Revisão Monstro — ENEM em 77 dias
Dia 61 — 22 de outubro de 2026 — Quinta-feira — Temas de Redação
Proposta de Redação no estilo ENEM

Olá amigos e alunos do blog A Escola Literária! Chegamos ao Dia 61 da nossa Revisão Monstro — ENEM em 77 dias e, nesta quinta-feira, vamos trabalhar um tema extremamente contemporâneo e diretamente ligado ao cotidiano de estudantes e professores: os impactos da inteligência artificial na educação brasileira. Ferramentas capazes de produzir textos, resumir conteúdos, explicar conceitos, criar exercícios, traduzir informações e responder perguntas já fazem parte da rotina de muitos estudantes, o que transforma a discussão sobre inteligência artificial em uma questão educacional concreta, e não apenas tecnológica.

O tema exige cuidado justamente porque não pode ser tratado por meio de uma oposição simplista entre “inteligência artificial boa” e “inteligência artificial ruim”. A mesma tecnologia que pode ajudar um estudante a compreender determinado conteúdo também pode ser utilizada para produzir trabalhos sem aprendizagem real; o mesmo sistema que pode auxiliar professores no planejamento pode ampliar desigualdades quando parte dos alunos não possui acesso adequado à internet e aos dispositivos necessários. Uma boa Redação precisará reconhecer essas contradições e discutir como aproveitar benefícios da IA sem permitir que seu uso prejudique autonomia intelectual, equidade educacional e formação crítica.

A aula de ontem sobre conclusão e proposta de intervenção será especialmente importante hoje. Não basta diagnosticar riscos e terminar dizendo que “é preciso utilizar a tecnologia com responsabilidade”, porque esse tipo de formulação continua genérico demais. Precisaremos construir intervenções capazes de indicar quem deve agir, o que deve fazer, por quais meios, com qual finalidade e com que detalhamento, sempre mantendo relação direta com os problemas desenvolvidos ao longo do texto.

Faltam 17 dias para o ENEM

Hoje, 22 de outubro de 2026, faltam apenas 17 dias para o primeiro dia do ENEM, o que significa que nossas propostas de Redação precisam se aproximar cada vez mais de uma situação real de prova. A essa altura, você já conhece os principais componentes do texto dissertativo-argumentativo e precisa conseguir organizá-los dentro de um tempo limitado, escolhendo rapidamente uma tese, dois argumentos, repertórios produtivos e uma intervenção coerente.

O tema de hoje é particularmente adequado para esse treinamento porque possui muitas possibilidades de abordagem. Podemos discutir personalização da aprendizagem, formação docente, desigualdade digital, plágio, dependência tecnológica, privacidade, avaliação escolar e desenvolvimento do pensamento crítico. Justamente por existirem tantos caminhos, será necessário selecionar somente aqueles que conseguirmos desenvolver com profundidade. Uma boa Redação não tenta falar sobre tudo; ela escolhe um recorte e o sustenta até o final.

Afinal, o que entendemos por inteligência artificial na educação?

Quando falamos em inteligência artificial no contexto educacional, estamos nos referindo a sistemas capazes de realizar tarefas associadas à análise de informações, geração de conteúdos, reconhecimento de padrões e produção de respostas a partir de grandes conjuntos de dados. Isso inclui ferramentas que podem resumir textos, criar exercícios, fornecer explicações personalizadas, auxiliar na correção de atividades, sugerir planos de estudo e apoiar professores em tarefas administrativas e pedagógicas.

Nos últimos anos, a chamada IA generativa tornou esse debate ainda mais intenso porque passou a permitir que qualquer usuário produza rapidamente textos, imagens, áudios, códigos e diferentes tipos de conteúdo. Para estudantes, isso significa acesso a uma ferramenta capaz de responder dúvidas em poucos segundos; para professores, significa também a necessidade de repensar atividades que antes poderiam ser avaliadas apenas pelo produto final entregue pelo aluno. A questão central deixa de ser simplesmente impedir o uso e passa a envolver como ensinar a utilizar essas ferramentas de maneira consciente, ética e intelectualmente produtiva.

A inteligência artificial pode ajudar na aprendizagem

Uma das grandes possibilidades da IA está na personalização do estudo. Um estudante que não compreendeu determinado conteúdo pode pedir outra explicação, solicitar exemplos adicionais, receber exercícios com diferentes níveis de dificuldade e revisar um assunto quantas vezes considerar necessário. Esse tipo de apoio pode complementar o trabalho escolar e oferecer novas oportunidades de aprendizagem, especialmente quando o aluno utiliza a ferramenta para investigar, perguntar e comparar informações.

A tecnologia também pode ser útil para estudantes com diferentes necessidades educacionais. Recursos de transcrição, leitura em voz alta, tradução, simplificação linguística e adaptação de materiais podem ampliar o acesso a conteúdos quando utilizados de forma adequada. Nesse sentido, a inteligência artificial pode contribuir para uma educação mais inclusiva, desde que não substitua políticas de acessibilidade, professores especializados e atendimento humano. Tecnologia pode ampliar possibilidades, mas não elimina a necessidade de estruturas educacionais bem organizadas.

A IA também pode apoiar o professor

O debate sobre inteligência artificial na educação costuma concentrar-se muito no estudante, mas os professores também podem utilizar essas ferramentas em diferentes atividades. Planejamento de aulas, criação de exercícios, elaboração inicial de rubricas, adaptação de textos, organização de ideias e preparação de materiais são exemplos de tarefas em que sistemas digitais podem funcionar como apoio. Isso pode reduzir parte do tempo dedicado a atividades repetitivas e permitir que o profissional concentre mais atenção em aspectos pedagógicos e no acompanhamento dos alunos.

Entretanto, qualquer material produzido por IA precisa ser revisado pelo professor. Sistemas podem gerar informações incorretas, exemplos inadequados, referências inexistentes ou explicações insuficientes, e a responsabilidade pedagógica continua pertencendo ao profissional. A ferramenta pode auxiliar o planejamento, mas não possui conhecimento direto daquela turma, da realidade social dos estudantes ou das necessidades específicas de cada aluno. Por isso, falar em inteligência artificial na educação não significa imaginar uma escola sem professores, mas discutir como professores podem utilizar novas ferramentas sem perder autonomia profissional e responsabilidade pedagógica.

O risco de substituir aprendizagem por resposta pronta

Aqui começa um dos problemas mais importantes para nossa proposta. Se um estudante utiliza a IA para pedir uma explicação e depois compara a resposta com aquilo que estudou, a tecnologia pode contribuir para a aprendizagem. Se, ao contrário, solicita que a ferramenta realize integralmente um trabalho, copia o resultado e entrega sem sequer compreender aquilo que está escrito, o produto escolar existe, mas a aprendizagem pode não ter acontecido.

Esse problema obriga escolas e professores a repensarem aquilo que está sendo avaliado. Uma atividade baseada exclusivamente em produzir um texto fora da sala pode tornar-se pouco eficiente se o professor não consegue saber quanto daquele processo foi realmente desenvolvido pelo estudante. Avaliações orais, produção acompanhada em sala, defesa de ideias, rascunhos e atividades que exigem reflexão sobre o próprio processo podem ganhar importância justamente porque permitem observar como o aluno pensa, e não apenas aquilo que foi entregue no final.

A diferença entre usar uma ferramenta e terceirizar o pensamento

Essa distinção pode organizar um excelente argumento. Utilizar calculadora não significa automaticamente deixar de compreender Matemática, assim como consultar um dicionário não elimina o aprendizado de uma língua. O problema aparece quando a ferramenta deixa de apoiar uma atividade intelectual e começa a substituir completamente a própria atividade.

Na escrita, por exemplo, existe uma diferença enorme entre pedir sugestões para melhorar determinado parágrafo e solicitar a produção integral de uma redação que será apresentada como própria. No primeiro caso, o aluno pode utilizar a ferramenta como apoio para revisar escolhas; no segundo, corre o risco de não desenvolver planejamento, argumentação, coesão e domínio linguístico. Portanto, a discussão sobre IA não deveria limitar-se à pergunta “pode usar ou não?”, mas avançar para “em que situações seu uso contribui para aprender e em quais situações passa a substituir aquilo que deveria ser aprendido?”.

Plágio e autoria ganham novas dimensões

A chegada da inteligência artificial também modifica a discussão sobre autoria. Durante muito tempo, uma preocupação central era verificar se o estudante havia copiado trechos de outro autor. Com sistemas generativos, pode surgir um texto novo que não corresponde literalmente a uma fonte anterior, mas que também não foi realmente produzido pelo aluno que o entrega.

Isso exige uma educação mais aprofundada sobre ética acadêmica. Estudantes precisam compreender que autoria não significa apenas evitar copiar palavras de outra pessoa, mas assumir responsabilidade intelectual pelo conteúdo apresentado. Se uma ferramenta contribuiu significativamente para determinada produção, escolas e universidades precisam estabelecer critérios claros sobre quando e como esse uso deve ser informado. Regras transparentes podem ser muito mais educativas do que simplesmente fingir que a tecnologia não existe.

Pensamento crítico se torna ainda mais importante

Existe uma tendência equivocada de imaginar que, quanto mais avançada uma tecnologia se torna, menos conhecimento o usuário precisa possuir. Na realidade, pode acontecer justamente o contrário. Para perceber que uma resposta gerada por IA contém um erro histórico, uma interpretação problemática ou uma informação inventada, o estudante precisa possuir repertório suficiente para desconfiar e verificar.

Por isso, a educação não perde importância diante da inteligência artificial. Ela se torna ainda mais necessária. Um estudante capaz de comparar fontes, analisar argumentos, reconhecer inconsistências e formular perguntas de qualidade utilizará a ferramenta de maneira muito mais produtiva do que alguém que simplesmente aceita qualquer resposta recebida. A IA pode produzir informações rapidamente, mas a capacidade de decidir se essas informações são relevantes, corretas e coerentes continua dependendo de formação humana.

O problema das informações incorretas

Sistemas de inteligência artificial podem produzir respostas linguisticamente convincentes mesmo quando o conteúdo apresenta erros. Isso é particularmente perigoso no ambiente educacional porque a forma segura e organizada de uma resposta pode criar a impressão de que determinada informação está correta. Um aluno sem repertório suficiente pode simplesmente incorporar o erro ao estudo.

Esse risco reforça a necessidade de desenvolver competências de verificação. Comparar informações com livros didáticos, consultar fontes confiáveis, verificar autoria e buscar confirmação em diferentes materiais precisam tornar-se hábitos dentro da educação digital. Em vez de ensinar estudantes apenas a obter respostas, a escola precisa ensinar também a avaliar respostas, habilidade que será cada vez mais importante em ambientes marcados pela produção automatizada de conteúdo.

Inteligência artificial e desigualdade educacional

Outro eixo extremamente forte para a Redação envolve a desigualdade digital. Nem todos os estudantes brasileiros possuem acesso equivalente a computadores, internet de qualidade, dispositivos atualizados e versões avançadas de ferramentas tecnológicas. Isso significa que uma tecnologia capaz de ampliar oportunidades para alguns também pode aprofundar diferenças existentes entre estudantes.

Imagine duas escolas. Em uma delas, estudantes possuem equipamentos, conexão rápida, professores capacitados e orientação sobre uso crítico da IA; na outra, faltam computadores suficientes e a internet é instável. Mesmo que a mesma tecnologia esteja tecnicamente disponível no país, sua capacidade de produzir benefícios será completamente diferente. Sem políticas de inclusão digital, inovação educacional pode tornar-se mais um elemento de desigualdade.

O acesso não é apenas possuir um celular

Esse ponto merece atenção porque às vezes se afirma que a desigualdade digital estaria praticamente resolvida pelo grande número de celulares existentes. Entretanto, possuir um aparelho não significa necessariamente possuir condições adequadas para realizar todas as atividades educacionais. Tamanho da tela, franquia de dados, velocidade de conexão, armazenamento, qualidade do equipamento e disponibilidade de um espaço adequado para estudar podem interferir enormemente na experiência.

A inclusão digital precisa considerar a qualidade do acesso e não apenas sua existência formal. Uma política educacional baseada intensamente em recursos digitais deve garantir infraestrutura nas escolas, conectividade e dispositivos adequados, além de formação para estudantes e profissionais. Caso contrário, a tecnologia pode beneficiar justamente aqueles que já possuem melhores condições educacionais e deixar ainda mais distante quem enfrenta maiores dificuldades.

Formação docente é indispensável

Professores não podem ser colocados diante de uma transformação tecnológica dessa magnitude sem formação específica. Muitos profissionais precisam compreender como funcionam ferramentas generativas, quais são seus limites, que riscos apresentam e de que maneiras podem ser incorporadas pedagogicamente. Isso não significa transformar todo professor em especialista em computação, mas oferecer conhecimento suficiente para que ele tome decisões pedagógicas conscientes.

A formação também precisa discutir avaliação. Se atividades tradicionais podem ser realizadas automaticamente por ferramentas digitais, talvez seja necessário repensar parte das propostas pedagógicas. O desafio não é elaborar exercícios impossíveis para uma IA, mas criar experiências que exijam participação intelectual do estudante, diálogo, argumentação, produção gradual e relação com contextos específicos. A tecnologia pode mudar os instrumentos, mas o objetivo continua sendo aprendizagem.

A IA não conhece o aluno como o professor conhece

Mesmo sistemas capazes de personalizar respostas trabalham a partir de dados e padrões. O professor, por outro lado, acompanha a trajetória concreta de uma turma, percebe inseguranças, mudanças de comportamento, relações entre estudantes e dificuldades que nem sempre aparecem numa plataforma. Essa dimensão humana permanece fundamental.

Ensinar não consiste apenas em transmitir respostas. Envolve motivar, observar, organizar experiências, mediar conflitos, reconhecer contextos e ajustar decisões pedagógicas. Uma ferramenta pode sugerir uma explicação alternativa sobre concordância verbal, mas não substitui toda a relação educativa construída entre professor e estudante. O debate mais produtivo não é IA contra professor, mas como professores podem utilizar IA sem permitir que a educação seja reduzida à interação com sistemas automatizados.

Privacidade e proteção de dados

Outra dimensão importante envolve os dados fornecidos pelos usuários. Estudantes podem inserir textos pessoais, trabalhos escolares, informações sobre dificuldades de aprendizagem e outros conteúdos em ferramentas digitais sem compreender exatamente como essas informações serão processadas. Em ambientes escolares, essa preocupação se torna ainda maior quando envolve crianças e adolescentes.

Instituições de ensino precisam desenvolver regras claras sobre utilização de plataformas e proteção de dados. Antes de adotar determinada ferramenta, é necessário avaliar quais informações são coletadas, como são armazenadas e para que podem ser utilizadas. Educação digital precisa incluir não apenas habilidades técnicas, mas também consciência sobre privacidade, segurança e responsabilidade no compartilhamento de informações.

Dependência tecnológica também precisa ser discutida

Uma ferramenta muito eficiente pode produzir um comportamento de dependência quando o usuário deixa de tentar resolver problemas antes de solicitar uma resposta automática. Isso pode ocorrer em diferentes áreas, desde cálculos simples até produção textual e interpretação de textos. O risco não está simplesmente em utilizar tecnologia, mas em perder progressivamente autonomia diante dela.

A escola pode trabalhar justamente o equilíbrio. Em algumas atividades, a IA pode ser utilizada como objeto de análise ou apoio; em outras, o estudante precisa produzir sozinho para demonstrar aquilo que aprendeu. Essa alternância pode ajudar a preservar habilidades fundamentais enquanto desenvolve competência para utilizar novas ferramentas. Saber quando não utilizar uma tecnologia também faz parte da educação tecnológica.

A inteligência artificial pode ensinar a pensar?

Sozinha, provavelmente não. Uma ferramenta pode oferecer informações, perguntas, exemplos e feedback, mas pensamento crítico se desenvolve por meio da relação entre conhecimento, dúvida, análise e confronto entre perspectivas. O estudante precisa participar ativamente desse processo.

Entretanto, a IA pode ser utilizada para estimular pensamento quando o professor organiza atividades adequadas. Alunos podem comparar respostas produzidas por diferentes sistemas, localizar erros, reescrever argumentos, identificar vieses ou avaliar a qualidade das fontes apresentadas. Nesse caso, a tecnologia deixa de ser máquina de respostas e se transforma em objeto de investigação. A pergunta pedagógica muda de “o que a IA respondeu?” para “por que essa resposta merece ou não confiança?”.

SIMULADO DE REDAÇÃO ENEM

Tema: Impactos da inteligência artificial na educação brasileira

Os textos motivadores abaixo foram elaborados especialmente para esta proposta e apresentam diferentes dimensões da discussão. Eles não oferecem uma resposta pronta nem determinam o posicionamento que você deve adotar. Utilize-os como ponto de partida para construir um projeto autoral, selecionando os aspectos que considerar mais relevantes e relacionando-os aos conhecimentos adquiridos ao longo de sua formação.

TEXTO I — Novas possibilidades de aprendizagem

Ferramentas baseadas em inteligência artificial podem oferecer explicações personalizadas, elaborar exercícios e adaptar conteúdos às necessidades de diferentes estudantes. Quando utilizadas como apoio, essas tecnologias ampliam possibilidades de estudo e podem contribuir para que o aluno revise conteúdos em ritmos diferentes. Entretanto, sua eficiência pedagógica depende da maneira como são incorporadas à rotina escolar e da capacidade dos usuários de avaliar criticamente as respostas recebidas.

TEXTO II — Quando a ferramenta substitui a aprendizagem

A facilidade de produzir textos e respostas completas em poucos segundos cria um novo desafio para escolas e universidades. Se o estudante entrega uma atividade produzida integralmente por um sistema sem compreender o conteúdo, a tarefa pode ter sido concluída sem que a habilidade pretendida tenha sido desenvolvida. Esse cenário exige repensar formas de avaliação e discutir critérios de autoria, transparência e uso responsável das ferramentas digitais.

TEXTO III — Tecnologia e desigualdade

A incorporação de inteligência artificial à educação não ocorre em condições iguais. Enquanto alguns estudantes possuem internet rápida, dispositivos adequados e orientação especializada, outros ainda enfrentam dificuldades de conectividade ou dependem exclusivamente de equipamentos compartilhados. Nesse contexto, a expansão das ferramentas pode contribuir para a aprendizagem, mas também corre o risco de aprofundar desigualdades educacionais já existentes.

TEXTO IV — O professor diante da inteligência artificial

A presença de sistemas generativos modifica algumas tarefas educacionais, mas não elimina a necessidade de mediação docente. Professores continuam responsáveis por organizar experiências de aprendizagem, avaliar processos, contextualizar informações e acompanhar estudantes. Para desempenhar esse papel em um ambiente tecnológico em transformação, porém, precisam receber formação que lhes permita compreender possibilidades, limitações e implicações éticas dessas ferramentas.

PROPOSTA DE REDAÇÃO

A partir da leitura dos textos motivadores e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, produza um texto dissertativo-argumentativo em modalidade escrita formal da Língua Portuguesa sobre o tema “Impactos da inteligência artificial na educação brasileira”. Apresente uma tese clara, desenvolva argumentos consistentes e formule uma proposta de intervenção relacionada aos problemas discutidos, respeitando os direitos humanos e estabelecendo relação coerente entre agente, ação, meio, finalidade e detalhamento.

Antes de escrever, precisamos escolher um recorte

O primeiro erro possível seria tentar discutir simultaneamente todos os aspectos apresentados até aqui. Uma redação possui espaço limitado e precisa aprofundar seus argumentos. Podemos, por exemplo, escolher como primeiro eixo o uso da IA sem formação crítica, discutindo dependência e terceirização do pensamento, e como segundo eixo a desigualdade digital, analisando como diferentes condições de acesso podem aprofundar disparidades entre estudantes.

Esse projeto permite construir uma tese equilibrada: a inteligência artificial possui potencial para ampliar possibilidades educacionais, mas sua incorporação pode produzir efeitos negativos quando acontece sem formação crítica e sem políticas capazes de democratizar o acesso. Perceba que não precisamos assumir uma posição completamente favorável ou contrária à tecnologia. A tese pode reconhecer benefícios e, ao mesmo tempo, delimitar condições necessárias para que eles sejam alcançados.

Primeiro caminho: autonomia intelectual

Um excelente primeiro desenvolvimento pode discutir o risco de transformar uma ferramenta de apoio em substituta do esforço intelectual. Se alunos utilizam sistemas generativos para produzir integralmente redações, respostas ou trabalhos escolares, determinadas competências deixam de ser praticadas. O problema não está simplesmente em usar a IA, mas em terceirizar aquilo que deveria ser aprendido.

Nesse argumento, podemos mostrar que educação envolve processo e não apenas produto final. Um texto entregue pode parecer excelente, mas aquilo que realmente importa pedagogicamente é se o estudante aprendeu a planejar, argumentar, selecionar informações e revisar suas ideias. Por isso, escolas precisam desenvolver critérios que diferenciem uso produtivo da tecnologia de utilização que elimina a participação intelectual do aluno.

Segundo caminho: desigualdade digital

O segundo desenvolvimento pode discutir como as condições de acesso às tecnologias são distribuídas de maneira desigual. Escolas com boa infraestrutura e professores capacitados podem utilizar ferramentas de IA de maneira muito diferente de instituições com conexão precária e poucos equipamentos. Consequentemente, políticas de inovação que ignoram essas diferenças podem beneficiar mais intensamente estudantes que já possuem melhores condições.

Esse argumento permite ultrapassar a visão de que tecnologia automaticamente democratiza oportunidades. Uma ferramenta só produz igualdade quando as condições de utilização também são democratizadas. Portanto, qualquer projeto nacional de incorporação da IA à educação precisa ser acompanhado por investimentos em conectividade, equipamentos e formação docente, especialmente nas escolas que enfrentam maiores carências estruturais.

Uma tese possível

Podemos formular uma tese como esta: “Embora a inteligência artificial possa ampliar possibilidades de aprendizagem e apoiar o trabalho docente, sua incorporação à educação brasileira exige enfrentar tanto o risco de substituição da autonomia intelectual dos estudantes quanto as desigualdades de acesso às tecnologias digitais.” Essa formulação já apresenta os dois eixos que serão desenvolvidos posteriormente.

Observe que a tese não demoniza a ferramenta e também não apresenta tecnologia como solução milagrosa. Ela reconhece um potencial positivo, identifica dois desafios concretos e prepara a organização do D1 e do D2. Isso produz uma argumentação mais equilibrada e permite construir uma conclusão diretamente relacionada ao diagnóstico.

Paulo Freire como repertório

Paulo Freire pode ser utilizado como repertório em um argumento sobre autonomia intelectual. Sua concepção de educação valoriza a participação ativa do estudante e a construção crítica do conhecimento, o que pode dialogar com o risco de transformar ferramentas digitais em simples fornecedoras de respostas prontas. A relação precisa ser explicada, mostrando que aprendizagem exige participação do sujeito e não apenas recepção de informações.

Esse repertório funciona especialmente bem se o argumento defender que a IA deve ser utilizada para estimular investigação e reflexão, e não substituir completamente o processo cognitivo do estudante. Assim, Paulo Freire deixa de ser uma citação genérica sobre educação e passa a contribuir diretamente para o raciocínio desenvolvido. É exatamente essa produtividade que buscamos em repertórios socioculturais.

A própria Literatura pode oferecer repertório

Podemos até estabelecer uma relação interessante com aquilo que estudamos na segunda-feira. João Cabral de Melo Neto concebia o poema como construção, trabalho e escolha consciente, perspectiva que contrasta bastante com a ideia de simplesmente receber um texto pronto. Evidentemente, não estamos afirmando que sua poesia discute inteligência artificial, mas sua concepção de escrita pode ajudar a defender que produzir um texto envolve processo intelectual e não apenas obtenção do produto final.

Clarice Lispector também pode contribuir de maneira indireta para uma reflexão sobre autoria e pensamento. Sua literatura demonstra como escrever pode ser uma forma de descobrir e organizar aquilo que se pensa. Se uma ferramenta realiza integralmente esse processo por alguém, o estudante pode perder justamente uma das dimensões formativas da escrita. O repertório funciona quando a relação é desenvolvida com clareza e sem forçar a obra a dizer aquilo que ela não diz.

O repertório tecnológico precisa ser utilizado com cautela

Também podemos recorrer a conceitos como letramento digital, cidadania digital e educação midiática, que possuem relação direta com o tema. O letramento digital não significa apenas saber utilizar aplicativos, mas compreender criticamente ferramentas, informações e ambientes digitais. Um estudante pode ser extremamente habilidoso com um celular e ainda não compreender como verificar informações ou proteger dados pessoais.

Esse conceito permite construir um argumento importante: ensinar inteligência artificial não significa ensinar apenas a digitar bons comandos. Significa compreender limitações, verificar resultados, identificar vieses, respeitar autoria e saber quando determinada ferramenta não deve ser utilizada. A escola precisa formar usuários críticos e não apenas consumidores de tecnologia.

Como construir o D1

Um primeiro desenvolvimento poderia começar afirmando que a ausência de formação para o uso crítico da inteligência artificial pode transformar uma ferramenta de apoio em mecanismo de substituição da aprendizagem. Depois, explique como a entrega de trabalhos gerados automaticamente pode impedir o desenvolvimento de escrita, argumentação e pesquisa. Em seguida, utilize Paulo Freire ou o conceito de autonomia como repertório para mostrar que a aprendizagem depende da participação ativa do estudante.

O parágrafo pode terminar apontando que proibir indiscriminadamente as ferramentas provavelmente não resolve o problema, porque elas continuarão disponíveis em diferentes contextos. Uma resposta mais consistente seria ensinar critérios de uso, estabelecer regras de autoria e criar avaliações que considerem também o processo de produção. Dessa maneira, o desenvolvimento não permanece apenas na crítica e já prepara a intervenção.

Como construir o D2

O segundo desenvolvimento pode iniciar mostrando que os benefícios educacionais da inteligência artificial não são distribuídos igualmente num país marcado por profundas desigualdades sociais e regionais. A partir daí, explique como diferenças de conectividade, equipamentos e formação interferem na qualidade do uso tecnológico. O estudante que possui computador, internet estável e orientação enfrenta uma realidade completamente diferente daquele que depende de conexão limitada ou de equipamentos compartilhados.

Depois, avance para a consequência: uma política de inovação que não considere essas diferenças pode ampliar a distância entre escolas. A tecnologia que deveria oferecer novas oportunidades corre o risco de se transformar em vantagem adicional para grupos já privilegiados. Esse raciocínio prepara uma conclusão centrada em democratização do acesso e formação de professores.

Agora vamos construir a proposta de intervenção

A aula de ontem nos deu cinco perguntas fundamentais: quem age, o que faz, como faz, para quê e que detalhamento torna a proposta mais concreta? Hoje precisamos aplicá-las diretamente aos dois problemas que escolhemos. Se discutimos formação crítica e desigualdade digital, nossa intervenção deve responder a essas duas dimensões.

Para o primeiro eixo, o Ministério da Educação, em articulação com redes estaduais e municipais, poderia desenvolver diretrizes nacionais para uso pedagógico e ético de ferramentas de IA. Essas diretrizes poderiam orientar escolas sobre autoria, proteção de dados, avaliação e situações em que o uso deve ser declarado, acompanhadas por cursos de formação continuada para professores. A finalidade seria permitir utilização consciente das ferramentas sem transformar a inteligência artificial em substituta da aprendizagem.

Para o segundo eixo, governos federal, estaduais e municipais poderiam ampliar programas de conectividade e infraestrutura tecnológica em escolas com maiores carências. A medida poderia envolver melhoria da internet, laboratórios, empréstimo de equipamentos e suporte técnico, priorizando regiões em que estudantes possuam menor acesso fora do ambiente escolar. A finalidade seria evitar que os benefícios educacionais das novas tecnologias se concentrem apenas em grupos que já dispõem de melhores recursos.

Uma conclusão possível

Depois de desenvolver os argumentos, poderíamos concluir afirmando que a inteligência artificial poderá contribuir efetivamente para a educação brasileira somente quando sua utilização estiver acompanhada por formação crítica e democratização das condições de acesso. Em seguida, apresentaríamos as duas ações principais: diretrizes e formação para professores, além de investimentos direcionados à infraestrutura tecnológica das escolas mais vulneráveis.

O importante é perceber que essa conclusão não surgiu no último momento. Ela já estava contida no próprio projeto de texto, porque cada intervenção responde a um argumento desenvolvido anteriormente. Essa relação produz coerência e mostra domínio do percurso argumentativo.

Outro projeto possível: professor e avaliação

Você também poderia desenvolver uma Redação com eixos diferentes. O D1 poderia discutir formação docente insuficiente, enquanto o D2 trataria da necessidade de repensar formas de avaliação diante da geração automática de conteúdos. Nesse projeto, a tese defenderia que os impactos positivos da IA dependem de professores preparados e de modelos avaliativos capazes de observar processos de aprendizagem.

A conclusão poderia propor formação continuada para docentes e desenvolvimento de diretrizes pedagógicas que incentivem avaliações orais, projetos acompanhados, produção em etapas e atividades reflexivas. Isso mostraria que não existe uma única redação correta sobre o tema. O que existe é a necessidade de construir um projeto coerente e aprofundar os eixos escolhidos.

Outro caminho: privacidade e ética

Uma terceira possibilidade seria trabalhar proteção de dados e autoria acadêmica. O primeiro desenvolvimento poderia discutir como estudantes, especialmente crianças e adolescentes, inserem informações em plataformas sem compreender o tratamento dado a esses dados. O segundo poderia abordar dificuldade de estabelecer autoria quando trabalhos são produzidos parcialmente ou integralmente por sistemas generativos.

Nesse caso, as intervenções também seriam diferentes. Redes de ensino poderiam criar protocolos de proteção de dados e selecionar ferramentas adequadas ao ambiente escolar, enquanto instituições educacionais desenvolveriam códigos de uso que estabelecessem claramente quando o emprego de IA é permitido e como deve ser informado. Novamente, diagnóstico e solução permaneceriam alinhados.

Cuidado com a ideia de substituir professores

Esse tema pode levar a previsões extremamente dramáticas, como afirmar que “a inteligência artificial acabará com os professores”. Uma redação precisa evitar previsões absolutas que não podem ser sustentadas com facilidade. Ferramentas podem automatizar determinadas tarefas, mas educação envolve dimensões sociais, afetivas, culturais e pedagógicas que não se resumem à entrega de informações.

Uma formulação mais consistente seria discutir transformação do trabalho docente. Algumas tarefas podem ser automatizadas ou facilitadas, enquanto outras ganham ainda mais importância, como mediação, avaliação, acompanhamento e desenvolvimento do pensamento crítico. Esse tipo de análise reconhece mudanças sem transformar uma possibilidade em certeza inevitável.

Também não diga que a IA “vai salvar a educação”

A afirmação oposta é igualmente problemática. Tecnologia não resolve sozinha falta de infraestrutura, desigualdade, problemas de formação, evasão ou dificuldades de aprendizagem. Uma escola com poucos professores, internet precária e estrutura insuficiente não será transformada automaticamente pela chegada de uma plataforma inteligente.

A inteligência artificial pode ser instrumento dentro de políticas educacionais mais amplas. Seu efeito dependerá da formação das pessoas que a utilizam, da qualidade da infraestrutura e dos objetivos pedagógicos estabelecidos. Quando o recurso tecnológico passa a ser tratado como solução automática, o argumento ignora justamente as estruturas que determinam o sucesso ou fracasso de sua implementação.

O papel da escola será ainda mais importante

Quanto mais fácil se torna obter uma resposta, mais importante se torna aprender a formular uma boa pergunta e avaliar aquilo que recebemos. Esse paradoxo é extremamente interessante para a Redação. A escola pode perder centralidade como simples transmissora de informações e ganhar ainda mais importância como espaço de interpretação, crítica e construção de critérios.

Em um mundo no qual textos, imagens e vídeos podem ser produzidos automaticamente, reconhecer fonte, intenção, coerência e confiabilidade torna-se essencial. A educação precisa preparar estudantes para conviver com abundância de conteúdo sem confundir quantidade de informação com conhecimento. Esse é um dos grandes desafios pedagógicos de nossa época.

Treino para hoje

Antes de escrever a redação completa, reserve dez minutos para construir um projeto. Formule uma tese, escolha exatamente dois argumentos, defina um repertório para cada desenvolvimento e antecipe uma intervenção relacionada a cada problema. Somente depois comece a escrever sua introdução.

Durante a revisão, faça dois movimentos diferentes. Primeiro, leia apenas a tese, os tópicos frasais de D1 e D2 e a conclusão para verificar se existe coerência entre essas partes. Depois, faça uma segunda leitura procurando linguagem, pontuação, concordância, regência e repetições. Esse procedimento reúne praticamente tudo aquilo que estudamos nas últimas semanas.

Amanhã: Simulado ENEM da Semana

No Dia 62 da Revisão Monstro — ENEM em 77 dias, teremos novamente nosso Simulado ENEM da Semana, reunindo os principais conteúdos trabalhados nesta etapa. Literatura Pós-45, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, João Cabral, pontuação e proposta de intervenção poderão aparecer misturados, como acontece em situações reais de prova.

O objetivo continuará sendo descobrir aquilo que você realmente consegue mobilizar sem consultar previamente o conteúdo. Não encare o simulado como julgamento, mas como diagnóstico. A 16 dias do ENEM, localizar um erro ainda significa possuir tempo para corrigi-lo antes da prova.

Faltam 17 dias: inteligência artificial exige mais educação, não menos

Existe uma contradição interessante no tema de hoje. Quanto mais capazes as ferramentas se tornam de oferecer respostas imediatas, maior se torna a necessidade de formar pessoas capazes de analisar aquilo que recebem. Uma sociedade cercada por inteligência artificial continuará precisando de leitura, conhecimento, professores, argumentação e capacidade crítica.

O desafio da educação brasileira não consiste simplesmente em aceitar ou rejeitar a inteligência artificial. Consiste em decidir como utilizá-la sem transformar facilidade em dependência, inovação em desigualdade ou assistência em substituição do pensamento. Essa decisão exigirá políticas públicas, formação docente, infraestrutura e uma nova educação digital capaz de ensinar responsabilidade, autoria e verificação.

Faltam 17 dias para o ENEM, e esta proposta também nos deixa uma lição importante para a própria prova. Nenhuma ferramenta substituirá a capacidade de interpretar um tema, selecionar argumentos e decidir como organizá-los diante da folha de redação. Tecnologia pode ajudar no estudo, mas, no momento em que você precisar escrever, será seu próprio repertório e sua própria capacidade de pensar que organizarão o texto.

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A inteligência artificial poderá ampliar as possibilidades da educação brasileira, mas seus benefícios dependerão de acesso equitativo, professores preparados e estudantes capazes de utilizar a tecnologia como instrumento de aprendizagem sem entregar a ela aquilo que nenhuma máquina deveria substituir: a responsabilidade de pensar.