Ontem, o mundo parecia falar apenas de amor. As vitrines exibiam corações, as redes sociais se enchiam de fotografias, e os restaurantes recebiam casais que celebravam a sorte de estarem lado a lado. Hoje, porém, é o dia seguinte. E, para quem namora à distância, como eu, o dia seguinte tem um sabor diferente, uma espécie de silêncio que permanece depois que a festa termina.
Namorar à distância é aprender que o amor não mora apenas na presença física. Ele se instala nas mensagens de bom-dia, nos áudios enviados às pressas durante o trabalho, nas chamadas de vídeo que tentam encurtar quilômetros. Enquanto muitos medem o amor pela proximidade dos corpos, quem vive distante aprende a medi-lo pela persistência dos gestos.
O Dia dos Namorados costuma ser particularmente difícil para esses casais. Não porque falte amor, mas porque sobra saudade. Há presentes que chegam pelos correios, flores entregues por terceiros e jantares compartilhados através de uma tela iluminada. Tudo isso é bonito, mas também lembra que existe um abraço adiado esperando por uma data futura.
No dia seguinte, a rotina retorna. O despertador toca, o trabalho chama, as obrigações reaparecem. Contudo, algo permanece. A conversa da noite anterior, a fotografia recebida, a promessa de um encontro próximo. O amor à distância vive muito mais de expectativas do que de lembranças. Ele se alimenta daquilo que ainda virá.
Existe uma coragem silenciosa nesses relacionamentos. É preciso confiar quando não se vê, acreditar quando não se toca e permanecer quando seria mais fácil desistir. Em tempos de gratificação imediata, amar alguém que está longe exige uma paciência quase artesanal, como quem constrói algo valioso peça por peça.
Talvez por isso o dia depois do Dia dos Namorados seja tão simbólico. Ontem foi a celebração. Hoje é a prova. Ontem houve declarações públicas. Hoje existem apenas duas pessoas decidindo continuar. E, muitas vezes, é justamente nesse dia comum que o amor demonstra sua verdadeira força.
Hoje acordei pensando nisso. Enquanto muitos guardavam flores já murchando ou caixas vazias de chocolate, imaginei os casais separados pela distância enviando a primeira mensagem da manhã, como eu, por exemplo, que namoro à distância. Não houve restaurantes, presentes ou fotografias perfeitas. Houve apenas uma frase simples atravessando cidades, estados ou países: “Bom dia, amor”, “Feliz dia dos namorados”. E, de repente, percebi que alguns amores não terminam quando a comemoração acaba. Eles começam novamente, todos os dias.
