Revisão Monstro — ENEM em 77 dias
Dia 47 — 08 de outubro de 2026 — Quinta-feira — Temas de Redação
Simulado de Redação no estilo ENEM
Olá amigos e alunos do blog A Escola Literária! Chegamos ao Dia 47 da nossa Revisão Monstro — ENEM em 77 dias e, como acontece às quintas-feiras, chegou o momento de aplicar aquilo que estamos construindo nas aulas de Redação. Ontem estudamos coesão textual, percebendo como conectivos, pronomes e mecanismos de retomada fazem as ideias avançarem sem que o texto pareça apenas uma sequência de frases colocadas umas ao lado das outras. Hoje teremos uma excelente oportunidade para colocar esse conhecimento em prática.
Nossa proposta envolve um tema social amplo e extremamente importante: os desafios para garantir inclusão e acessibilidade às pessoas com deficiência no Brasil. Para produzir uma boa redação, entretanto, será necessário fugir de uma visão simplificadora que apresenta a deficiência apenas como uma limitação individual. Muitas dificuldades enfrentadas pelas pessoas com deficiência surgem justamente quando espaços, serviços, escolas, meios de transporte, tecnologias e atitudes sociais não estão preparados para garantir participação em igualdade de condições.
Essa mudança de perspectiva será fundamental. Em vez de perguntar somente “o que uma pessoa com deficiência não consegue fazer?”, precisamos também perguntar “que barreiras a sociedade colocou diante dela?”. Essa segunda pergunta abre caminhos muito mais ricos para a argumentação e permite discutir acessibilidade física, educação inclusiva, mercado de trabalho, comunicação, tecnologia e combate ao capacitismo.
⏳ Faltam 31 dias para o ENEM!
Hoje, 08 de outubro de 2026, faltam 31 dias para o primeiro dia do ENEM. Estamos praticamente entrando no último mês antes da prova e, nesse momento, nossas propostas de Redação precisam funcionar como verdadeiros simulados. Você já estudou introdução, tese, repertório, desenvolvimento, causas, consequências, exemplos e coesão; agora precisa fazer esses elementos trabalharem juntos dentro de um único projeto de texto.
O tema de hoje possui muitas possibilidades, e justamente por isso será necessário delimitar. Uma redação não consegue discutir com profundidade acessibilidade urbana, educação, emprego, tecnologia, preconceito, saúde e transporte em pouco mais de trinta linhas. Você precisará selecionar dois eixos principais e construir uma argumentação em torno deles.
Lembre-se daquilo que temos repetido: profundidade não nasce da quantidade de assuntos mencionados, mas da qualidade das relações que você consegue estabelecer entre as ideias escolhidas.
Antes da proposta: deficiência e barreiras sociais
Durante muito tempo, a deficiência foi interpretada principalmente a partir de um olhar médico, concentrado nas limitações físicas, sensoriais, intelectuais ou psicossociais do indivíduo. Essa abordagem possui importância para questões relacionadas à saúde e ao atendimento, mas não é suficiente para compreender todos os obstáculos enfrentados pelas pessoas com deficiência.
Uma perspectiva mais ampla considera também o ambiente e as relações sociais. Uma pessoa que utiliza cadeira de rodas, por exemplo, pode possuir plena autonomia para estudar e trabalhar, mas encontrar uma escadaria na entrada de um prédio sem elevador ou rampa. Nesse caso, a barreira não está apenas em uma característica do corpo: está também na maneira como aquele espaço foi projetado.
Da mesma forma, uma pessoa cega pode utilizar tecnologias assistivas e realizar inúmeras atividades de maneira independente, mas encontrar uma plataforma digital incompatível com leitores de tela. Uma pessoa surda pode participar plenamente de diferentes ambientes, mas ser excluída quando determinada instituição não oferece recursos de comunicação acessíveis.
A sociedade pode, portanto, reduzir ou ampliar limitações.
O que significa acessibilidade?
Acessibilidade não significa apenas construir rampas. Embora a adaptação arquitetônica seja fundamental, o conceito é muito mais abrangente e envolve condições que permitam às pessoas utilizar espaços, serviços, informações e tecnologias com autonomia e segurança.
Podemos pensar em acessibilidade urbana, arquitetônica, comunicacional, digital, educacional e atitudinal. Essas diferentes dimensões mostram que a inclusão precisa estar presente desde o planejamento das estruturas sociais, e não aparecer apenas como correção posterior depois que uma pessoa já encontrou determinada barreira.
Uma cidade acessível, por exemplo, precisa considerar calçadas, transporte coletivo, sinalização, travessias, edifícios e serviços. Uma escola inclusiva precisa pensar em formação docente, materiais, recursos de apoio e participação efetiva do estudante. Uma plataforma digital precisa permitir que diferentes usuários consigam navegar, compreender e interagir com seu conteúdo.
E o que significa inclusão?
Inclusão também não pode ser confundida simplesmente com presença física.
Uma pessoa pode estar matriculada em uma escola e continuar excluída do processo de aprendizagem. Pode ser contratada por uma empresa e permanecer sem condições adequadas para exercer suas funções. Pode entrar em determinado espaço, mas depender permanentemente de outra pessoa porque o ambiente não foi planejado para garantir autonomia.
Por isso, incluir significa criar condições reais de participação.
Essa distinção será muito importante na Redação. O argumento pode mostrar que garantir acesso formal é apenas o primeiro passo; o objetivo final precisa ser participação efetiva.
O capacitismo
Outro conceito fundamental é o capacitismo, forma de discriminação baseada na deficiência. Ele aparece quando uma pessoa é tratada como inferior, incapaz, dependente ou menos valiosa simplesmente por possuir determinada deficiência.
Esse preconceito pode ser explícito, mas também pode aparecer de maneira aparentemente positiva. Quando alguém demonstra surpresa exagerada porque uma pessoa com deficiência trabalha, pratica esporte, namora, estuda ou vive sozinha, existe por trás da reação uma expectativa de incapacidade.
O capacitismo também pode assumir uma forma paternalista. Em vez de reconhecer autonomia, determinadas atitudes tratam a pessoa com deficiência como alguém que precisa ser permanentemente protegida ou representada por outra pessoa.
Combater esse comportamento significa reconhecer direitos, escolhas e autonomia.
SIMULADO DE REDAÇÃO ENEM
Tema: Desafios para garantir inclusão e acessibilidade às pessoas com deficiência no Brasil
Leia os textos motivadores e observe como cada um apresenta uma dimensão diferente da questão. Utilize essas informações para construir seu próprio projeto argumentativo, mas evite simplesmente reproduzir as ideias apresentadas na coletânea.
TEXTO I — Acessibilidade e autonomia
A falta de acessibilidade pode transformar atividades cotidianas em obstáculos. Calçadas inadequadas, edifícios sem elevadores, transportes inacessíveis e sinalizações insuficientes restringem o deslocamento e a autonomia de milhões de pessoas.
Quando ambientes são planejados considerando diferentes necessidades desde o início, a inclusão deixa de depender exclusivamente de adaptações individuais. A acessibilidade torna-se, portanto, elemento essencial para garantir participação social.
TEXTO II — Inclusão não significa apenas presença
A matrícula de um estudante com deficiência em uma escola regular representa uma importante garantia de direito, mas a inclusão não termina nesse momento. É necessário oferecer recursos pedagógicos, formação adequada aos profissionais, materiais acessíveis e condições para que esse estudante participe efetivamente das atividades.
Sem essas estruturas, a presença física pode coexistir com exclusão pedagógica. Por isso, educação inclusiva exige planejamento e compromisso de toda a comunidade escolar.
TEXTO III — Capacitismo e participação social
Pessoas com deficiência ainda podem ser avaliadas a partir de estereótipos de incapacidade. No mercado de trabalho, por exemplo, uma empresa pode supor que determinado trabalhador terá baixo desempenho antes mesmo de analisar suas qualificações e as condições que poderiam permitir o exercício adequado da função.
Esse tipo de preconceito restringe oportunidades e reforça a exclusão. Combater o capacitismo significa substituir expectativas generalizadas por avaliação das capacidades e necessidades reais de cada indivíduo.
TEXTO IV — Tecnologia e acessibilidade
A expansão dos serviços digitais criou novas possibilidades de participação, mas também pode produzir novas barreiras. Sites incompatíveis com leitores de tela, vídeos sem legendas ou recursos de interpretação e aplicativos difíceis de utilizar podem excluir usuários com diferentes tipos de deficiência.
A tecnologia pode funcionar como ferramenta de autonomia quando é desenvolvida de maneira acessível. Quando isso não acontece, o mesmo recurso que facilita a vida de algumas pessoas pode aumentar a exclusão de outras.
PROPOSTA DE REDAÇÃO
A partir da leitura dos textos motivadores e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, produza um texto dissertativo-argumentativo em modalidade escrita formal da Língua Portuguesa sobre o tema:
“Desafios para garantir inclusão e acessibilidade às pessoas com deficiência no Brasil”
Apresente uma tese clara, selecione argumentos consistentes e formule uma proposta de intervenção relacionada aos problemas discutidos, respeitando os direitos humanos e articulando agentes, ações, meios e finalidades.
Primeiro passo: escolha dois eixos
O tema permite diferentes caminhos. Você poderia trabalhar, por exemplo, com barreiras estruturais e capacitismo. Outra possibilidade seria discutir educação inclusiva e acessibilidade digital, enquanto um terceiro projeto poderia relacionar mobilidade urbana e mercado de trabalho.
O mais importante é que os dois argumentos sejam diferentes entre si, mas permaneçam ligados à tese. Não tente fazer um primeiro desenvolvimento sobre calçadas, escolas, empregos e tecnologia simultaneamente, porque provavelmente nenhum desses assuntos será realmente aprofundado.
Antes de escrever, faça nosso pequeno planejamento: qual é o argumento, por que o problema acontece, que consequência produz e qual exemplo ou repertório pode demonstrá-lo?
Primeiro caminho: barreiras arquitetônicas e urbanas
Um excelente eixo pode partir da ausência de acessibilidade em determinados espaços urbanos. Quando calçadas possuem obstáculos, prédios não oferecem rotas acessíveis ou transportes não possuem estrutura adequada, pessoas com deficiência podem ter sua autonomia reduzida.
Perceba que o problema não está apenas na mobilidade individual. A própria cidade pode criar limitações.
Esse raciocínio permite uma conclusão importante: acessibilidade não deve ser entendida como favor ou adaptação opcional, mas como condição para o exercício da cidadania. Quem não consegue acessar escola, trabalho, serviços públicos ou espaços culturais encontra barreiras para participar plenamente da sociedade.
Causa, consequência e exemplo
Podemos aplicar exatamente a técnica que estudamos.
A causa pode ser um planejamento urbano historicamente construído sem considerar diferentes necessidades de mobilidade. A consequência aparece na redução da autonomia e no acesso desigual aos serviços. O exemplo pode surgir em uma estação de transporte sem elevador ou em uma calçada que impede a circulação de uma pessoa que utiliza cadeira de rodas.
Agora existe um argumento.
Não escrevemos simplesmente “falta acessibilidade”.
Mostramos como essa ausência produz exclusão.
Segundo caminho: capacitismo
Outro eixo extremamente produtivo é o preconceito.
Uma sociedade pode possuir leis e algumas estruturas físicas acessíveis e ainda reproduzir exclusão por meio das atitudes. Quando pessoas com deficiência são consideradas automaticamente incapazes de estudar, trabalhar, tomar decisões ou construir projetos próprios, suas oportunidades ficam limitadas por expectativas sociais.
O capacitismo também pode influenciar processos de contratação, relações escolares e convivência cotidiana. Em vez de avaliar cada pessoa de acordo com suas habilidades e necessidades específicas, determinados ambientes partem de estereótipos generalizados.
Esse tipo de preconceito pode ser menos visível que uma escadaria.
Mas seus efeitos também são profundos.
Terceiro caminho: educação inclusiva
A escola pode representar um dos eixos mais importantes da proposta.
Garantir matrícula é fundamental, mas inclusão educacional exige muito mais. Professores precisam de formação, materiais devem ser acessíveis e estudantes precisam participar efetivamente das atividades.
Imagine um aluno com deficiência visual que recebe o mesmo conteúdo dos colegas, porém apenas em materiais impressos não adaptados. Formalmente, ele está na sala.
Pedagogicamente, porém, existe uma barreira.
Da mesma forma, incluir um aluno com deficiência intelectual não significa apenas mantê-lo fisicamente em determinada turma. É necessário construir estratégias pedagógicas capazes de garantir aprendizagem e participação.
Educação inclusiva beneficia apenas estudantes com deficiência?
Não.
Uma escola preparada para diferentes formas de aprendizagem tende a desenvolver práticas mais flexíveis e sensíveis à diversidade de toda a turma. Recursos visuais, estratégias diferenciadas, materiais digitais acessíveis e planejamento pedagógico diversificado podem beneficiar vários estudantes.
Esse argumento pode enriquecer bastante a Redação porque mostra que inclusão não deve ser compreendida como concessão destinada a um pequeno grupo. Ela representa uma maneira de organizar a educação reconhecendo que os indivíduos possuem necessidades diferentes.
Quarto caminho: mercado de trabalho
O emprego oferece outro eixo bastante forte.
Uma pessoa com deficiência pode possuir formação e experiência adequadas e, ainda assim, enfrentar resistência baseada em estereótipos. Algumas empresas podem enxergar sua contratação apenas como cumprimento de obrigação legal, sem construir condições para desenvolvimento profissional e crescimento na carreira.
Inclusão profissional exige mais do que ocupar uma vaga.
Precisa haver acessibilidade.
Adaptações quando necessárias.
Oportunidades de desenvolvimento.
Avaliação baseada em desempenho real.
Quando isso acontece, a empresa deixa de olhar primeiro para a deficiência e passa a reconhecer o profissional.
Quinto caminho: acessibilidade digital
A digitalização de serviços trouxe enormes possibilidades de autonomia, mas também criou novas formas de exclusão. Sites, aplicativos e plataformas mal projetados podem impedir o acesso de determinados usuários.
Imagine uma pessoa cega tentando utilizar um aplicativo bancário cujos botões não possuem identificação compatível com leitores de tela. O serviço existe, mas não está verdadeiramente disponível para todos.
Da mesma forma, vídeos sem recursos adequados podem criar obstáculos de comunicação.
A acessibilidade digital tornou-se, portanto, uma questão de cidadania.
Quanto mais atividades migram para ambientes digitais, maior a importância de garantir que esses espaços também sejam inclusivos.
Sexto caminho: comunicação acessível
Acessibilidade também envolve comunicação.
Informações públicas precisam alcançar pessoas com diferentes necessidades. Isso pode envolver recursos como Libras, legendas, audiodescrição, materiais em formatos acessíveis e linguagens que facilitem a compreensão.
Esse argumento pode ser particularmente interessante em discussões sobre acesso a serviços públicos, educação e participação cultural.
Imagine uma informação de emergência divulgada apenas em um formato que parte da população não consegue acessar. Nesse caso, a barreira comunicacional pode produzir consequências muito concretas.
Lei Brasileira de Inclusão como repertório
Um repertório extremamente adequado é a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, também conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência.
A legislação representa uma mudança importante porque trata a inclusão como questão de direitos e procura enfrentar diferentes formas de barreira. Ela pode ser utilizada em um argumento sobre a distância entre garantia jurídica e realidade concreta.
A estrutura poderia ser:
existe um direito formalmente reconhecido → determinadas barreiras permanecem → é necessário tornar o direito efetivo.
Esse contraste entre legislação e realidade costuma funcionar muito bem em temas sociais.
Constituição como repertório
A própria Constituição também pode ser utilizada quando o argumento envolver igualdade, cidadania e dignidade.
Mas tenha cuidado para não escrever apenas:
“Segundo a Constituição, todos são iguais.”
Essa frase isolada não desenvolve o raciocínio.
Você precisa mostrar a contradição.
Por exemplo: se os direitos são universais, mas determinados cidadãos não conseguem utilizar transporte, escola ou serviços públicos por falta de acessibilidade, existe uma diferença entre igualdade jurídica e participação efetiva.
Agora a Constituição trabalha dentro do argumento.
O modelo social da deficiência como repertório
Existe um conceito bastante útil para essa proposta: o modelo social da deficiência.
De maneira simplificada, essa perspectiva mostra que muitas limitações resultam da interação entre determinadas características individuais e as barreiras existentes no ambiente.
Pense novamente na escadaria.
Uma pessoa que utiliza cadeira de rodas encontra uma barreira.
Se o mesmo prédio possui uma rota acessível adequadamente projetada, parte daquela limitação desaparece.
Essa ideia permite deslocar a discussão de:
“Como consertar a pessoa?”
para:
“Como transformar o ambiente para garantir participação?”
Essa mudança de perspectiva pode gerar um excelente desenvolvimento.
Capacitismo como repertório conceitual
O conceito de capacitismo também pode funcionar como repertório sociológico.
Você poderia explicar que ele representa uma forma de discriminação que associa deficiência a incapacidade ou inferioridade. Depois, precisa mostrar como esse preconceito aparece dentro do problema escolhido.
No mercado de trabalho, por exemplo, pode ocorrer quando um candidato é descartado antecipadamente por causa de sua deficiência. Na escola, pode surgir quando as expectativas sobre um aluno são reduzidas antes mesmo que suas capacidades sejam conhecidas.
Conceito.
Aplicação.
Análise.
É assim que o repertório funciona.
Podemos usar Literatura?
Sim, desde que a relação seja realmente produtiva.
Literatura pode discutir exclusão, marginalização, preconceito, dignidade e diferentes formas de participação social. Entretanto, evite escolher uma obra apenas porque precisa citar algum autor.
Nossa regra continua valendo: o repertório precisa explicar alguma dimensão do argumento.
Se uma legislação ou conceito social funcionar melhor, utilize-o.
Uma referência simples e pertinente sempre é superior a uma referência sofisticada e forçada.
Cuidado com o chamado “discurso de superação”
Existe uma tendência social de representar pessoas com deficiência exclusivamente como exemplos de superação.
Frases como “apesar da deficiência, conseguiu estudar” podem parecer elogiosas, mas merecem cuidado. Elas podem sugerir que realizar atividades cotidianas seja algo extraordinário simplesmente porque aquela pessoa possui uma deficiência.
Em uma redação sobre inclusão, procure concentrar-se em direitos e condições de participação, não em transformar pessoas reais em símbolos inspiracionais.
Uma sociedade inclusiva não deveria exigir heroísmo para acessar aquilo que deveria ser direito.
Cuidado também com expressões inadequadas
O vocabulário importa.
Prefira a expressão:
pessoa com deficiência
Ela coloca a pessoa antes da característica e corresponde à terminologia amplamente utilizada na legislação e nos debates sobre direitos.
Evite termos historicamente utilizados de maneira pejorativa ou construções que reduzam o indivíduo à deficiência.
A escolha lexical também demonstra compreensão do tema.
Igualdade ou equidade?
Esse tema permite ainda trabalhar uma diferença interessante.
Igualdade significa garantir os mesmos direitos.
Equidade considera que pessoas podem precisar de recursos diferentes para conseguir exercer esses direitos em condições efetivamente comparáveis.
Imagine uma prova escolar idêntica para todos os estudantes.
Formalmente, existe igualdade.
Mas se determinado estudante precisa de um recurso de acessibilidade e ele não é oferecido, a igualdade formal pode produzir desigualdade concreta.
Esse raciocínio é muito útil para o tema.
Uma possível tese
Você poderia formular:
“Embora o Brasil possua avanços jurídicos na proteção dos direitos das pessoas com deficiência, a permanência de barreiras estruturais e de atitudes capacitistas ainda limita sua participação plena na sociedade, tornando necessária a ampliação da acessibilidade e o combate aos estereótipos relacionados à deficiência.”
Observe como a tese reconhece um avanço, mas aponta dois problemas:
barreiras estruturais;
capacitismo.
Temos, portanto, dois desenvolvimentos possíveis.
A concessão inicial também ajuda a construir uma argumentação menos simplista.
Construindo o D1
O primeiro desenvolvimento poderia trabalhar acessibilidade.
Uma abertura possível seria: “Em primeiro lugar, a permanência de barreiras arquitetônicas e urbanas compromete a autonomia de pessoas com deficiência em atividades cotidianas.”
Depois, explique como isso acontece.
Calçadas.
Transporte.
Prédios.
Serviços.
Em seguida, apresente a consequência: dificuldade de acesso ao trabalho, educação, cultura e participação social.
Você pode utilizar a Lei Brasileira de Inclusão como repertório e fechar o parágrafo mostrando que a existência de direitos não é suficiente quando os espaços ainda impedem seu exercício.
Agora existe progressão.
Construindo o D2
O segundo desenvolvimento poderia abordar o capacitismo.
Comece explicando que barreiras sociais não são apenas físicas, mas também atitudinais. Em seguida, mostre como estereótipos podem limitar oportunidades profissionais, educacionais e sociais.
Depois utilize o conceito de capacitismo como repertório e analise a consequência: pessoas podem ser avaliadas pela deficiência antes de suas capacidades individuais.
O fechamento deve retomar o tema:
combater preconceitos é parte fundamental da construção de uma sociedade verdadeiramente inclusiva.
Os dois desenvolvimentos agora possuem funções diferentes.
Coesão: use a aula de ontem
Perceba como podemos conectar os dois parágrafos.
No primeiro:
“Em primeiro lugar, as barreiras arquitetônicas…”
No segundo:
“Além dos obstáculos físicos, atitudes capacitistas também…”
A expressão “além dos obstáculos físicos” recupera o primeiro desenvolvimento e, ao mesmo tempo, apresenta um novo eixo.
Isso é coesão e progressão funcionando juntas.
Use retomadas específicas
Em vez de repetir “pessoas com deficiência” cinco vezes no mesmo parágrafo, você pode utilizar cuidadosamente algumas retomadas.
Por exemplo:
essas pessoas;
esse grupo social;
essa parcela da população;
esses cidadãos.
Mas cuidado para que a referência permaneça clara e para não transformar seres humanos em expressões excessivamente impessoais.
Às vezes, repetir “pessoas com deficiência” será a melhor escolha.
Coesão não significa eliminar toda repetição.
Uma intervenção para acessibilidade urbana
Se seu primeiro argumento for barreira arquitetônica, a intervenção precisa responder a ela.
Prefeituras poderiam ampliar programas de adaptação e fiscalização dos espaços urbanos, realizando obras de acessibilidade em calçadas, edifícios e transportes e priorizando locais com maior circulação de pessoas.
A finalidade seria ampliar autonomia e permitir acesso efetivo aos serviços e espaços da cidade.
Perceba que não estamos dizendo apenas:
“O governo deve investir.”
Mostramos:
quem;
o que deve fazer;
como;
para quê.
Uma intervenção para educação inclusiva
Se seu argumento estiver ligado à escola, o Ministério da Educação e as redes estaduais e municipais poderiam ampliar programas permanentes de formação docente em práticas inclusivas, além de garantir materiais acessíveis e recursos de apoio.
A finalidade seria transformar a matrícula em participação pedagógica efetiva.
Essa expressão é importante.
Matrícula é acesso.
Participação e aprendizagem são inclusão.
Essa diferença pode organizar uma excelente intervenção.
Uma intervenção contra o capacitismo
Se o D2 discutir preconceito, campanhas educativas podem aparecer.
Mas não escreva apenas:
“É preciso conscientizar a sociedade.”
Quem fará isso?
Por qual meio?
Qual mensagem?
Com qual finalidade?
Uma proposta mais completa poderia envolver poder público, instituições educacionais e meios de comunicação em campanhas permanentes que apresentem pessoas com deficiência como sujeitos de direitos e combatam estereótipos de incapacidade.
Agora temos especificidade.
Uma intervenção para acessibilidade digital
Empresas de tecnologia e órgãos públicos também podem participar.
Eles poderiam adotar padrões de acessibilidade no desenvolvimento de sites e aplicativos, realizando testes com usuários e garantindo compatibilidade com tecnologias assistivas.
A finalidade seria permitir que serviços digitais fossem utilizados com maior autonomia.
Esse é um ótimo exemplo de intervenção contemporânea e diretamente ligada ao problema.
Cuidado para não colocar a pessoa com deficiência como responsável por sua própria inclusão
Uma conclusão fraca poderia afirmar:
“As pessoas com deficiência precisam lutar mais por seus direitos.”
Isso transfere o problema para justamente quem enfrenta as barreiras.
Pessoas com deficiência podem participar de movimentos sociais e reivindicações, evidentemente, mas a responsabilidade pela garantia dos direitos precisa envolver Estado, instituições e sociedade.
Quem construiu a barreira precisa participar de sua remoção.
Essa lógica fortalece sua intervenção.
Inclusão começa no planejamento
Existe uma diferença importante entre adaptar depois e planejar de maneira acessível desde o início.
Quando um prédio é construído e somente depois alguém percebe que não existe acesso adequado, a acessibilidade aparece como correção.
Uma sociedade verdadeiramente inclusiva deveria considerar diferentes necessidades desde a fase inicial dos projetos.
Esse raciocínio também pode ser aplicado a:
escolas;
transportes;
aplicativos;
eventos;
materiais didáticos;
políticas públicas.
A acessibilidade deixa de ser exceção.
Passa a ser princípio.
Quero seu projeto de texto nos comentários
Como fazemos nas nossas quintas-feiras, não é necessário publicar uma redação inteira. Hoje você pode treinar o planejamento e compartilhar sua tese, seus dois argumentos e o repertório que utilizaria.
Observe também a coesão entre essas partes. Sua tese precisa anunciar os eixos; os desenvolvimentos precisam cumprir aquilo que foi anunciado; e a intervenção deve responder diretamente aos problemas discutidos.
Esse exercício ajuda a perceber a Redação como projeto completo, e não como quatro parágrafos produzidos separadamente.
Um exemplo de planejamento
Você poderia organizar assim:
Tese: a inclusão ainda é prejudicada por barreiras físicas e capacitismo.
D1: acessibilidade urbana insuficiente.
Causa: planejamento que historicamente não considerou diferentes necessidades.
Consequência: limitação de autonomia e participação.
Repertório: Lei Brasileira de Inclusão.
D2: capacitismo.
Causa: estereótipos de incapacidade.
Consequência: redução de oportunidades educacionais e profissionais.
Repertório: conceito de capacitismo.
Intervenção: ampliação da acessibilidade + ações permanentes contra discriminação.
Com esse esqueleto, escrever se torna muito mais fácil.
Outra possibilidade de planejamento
Outro estudante poderia escolher:
D1: educação inclusiva insuficiente.
D2: acessibilidade digital.
Nesse caso, os repertórios e as intervenções seriam diferentes.
E isso é perfeitamente válido.
Não existe uma redação única.
Existe uma exigência:
construir um projeto coerente.
Evite o texto excessivamente emocional
Esse tema pode despertar empatia, mas uma redação argumentativa precisa organizar essa sensibilidade dentro de um raciocínio.
Evite frases como:
“É muito triste que pessoas com deficiência sofram tanto.”
Você pode transformar esse sentimento em argumento:
“A permanência de barreiras arquitetônicas e atitudinais demonstra que o direito à participação social ainda não é exercido em igualdade de condições.”
A segunda formulação é mais objetiva e desenvolvível.
Evite também tratar pessoas com deficiência como um grupo homogêneo
Existem diferentes deficiências.
Físicas.
Sensoriais.
Intelectuais.
Psicossociais.
E mesmo dentro de uma mesma categoria, as experiências podem ser bastante diferentes.
Por isso, tenha cuidado com generalizações como:
“As pessoas com deficiência precisam sempre de ajuda.”
Essa afirmação é capacitista e incorreta.
Muitas podem viver com ampla autonomia quando encontram ambientes acessíveis.
A necessidade de apoio varia.
Um bom argumento muda o foco
Compare:
“Pessoas com deficiência possuem dificuldades para entrar em prédios.”
Agora:
“Prédios sem rotas acessíveis criam barreiras que impedem determinadas pessoas com deficiência de exercer sua autonomia.”
A segunda construção modifica completamente o foco.
O problema deixa de ser colocado somente no indivíduo.
Passa para a relação entre pessoa e ambiente.
Essa diferença conceitual pode elevar muito a qualidade da Redação.
Amanhã: Simulado da Semana 7
No Dia 48 da Revisão Monstro — ENEM em 77 dias, teremos novamente nosso Simulado da Semana.
As questões deverão retomar:
Modernismo — primeira fase e Semana de 22;
concordância verbal e nominal;
coesão textual;
interpretação;
e aspectos relacionados à construção argumentativa da proposta de hoje.
Faça primeiro sem consultar.
Depois confira os comentários.
E atualize seu caderno de erros.
Quanto mais perto da prova, mais importante se torna saber exatamente aquilo que ainda precisa ser revisado.
Faltam 31 dias: inclusão também é aprender a enxergar as barreiras
Quando pensamos em acessibilidade, existe uma mudança de perspectiva muito importante.
Talvez uma pessoa encontre uma escada.
Outra apenas veja uma entrada.
Talvez alguém abra um aplicativo sem dificuldade.
Outra pessoa encontre uma interface completamente inacessível.
Talvez uma aula pareça perfeitamente organizada para alguns alunos e apresente obstáculos enormes para outros.
A mesma sociedade não é experimentada da mesma maneira por todos.
É por isso que inclusão exige mais do que boa intenção.
Exige planejamento.
Escuta.
Acessibilidade.
Direitos.
Participação.
Faltam 31 dias para o ENEM, e o tema de hoje nos oferece também uma excelente lição de interpretação: muitas vezes, compreender um problema exige mudar o ponto de vista e perceber obstáculos que não aparecem imediatamente para quem não precisa enfrentá-los.
Na Redação, faça exatamente isso.
Não fique na superfície.
Pergunte quem está sendo afetado.
Que barreira existe.
Quem pode removê-la.
E o que mudaria se ela deixasse de existir.
É assim que um tema começa a se transformar em argumento.
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Uma sociedade inclusiva não é aquela em que algumas pessoas conseguem superar barreiras extraordinárias; é aquela que trabalha para que essas barreiras deixem de existir.
