15 de outubro de 2026 — Dia dos Professores

Olá, amigos e alunos do blog A Escola Literária!

Há uma profissão que começa muito antes do primeiro sinal e termina muito depois da última aula. Uma profissão que não cabe nas quarenta e cinco ou cinquenta minutos de uma aula, tampouco nas páginas de um livro didático. Uma profissão que exige paciência quando tudo parece desmoronar, criatividade quando faltam recursos e esperança quando a realidade insiste em dizer que não vale a pena. Essa profissão é a de professor.

Hoje, 15 de outubro, quero deixar de lado, por alguns instantes, as regras gramaticais, os movimentos literários, as propostas de redação e as intermináveis correções de atividades. Quero falar de nós, professores. Não dos heróis idealizados pelos discursos comemorativos, mas dos seres humanos que, todos os dias, atravessam os portões das escolas carregando livros, preocupações, sonhos e, muitas vezes, um cansaço que ninguém percebe.

O professor também acorda cansado

O despertador toca. Ainda está cedo, mas a cabeça já começou a trabalhar. É preciso preparar aquela atividade, corrigir algumas redações, conferir o planejamento e lembrar que determinada turma precisa de uma atenção especial. Antes mesmo de chegar à escola, o professor já está dando aula dentro da própria cabeça.

No caminho, ele pensa na vida. Nas contas que precisam ser pagas, nos problemas familiares, nas preocupações que ficaram em casa. Porque, embora muita gente pareça esquecer, professores também têm família, sentimentos, dificuldades e dias ruins. A diferença é que, quando entram na sala de aula, precisam encontrar forças para acolher dezenas de outras histórias, mesmo quando a própria história está atravessando um capítulo difícil.

Então chega o primeiro sinal.

A porta se abre, os alunos entram, as conversas se multiplicam e alguém pergunta, antes mesmo do bom-dia:

— Professor, hoje vai ter atividade?

É quase impossível não sorrir.

— Não, meu querido. Hoje vamos passar cinquenta minutos contemplando a beleza das paredes!

Alguns riem. Outros nem percebem a ironia. E há sempre aquele aluno que pergunta, com absoluta sinceridade:

— Mas é pra copiar?

Nesse momento, o professor percebe que o dia começou oficialmente.

A sala de aula é um pequeno universo

Quem nunca esteve diante de uma turma talvez não compreenda o que acontece naquele espaço aparentemente comum. Entre quatro paredes, convivem dezenas de universos particulares. Há o aluno que sonha em ser médico, aquele que deseja ser jogador de futebol, a menina que escreve poemas escondidos no caderno e o garoto que faz piadas porque descobriu que o humor é uma maneira de ser notado.

Há também aquele estudante que permanece em silêncio. Não porque não tenha nada a dizer, mas porque talvez ninguém tenha lhe perguntado, verdadeiramente, o que sente. E existe o aluno que desafia todas as regras, que testa a paciência do professor e que, muitas vezes, está apenas tentando descobrir se existe algum adulto disposto a não desistir dele.

Ensinar, nesse cenário, nunca foi simplesmente transmitir conteúdos. É perceber que, por trás de cada carteira, existe uma pessoa em formação. Uma pessoa que ainda não sabe exatamente quem é, mas que pode encontrar, nas palavras de um professor, uma pequena pista sobre quem poderá se tornar.

Às vezes, uma explicação sobre sujeito e predicado se transforma numa conversa sobre escolhas. Uma leitura literária desperta uma reflexão sobre injustiça. Uma redação revela um sofrimento que ninguém imaginava. E uma pergunta aparentemente despretensiosa abre caminhos que nenhum planejamento pedagógico seria capaz de antecipar.

É por isso que a sala de aula continua sendo um dos lugares mais extraordinários do mundo.

Nem todo aprendizado aparece nas avaliações

Vivemos numa época em que quase tudo precisa ser medido. Notas, índices, habilidades, competências, resultados, gráficos e porcentagens. Evidentemente, avaliar a aprendizagem é importante. Precisamos compreender o que nossos alunos aprenderam e quais dificuldades ainda precisam superar.

Mas existe uma parte da educação que nenhuma planilha consegue registrar.

Como medir o instante em que um estudante tímido finalmente encontra coragem para ler em voz alta? Como transformar em números a alegria de uma criança que descobre ser capaz de escrever seu primeiro texto? Qual indicador seria capaz de registrar a transformação de um jovem que, depois de tantas tentativas, começa a acreditar em si mesmo?

Há conquistas que não aparecem nos boletins. Há vitórias que acontecem silenciosamente, no fundo da sala, durante uma conversa no corredor ou numa palavra de incentivo dita no momento certo.

Talvez o professor nem se lembre daquele acontecimento alguns anos depois. Mas o aluno poderá carregá-lo pela vida inteira.

E essa é uma das coisas mais bonitas e misteriosas da nossa profissão: nunca sabemos exatamente até onde nossas palavras podem chegar.

A difícil arte de não desistir

Ser professor também significa conviver com frustrações. Existem aulas cuidadosamente preparadas que simplesmente não funcionam. Existem explicações repetidas tantas vezes que começamos a desconfiar da nossa própria capacidade de comunicação. Existem turmas que parecem ter firmado um acordo secreto para testar todos os limites da paciência humana.

E há dias em que o professor olha para o relógio e pensa que os ponteiros resolveram entrar em greve.

Não precisamos romantizar essas dificuldades. A educação brasileira enfrenta problemas profundos, e nenhum discurso bonito substitui salários dignos, condições adequadas de trabalho, valorização profissional e políticas educacionais consistentes.

O professor não precisa ser tratado como um super-herói. Aliás, talvez seja justamente essa imagem heroica que, em algumas ocasiões, contribua para naturalizar sacrifícios que não deveriam ser exigidos de ninguém.

Professores são trabalhadores. Precisam de respeito, formação, estrutura, descanso e reconhecimento. Precisam ser ouvidos quando falam das dificuldades que enfrentam diariamente. E merecem uma sociedade que compreenda que valorizar a educação exige muito mais do que publicar mensagens carinhosas no dia 15 de outubro.

Ainda assim, apesar de tudo, existe algo que nos faz retornar à sala de aula.

Às vezes, é o sorriso de um estudante. Outras vezes, uma pergunta inteligente, uma redação surpreendente ou aquele aluno que, depois de meses de resistência, finalmente demonstra interesse pela matéria.

São pequenos acontecimentos que renovam nossa disposição de continuar.

O professor também aprende

Costumamos dizer que o professor ensina e o aluno aprende. A realidade, entretanto, é muito mais interessante. Depois de tantos anos em sala de aula, descobrimos que ensinar é também uma experiência permanente de aprendizagem.

Aprendemos a ouvir diferentes opiniões, a reconhecer nossos erros e a reformular certezas. Aprendemos que cada geração possui sua própria linguagem, seus medos, suas referências culturais e suas maneiras de compreender o mundo. Aprendemos que a autoridade pedagógica não depende de gritos, mas de conhecimento, coerência, diálogo e respeito.

Como professor de Língua Portuguesa e Literatura, tenho o privilégio de trabalhar diariamente com palavras. E, quanto mais convivo com elas, mais compreendo que a educação não consiste apenas em ensinar alguém a construir frases corretas, interpretar textos ou identificar figuras de linguagem.

Trata-se, sobretudo, de ajudar nossos alunos a compreender o mundo e encontrar sua própria voz dentro dele.

A literatura nos ensina a enxergar outras vidas. A gramática nos oferece instrumentos para organizar o pensamento. A escrita permite transformar sentimentos e ideias em discursos capazes de alcançar outras pessoas.

Mas são os alunos que nos recordam, todos os dias, por que tudo isso importa.

Um dia, a última aula chega

Há uma cena que se repete silenciosamente na vida de todo professor. Ao final de um ano letivo, depois de tantas provas, atividades, conversas, broncas, risadas e desafios, chega o momento da despedida.

Alguns alunos abraçam. Outros agradecem timidamente. Há aqueles que saem correndo, ansiosos pelas férias, sem perceber que talvez nunca mais se encontrem com aquele professor.

E nós permanecemos ali, recolhendo materiais, apagando a lousa e observando as carteiras vazias.

É curioso pensar que, durante meses, aquelas pessoas fizeram parte da nossa rotina. Conhecemos suas vozes, seus hábitos, suas dificuldades e até suas desculpas mais criativas para justificar uma atividade não realizada.

De repente, cada uma seguirá seu caminho.

Talvez alguns se esqueçam das orações subordinadas, das escolas literárias e das regras de concordância. É possível que jamais voltem a precisar identificar um adjunto adnominal ou distinguir um soneto de uma ode.

Mas espero que se lembrem de algo mais importante.

Que aprender vale a pena. Que o conhecimento liberta. Que ninguém precisa aceitar como definitivo o lugar que a sociedade lhe reservou. Que pensar criticamente é uma forma de liberdade. E que, mesmo diante das dificuldades, sempre existe a possibilidade de escrever um novo capítulo da própria história.

Se conseguirmos transmitir ao menos uma parte disso, nossa passagem pela vida desses estudantes já terá adquirido um significado extraordinário.

A homenagem que realmente importa

Neste Dia dos Professores, penso em todos aqueles que dedicaram parte de suas vidas à minha formação. Alguns já não estão presentes. Outros talvez nem imaginem que determinadas palavras continuam vivas em minha memória.

Penso também nos colegas que enfrentam salas lotadas, jornadas extensas, cobranças intermináveis e desafios que raramente aparecem nos discursos oficiais. Professores que, mesmo exaustos, continuam preparando aulas, corrigindo textos e procurando maneiras de alcançar aquele estudante que parece distante de tudo.

A todos eles, minha admiração.

Aos professores que estão começando, desejo coragem para construir seus próprios caminhos. Aos que já acumulam décadas de experiência, desejo que nunca lhes falte o reconhecimento que merecem. Aos que estão desanimados, desejo melhores condições para que possam recuperar a alegria de ensinar. E aos que já se aposentaram, deixo minha gratidão pelas gerações que ajudaram a formar.

Quanto a mim, continuo acreditando na educação. Não porque desconheça suas dificuldades, mas justamente porque convivo com elas. Sei que a escola não transforma o mundo sozinha, mas também sei que nenhuma transformação social duradoura pode prescindir do conhecimento, da reflexão e da formação humana.

E, enquanto houver alguém disposto a ensinar e alguém desejando aprender, haverá motivos para acreditar no amanhã.

Quando a lousa se apaga, a educação continua

Talvez seja essa a imagem que melhor represente nossa profissão.

Ao final do dia, a escola fica silenciosa. Os corredores se esvaziam, as portas são fechadas e a lousa, que durante horas recebeu palavras, números, desenhos e explicações, volta a ficar limpa.

Tudo parece ter desaparecido.

Mas não desapareceu.

Em algum lugar, um estudante está pensando numa pergunta feita durante a aula. Outro está contando à família uma história que ouviu na escola. Uma menina está escrevendo seu primeiro poema. Um jovem começa a imaginar um futuro que, até ontem, parecia impossível.

O que estava escrito na lousa foi apagado, mas alguma coisa permaneceu.

E talvez seja exatamente isso que significa ser professor: escrever todos os dias em uma superfície que será apagada, acreditando que alguma parte daquilo permanecerá para sempre na vida de alguém.

Feliz Dia dos Professores a todos os colegas que transformam conhecimento em oportunidade, palavras em caminhos e salas de aula em lugares onde o futuro começa a ser construído.

Com carinho, respeito e gratidão,

Professor Eduardo Nagai
A Escola Literária — Lendo Além do Texto

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Porque ensinar é deixar marcas que o tempo não consegue apagar.