagina seu nome divulgado, pronunciado e lembrado pelas gerações futuras. Mais do que curar pessoas, deseja escapar do anonimato e dar algum significado à própria existência.
Enquanto trabalha na invenção, deixa uma janela aberta, adoece e desenvolve uma pneumonia. O projeto que deveria garantir sua imortalidade simbólica acaba contribuindo para sua morte física. A ironia final reforça o fracasso de suas grandes ambições.
O reencontro final com Virgília
Durante a doença, Virgília visita Brás Cubas. Os dois já estão envelhecidos, e o relacionamento pertence ao passado. A cena não recupera a intensidade dos encontros secretos, mas revela que alguma forma de afeto permaneceu.
Virgília está acompanhada do filho, enquanto Brás continua sem descendentes. O contraste evidencia os caminhos diferentes seguidos pelos dois. Ela preservou o casamento, a posição social e a família. Brás, por sua vez, encerra a vida cercado de lembranças, projetos incompletos e ambições frustradas.
Depois da visita, sua condição piora. O protagonista morre sem concluir o emplasto e sem realizar os grandes feitos que imaginou para si mesmo.
O final explicado
Ao encerrar suas memórias, Brás Cubas realiza uma espécie de balanço da própria existência. Ele reconhece que não se tornou ministro, não concluiu o emplasto, não se casou e não alcançou a celebridade que desejava. Sua vida foi marcada por projetos interrompidos, relações incompletas e oportunidades desperdiçadas.
Mesmo assim, procura identificar uma vantagem. Como não teve filhos, acredita não ter transmitido a nenhuma outra pessoa a miséria da existência humana. Essa conclusão é profundamente pessimista. Em vez de lamentar a ausência de descendentes, Brás considera que poupou alguém do sofrimento de viver.
O encerramento também confirma o caráter egoísta do protagonista. Ele avalia toda a existência a partir de ganhos e perdas pessoais, como se estivesse calculando o saldo de uma transação. Não demonstra arrependimento verdadeiro por Eugênia, Dona Plácida, Prudêncio ou pelas demais pessoas afetadas por suas escolhas.
Brás Cubas morre sem construir uma obra, uma família, uma carreira significativa ou um vínculo duradouro. Possuiu dinheiro e liberdade, mas utilizou essas condições principalmente para satisfazer desejos imediatos. O maior fracasso do personagem não está em ter perdido oportunidades externas, mas em nunca ter superado o egoísmo que orientou sua vida.
Os principais temas da obra
A vaidade humana
A vaidade é uma das forças que mais influenciam Brás Cubas. Ele deseja casar-se, tornar-se político e criar um medicamento porque busca reconhecimento. Mesmo quando afirma agir em benefício da humanidade, esconde intenções pessoais.
A hipocrisia social
As personagens procuram manter uma aparência de moralidade, ainda que suas ações revelem interesses egoístas. Virgília mantém o casamento enquanto vive um relacionamento extraconjugal; Cotrim é considerado respeitável apesar de sua ligação com a violência escravista; Brás apresenta-se como benfeitor enquanto utiliza Dona Plácida para proteger seu romance.
A escravidão
A escravidão aparece em episódios como a infância de Prudêncio e sua vida posterior. Machado mostra que a violência escravista contamina toda a sociedade e interfere até mesmo na formação das crianças das famílias ricas.
O privilégio de classe
Brás Cubas vive sem trabalhar porque pertence a uma família rica. Sua posição permite que cometa erros, abandone projetos e utilize outras pessoas sem enfrentar consequências graves. Eugênia e Dona Plácida, ao contrário, possuem suas possibilidades limitadas pela pobreza e pela origem social.
O amor e o interesse
As relações amorosas estão frequentemente associadas ao dinheiro, ao prestígio ou à conveniência. Marcela depende dos presentes de Brás; Virgília escolhe Lobo Neves pela carreira política; Brás abandona Eugênia por preconceito e considera Nhã-loló alguém que precisaria ser socialmente transformada.
O pessimismo
O romance apresenta uma visão desencantada da humanidade. As pessoas são conduzidas pela ambição, pelo desejo de reconhecimento e pela disputa por vantagens. O final reforça a ideia de que a existência humana produz mais sofrimento do que realização.
A morte
A morte não aparece apenas no desfecho, mas organiza toda a narrativa. Como Brás já está morto, pode observar sua vida de uma posição externa. Ao mesmo tempo, as mortes da mãe, do pai, de Nhã-loló e de Quincas Borba recordam constantemente a fragilidade dos projetos humanos.
Os conflitos sociais e psicológicos
O principal conflito psicológico de Brás Cubas ocorre entre seus desejos e sua incapacidade de assumir responsabilidades. Ele deseja Virgília, mas não enfrenta Lobo Neves; sente-se atraído por Eugênia, mas não supera o preconceito; quer prestígio político, mas não possui disciplina; pretende beneficiar a humanidade, mas pensa primeiro na própria fama.
Socialmente, o romance apresenta o conflito entre aparência e realidade. A elite se considera civilizada, religiosa e moralmente superior, mas mantém sua riqueza por meio da escravidão, do favorecimento político e da utilização dos mais pobres. A sociedade exige respeito às convenções públicas, mas tolera comportamentos condenáveis desde que não provoquem escândalo.
Narrador e foco narrativo
Brás Cubas é um narrador-personagem que conta a própria vida depois da morte. Como participa dos acontecimentos e apresenta sua versão pessoal, não pode ser considerado completamente confiável. Ele seleciona aquilo que deseja narrar, interrompe episódios, conversa com o leitor e modifica o ritmo da narrativa conforme sua conveniência.
O fato de confessar defeitos não significa que seja totalmente sincero. Muitas vezes, utiliza a ironia para suavizar suas ações ou transformar crueldades em episódios aparentemente engraçados. O leitor precisa interpretar aquilo que o narrador não percebe ou não deseja admitir.
Essa construção torna o romance especialmente moderno. Machado não entrega uma verdade pronta, mas convida o leitor a desconfiar da voz narrativa. A compreensão da obra depende da capacidade de perceber as contradições entre o discurso de Brás e os efeitos de suas atitudes.
Tempo e estrutura narrativa
O tempo da narrativa não é linear. O livro começa com a morte de Brás, retorna à infância, avança para a juventude e frequentemente interrompe a sequência para apresentar comentários, reflexões ou antecipações.
Essa fragmentação reproduz o funcionamento da memória. Quando recordamos o passado, nem sempre seguimos uma ordem exata. Uma lembrança pode conduzir a outra, e determinados acontecimentos recebem mais atenção do que outros.
Os 160 capítulos são geralmente curtos. Alguns possuem apenas poucas palavras ou uma organização visual incomum. Essa estrutura rompe com o modelo tradicional dos romances do século XIX e transforma o próprio ato de narrar em parte do conteúdo da obra.
Espaço
O principal espaço do romance é o Rio de Janeiro durante o Segundo Reinado. A cidade aparece por meio das casas da elite, das propriedades familiares, dos salões, das ruas e dos espaços políticos.
A Europa, especialmente Coimbra, representa a formação cultural valorizada pelas famílias brasileiras ricas. No entanto, a viagem não transforma Brás em um intelectual ou profissional comprometido.
Os espaços também revelam diferenças sociais. Enquanto Brás circula por propriedades confortáveis, pessoas como Dona Plácida vivem sob constante insegurança econômica. A casa utilizada nos encontros com Virgília simboliza a tentativa da elite de esconder seus comportamentos por trás das aparências.
Linguagem e estilo
Machado de Assis utiliza uma linguagem irônica, reflexiva e frequentemente ambígua. Brás conversa diretamente com o leitor, antecipa possíveis críticas e comenta a própria maneira de escrever. Esse procedimento recebe o nome de metalinguagem, pois a narrativa reflete sobre sua própria construção.
O humor machadiano não depende apenas de situações engraçadas. Ele nasce principalmente da contradição entre o que as personagens afirmam e aquilo que suas ações revelam. Quando Brás tenta apresentar uma atitude egoísta como gesto generoso, o leitor percebe a ironia.
Outra característica importante é a concisão dos capítulos. Machado evita longas descrições e concentra sua atenção nos movimentos psicológicos, nas relações sociais e nas contradições humanas. A linguagem exige participação ativa do leitor, que precisa perceber sentidos indiretos e questionar o narrador.
Características do Realismo presentes na obra
Memórias Póstumas de Brás Cubas rompe com a idealização romântica ao apresentar personagens imperfeitas, relações amorosas baseadas em interesses e uma sociedade marcada pela hipocrisia. Brás Cubas não é um herói. Ele é um homem comum de sua classe, cheio de defeitos e incapaz de realizar algo realmente significativo.
A análise psicológica é outra característica realista. Machado investiga as motivações escondidas por trás das ações, mostrando como vaidade, egoísmo, ambição e medo do julgamento social influenciam as personagens.
A crítica às instituições também está presente. Família, casamento, política, religião e prestígio social são apresentados como estruturas frequentemente dominadas por interesses particulares.
A objetividade realista, contudo, assume uma forma particular em Machado. Em vez de construir descrições extensas e cientificistas, como ocorre no Naturalismo, o autor privilegia a ironia, a ambiguidade e a análise interior.
Memórias Póstumas de Brás Cubas e a ruptura com o Romantismo
Nos romances românticos, o amor costuma ser apresentado como uma força grandiosa, capaz de superar obstáculos sociais. Na obra machadiana, o amor está condicionado pelo dinheiro, pela classe e pela ambição. Brás abandona Eugênia, Virgília escolhe Lobo Neves por conveniência e Marcela mantém a relação enquanto recebe benefícios.
O protagonista romântico também costuma possuir qualidades excepcionais. Brás Cubas, ao contrário, é medíocre, improdutivo e moralmente frágil. A narrativa não procura criar admiração pelo personagem, mas revelar suas contradições.
O final também rejeita a ideia romântica de realização. Não existe casamento reparador, transformação moral ou recompensa. Brás termina sua vida reconhecendo que não deixou realizações importantes.
Como a obra pode aparecer no vestibular
Nos vestibulares, Memórias Póstumas de Brás Cubas pode ser cobrado por meio da interpretação de fragmentos, da análise do narrador, da identificação da ironia e da relação entre a obra e o Realismo. O estudante deve compreender que Brás Cubas não é uma voz neutra e que muitas críticas aparecem justamente nas contradições de seu discurso.
Também são frequentes questões sobre a expressão defunto autor, a estrutura fragmentada, a ruptura da linearidade, a metalinguagem e a conversa direta com o leitor.
Os examinadores podem pedir a análise de episódios específicos, como a relação com Eugênia, a exploração de Dona Plácida, a violência contra Prudêncio, a filosofia de Quincas Borba ou a criação do emplasto.
Outra possibilidade é a comparação com outras obras de Machado de Assis. Em Dom Casmurro, por exemplo, também existe um narrador-personagem cuja versão precisa ser questionada. Em Quincas Borba, o Humanitismo reaparece e ganha maior importância.
A relação entre literatura e sociedade também merece atenção. O romance revela a estrutura escravocrata, a ociosidade da elite, a busca por cargos públicos e a desigualdade entre homens e mulheres de diferentes classes.
Pontos fundamentais para memorizar
Para revisar a obra antes da prova, lembre-se de que Brás Cubas narra sua vida depois de morto; pertence à elite escravocrata; vive sem trabalhar; mantém um relacionamento com Virgília, mulher casada; abandona Eugênia por preconceito; utiliza Dona Plácida para esconder o adultério; tenta seguir carreira política; deseja criar um emplasto para conquistar fama; e morre sem concluir seus principais projetos.
Também é essencial compreender que o romance não oferece apenas a história de um indivíduo. A vida fracassada de Brás Cubas funciona como uma representação crítica de toda uma classe social marcada pelo privilégio, pela vaidade e pela ausência de responsabilidade.
Questões de revisão
1. Por que Brás Cubas se apresenta como um “defunto autor”?
2. Qual é a verdadeira motivação de Brás para criar o emplasto?
3. Como a infância do protagonista contribui para a formação de sua personalidade?
4. Por que Brás Cubas abandona a possibilidade de se relacionar com Eugênia?
5. O que a escolha de Virgília por Lobo Neves revela sobre o casamento naquela sociedade?
6. Qual é a função de Dona Plácida no relacionamento entre Brás e Virgília?
7. Como o episódio de Prudêncio contribui para a crítica à escravidão?
8. O que é o Humanitismo e por que essa filosofia possui um caráter irônico?
9. Por que Brás Cubas pode ser considerado um narrador pouco confiável?
10. Qual é o significado da conclusão apresentada pelo narrador no final do romance?
Respostas das questões de revisão
1. Porque ele escreve suas memórias depois de morrer. Sua condição de morto permite que narre os acontecimentos sem se preocupar diretamente com as consequências sociais.
2. Embora afirme desejar curar a melancolia humana, Brás pretende principalmente alcançar fama e tornar seu nome conhecido.
3. Brás cresce mimado, protegido e autorizado a maltratar outras pessoas. A ausência de limites fortalece seu egoísmo e sua sensação de superioridade.
4. Porque Eugênia possui uma deficiência física e não pertence a uma família rica. Brás permite que o preconceito e a preocupação com o status sejam mais fortes do que a atração que sente.
5. Revela que o casamento era frequentemente tratado como instrumento de ascensão social e política, e não apenas como resultado do amor.
6. Dona Plácida cuida da casa utilizada pelos amantes e ajuda a esconder o adultério. Sua participação é conseguida por meio da dependência econômica.
7. O episódio mostra a violência sofrida por Prudêncio durante a infância e sua posterior reprodução contra outra pessoa escravizada, revelando como o sistema escravista deformava as relações sociais.
8. O Humanitismo é a filosofia criada por Quincas Borba para explicar e justificar disputas e desigualdades. Seu caráter irônico está no fato de transformar a violência e a vitória dos mais fortes em manifestações supostamente racionais e naturais.
9. Porque Brás apresenta sua própria versão, procura justificar ações egoístas e nem sempre compreende ou admite a gravidade de seu comportamento.
10. Ao afirmar que não teve filhos e não transmitiu a ninguém a miséria humana, Brás encerra o romance com uma visão pessimista da vida e confirma o fracasso de sua existência.
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Compreender uma obra literária exige mais do que memorizar nomes de personagens e acontecimentos. É necessário perceber como o narrador constrói sua versão, como os conflitos dialogam com o contexto histórico e como a linguagem transforma uma história particular em uma reflexão sobre a sociedade. Memórias Póstumas de Brás Cubas permanece atual justamente porque nos convida a desconfiar das aparências e a observar os interesses escondidos por trás dos discursos.
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