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Nossa série de resumos completos chega agora a uma das obras mais importantes e também mais desafiadoras de toda a literatura brasileira: Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Publicado em 1956, o romance acompanha as memórias de Riobaldo, antigo jagunço que, já velho e estabelecido como fazendeiro, conta sua vida a um visitante culto que permanece praticamente silencioso durante toda a narrativa.
Ao reconstruir seu passado, Riobaldo fala das guerras entre grupos de jagunços, dos chefes que conheceu, das travessias pelo sertão, de sua relação com Diadorim e, sobretudo, de uma dúvida que nunca conseguiu resolver completamente: o diabo existe? Essa pergunta ganha força porque Riobaldo acredita ter realizado um pacto com o demônio nas Veredas-Mortas, buscando coragem e poder para derrotar o inimigo Hermógenes. O romance, porém, jamais confirma objetivamente que esse pacto realmente tenha ocorrido.
É justamente nessa incerteza que está uma das maiores riquezas da obra. Grande Sertão: Veredas pode ser lido como romance regionalista, narrativa de formação, história de guerra, romance de amor, investigação filosófica e experiência linguística. Guimarães Rosa transforma o sertão em um espaço capaz de discutir temas universais como identidade, destino, fé, violência, amor, liberdade, responsabilidade e a difícil fronteira entre o bem e o mal.
Aviso de spoilers
Este artigo apresenta o enredo completo de Grande Sertão: Veredas, incluindo o pacto de Riobaldo, sua transformação em chefe jagunço, a batalha final contra Hermógenes, a morte de Diadorim e a revelação sobre sua identidade. Caso você ainda pretenda realizar uma primeira leitura sem conhecer o desfecho, recomendamos que retorne a este conteúdo depois de concluir o romance.
Ficha da obra
Título: Grande Sertão: Veredas
Autor: João Guimarães Rosa
Primeira publicação: 1956
Gênero: romance
Movimento literário: Modernismo brasileiro
Fase: terceira geração modernista, tradicionalmente associada à Geração de 45
Subgênero: romance regionalista, psicológico, filosófico e de formação
Narrador: Riobaldo
Foco narrativo: primeira pessoa
Estrutura: narrativa contínua, sem divisão tradicional em capítulos
Tempo: não linear, organizado pelas lembranças de Riobaldo
Espaço: sertão brasileiro, sobretudo regiões correspondentes a Minas Gerais, Goiás e Bahia
Personagens centrais: Riobaldo, Diadorim, Joca Ramiro, Hermógenes, Ricardão, Zé Bebelo, Medeiro Vaz e Otacília
Temas principais: bem e mal, amor, identidade, destino, livre-arbítrio, violência, religiosidade, poder, linguagem e existência
Contexto histórico e literário
Publicado em 1956, Grande Sertão: Veredas surgiu em um momento de intensa renovação da literatura brasileira. O regionalismo já possuía uma tradição consolidada, especialmente desde o século XIX e depois durante o chamado Romance de 30, quando diferentes autores utilizaram regiões brasileiras para discutir desigualdade, relações de trabalho, conflitos políticos e identidade nacional.
Guimarães Rosa, entretanto, realiza uma transformação profunda desse regionalismo. O sertão continua presente com seus jagunços, fazendeiros, rios, veredas, animais, plantas, conflitos armados e relações de poder, mas deixa de ser apenas um espaço geográfico ou social. Ele passa a funcionar também como um território filosófico, em que cada travessia pode ser entendida como imagem das escolhas, dos conflitos e das incertezas que fazem parte da existência humana.
Riobaldo não pergunta apenas como sobreviver no sertão ou como vencer seus inimigos. Ele se pergunta o que é o mal, se o destino realmente existe, se os seres humanos escolhem seus próprios atos, se Deus e o diabo são forças externas ou se ambos podem estar misturados dentro das pessoas. Também tenta compreender seu amor por Diadorim e o modo como esse sentimento desafiou tudo aquilo que acreditava saber sobre si mesmo.
O sertão de Guimarães Rosa, portanto, ultrapassa sua dimensão regional e passa a representar a própria condição humana. É por isso que uma das ideias fundamentais do romance afirma que o sertão está em toda parte: ele não se limita ao mapa, mas também existe dentro de cada pessoa.
Uma observação importante antes de acompanhar o enredo
Diferentemente de um romance tradicional, Grande Sertão: Veredas não apresenta os acontecimentos em ordem cronológica. Riobaldo conta sua história muitos anos depois dos fatos e organiza a narrativa de acordo com o funcionamento da memória, o que significa que ele avança, interrompe-se, volta no tempo, antecipa acontecimentos e corrige aquilo que acabou de dizer.
Para facilitar o estudo, este resumo reorganiza os principais acontecimentos em uma sequência aproximadamente cronológica. Essa organização ajuda a compreender o enredo, mas é importante lembrar para o vestibular que essa não é a ordem exata em que Guimarães Rosa apresenta os fatos no livro. A fragmentação e os retornos da memória fazem parte da própria construção literária da obra.
Quem é Riobaldo?
Riobaldo é o narrador e protagonista. Quando conta sua história, já é um homem mais velho, proprietário de terras e afastado da vida de jagunço. Durante grande parte da juventude, porém, percorreu o sertão participando de conflitos armados, convivendo com diferentes chefes e experimentando tanto a lealdade quanto a traição.
Ao longo da narrativa, Riobaldo recebe diferentes nomes. Em determinado período é conhecido como Tatarana, apelido ligado à sua habilidade com armas de fogo. Mais tarde, quando assume a liderança de um grupo de jagunços, passa a ser chamado de Urutu-Branco, nome que marca sua transformação em chefe.
Apesar da experiência violenta, Riobaldo não é apresentado como um homem intelectualmente limitado. Ele pensa constantemente e procura compreender aquilo que viveu. Questiona suas escolhas, suas lembranças, o papel de Deus, a possível existência do diabo e a natureza de seu amor por Diadorim. Grande parte do romance acontece justamente dentro dessa consciência inquieta.
O interlocutor silencioso
Riobaldo conta sua história para um visitante culto, provavelmente vindo da cidade. Esse homem permanece quase completamente silencioso, e o leitor nunca tem acesso direto às suas perguntas, embora seja possível perceber que elas existem porque Riobaldo frequentemente reage a comentários ou questionamentos.
Esse recurso produz um efeito importante. O romance parece uma longa conversa, mas ouvimos apenas uma das vozes. O leitor acaba ocupando simbolicamente a posição desse visitante e se transforma naquele que escuta, acompanha e tenta interpretar a vida de Riobaldo.
O encontro com o Menino
Um dos acontecimentos mais importantes da juventude de Riobaldo ocorre quando ele encontra um garoto misterioso, ainda durante a adolescência. Os dois realizam juntos uma travessia de rio em uma pequena embarcação, e Riobaldo sente medo diante da situação, enquanto o Menino demonstra coragem e segurança.
A presença daquele garoto causa uma impressão muito forte. Riobaldo percebe nele algo difícil de explicar, uma mistura de beleza, coragem e fascínio. Anos depois, descobrirá que aquele Menino é o mesmo personagem que conhecerá como Reinaldo e que mais tarde revelará um nome íntimo: Diadorim.
Esse primeiro encontro é fundamental porque estabelece desde cedo a conexão entre os dois. O romance apresenta o vínculo antes que Riobaldo seja capaz de compreender plenamente o que sente, criando uma relação marcada desde o início por atração, admiração e mistério.
A juventude de Riobaldo
Riobaldo cresce no sertão e recebe alguma instrução, chegando a aprender a ler e escrever. Em determinado período de sua juventude, trabalha como professor, atividade que o diferencia de muitos homens com quem mais tarde conviverá na jagunçagem.
É nesse contexto que ele conhece Zé Bebelo, personagem que possui ambições políticas e deseja combater os jagunços, considerados por ele responsáveis pela desordem do sertão. Riobaldo passa a trabalhar ao seu lado e acompanha parte de suas ações, mas logo começa a sentir que aquele caminho não corresponde completamente ao seu destino.
A convivência com Zé Bebelo é importante porque demonstra desde cedo como as posições no romance são instáveis. Aquele que inicialmente combate jagunços mais tarde passará a comandá-los, mostrando que Guimarães Rosa evita criar divisões simples entre inimigos e aliados.
Zé Bebelo
Zé Bebelo é uma das personagens mais complexas da obra. Inicialmente aparece como homem interessado em estabelecer ordem no sertão, combater grupos armados e conquistar reconhecimento político. Sua ambição não é apenas militar, mas também pública, pois deseja construir uma carreira e apresentar-se como agente de civilização.
Riobaldo acompanha suas tropas durante algum tempo, mas começa a desconfiar daquela posição. Mais tarde, Zé Bebelo será capturado pelos próprios jagunços que pretendia combater e acabará participando de outra configuração de forças no sertão.
Essa mudança mostra uma característica fundamental do romance: as categorias raramente permanecem estáveis. Aliados podem tornar-se inimigos, inimigos podem transformar-se em aliados e aquilo que parece justo em determinado momento pode parecer duvidoso em outro.
Riobaldo entra para a jagunçagem
Depois de se afastar do grupo de Zé Bebelo, Riobaldo aproxima-se dos jagunços ligados a Joca Ramiro. É nesse ambiente que reencontra Reinaldo, o mesmo Menino conhecido anos antes durante a travessia do rio.
O reencontro desperta imediatamente aquela antiga impressão. Riobaldo reconhece algo familiar na presença do companheiro e passa a conviver com ele cada vez mais intensamente. Reinaldo é corajoso, habilidoso e profundamente leal a Joca Ramiro.
A amizade entre os dois cresce, mas Riobaldo percebe que aquilo que sente não se limita à camaradagem. A relação com Reinaldo passa a ocupar um espaço central em sua consciência.
Reinaldo revela o nome Diadorim
Em determinado momento, Reinaldo revela a Riobaldo um nome secreto: Diadorim. Ele pede que esse nome seja utilizado apenas entre os dois, criando uma espécie de espaço íntimo dentro da vida coletiva dos jagunços.
Para os demais homens, ele continua sendo Reinaldo. Para Riobaldo, porém, passa a ser Diadorim. Essa dupla identidade aumenta a proximidade entre os personagens e também reforça o mistério que envolverá toda a relação.
O nome secreto funciona como sinal de confiança, mas também como indício de que existe algo em Diadorim que Riobaldo ainda não conhece completamente.
Quem é Joca Ramiro?
Joca Ramiro é um dos grandes chefes jagunços do sertão. É respeitado por seus homens e possui enorme prestígio, funcionando como referência de liderança, coragem e honra dentro daquele universo.
Diadorim demonstra por ele uma lealdade intensa. Em um primeiro momento, Riobaldo compreende essa relação apenas como admiração pelo chefe, mas mais tarde descobrirá que existe um laço familiar muito mais profundo entre os dois.
Entre os homens ligados a Joca Ramiro estão também figuras importantes como Hermógenes e Ricardão, que terão participação decisiva na tragédia central da narrativa.
O julgamento de Zé Bebelo
Durante os conflitos, Zé Bebelo acaba capturado pelos homens de Joca Ramiro. Dentro da lógica violenta da jagunçagem, seria possível simplesmente executá-lo, mas Joca Ramiro decide organizar uma espécie de julgamento.
Diversos chefes apresentam opiniões sobre o destino do prisioneiro, e Zé Bebelo tem oportunidade de defender-se. A cena é importante porque revela que, mesmo em um ambiente marcado pela violência, existe uma tentativa de construir códigos de honra, regras e formas de justiça.
Ao final, a vida de Zé Bebelo é poupada, mas ele precisa deixar o sertão. A decisão aumenta ainda mais o prestígio de Joca Ramiro, mas também produz ressentimentos entre alguns homens, especialmente aqueles que consideravam a punição insuficiente.
A traição contra Joca Ramiro
Hermógenes e Ricardão se voltam contra Joca Ramiro. O grande chefe é assassinado de maneira considerada traiçoeira, rompendo o código de lealdade que organizava parte das relações entre os jagunços.
A partir desse momento, grande parte da narrativa passa a ser organizada pela busca de vingança. Os antigos seguidores de Joca Ramiro desejam eliminar os responsáveis, especialmente Hermógenes e Ricardão, que passam a ser vistos como traidores absolutos.
Diadorim assume essa vingança como uma missão pessoal. Sua determinação se torna ainda mais intensa do que a dos demais homens, embora Riobaldo ainda não compreenda completamente a razão dessa ligação.
A guerra contra os “judas”
Hermógenes e Ricardão passam a ser chamados de “judas”, em referência à traição. Os jagunços leais a Joca Ramiro reorganizam-se e iniciam uma longa perseguição, marcada por combates, deslocamentos, emboscadas e travessias pelo sertão.
É nesse período que Riobaldo amadurece como guerreiro. Sua habilidade com armas cresce e seu prestígio aumenta, mas ao mesmo tempo suas dúvidas interiores tornam-se mais intensas.
A guerra não funciona apenas como pano de fundo para a ação. Ela coloca Riobaldo diante de questões sobre honra, justiça, violência, responsabilidade e vingança.
Medeiro Vaz
Depois da morte de Joca Ramiro, Medeiro Vaz assume uma das principais lideranças do grupo. É um homem respeitado e determinado, comprometido com a vingança contra Hermógenes.
Sob seu comando, os jagunços percorrem regiões extremamente difíceis. O objetivo é encontrar os traidores, mas o sertão impõe obstáculos tão perigosos quanto os próprios inimigos.
Essa fase da narrativa demonstra que a natureza não é apenas cenário. Ela também participa dos conflitos, impondo limites, alterando estratégias e testando as personagens.
O Liso do Sussuarão
O Liso do Sussuarão é uma das regiões mais hostis do romance. Trata-se de uma área marcada pela falta de água, pelo calor extremo e por condições quase impossíveis de travessia.
Na primeira tentativa, os jagunços não conseguem atravessar. O sertão parece impor uma barreira que nem mesmo homens acostumados ao perigo conseguem superar.
Mais tarde, quando Riobaldo já estiver transformado em Urutu-Branco, conseguirá realizar a travessia. Essa diferença será importante para sua dúvida sobre o pacto, pois ele passará a se perguntar se o sucesso resultou de uma força sobrenatural ou apenas de sua própria transformação psicológica.
A morte de Medeiro Vaz
Medeiro Vaz adoece gravemente e percebe que não poderá continuar liderando o grupo. Sua morte deixa os jagunços novamente diante da necessidade de reorganização e comando.
A liderança muda de mãos, e diferentes figuras passam a ocupar posições de destaque. Essa instabilidade acompanha toda a narrativa, mostrando que o poder dentro da jagunçagem depende de prestígio, coragem e capacidade de comando.
Riobaldo observa essas transformações e, pouco a pouco, começa a perceber que também poderia ocupar uma posição de liderança.
Zé Bebelo retorna
Zé Bebelo retorna ao sertão em uma situação completamente diferente daquela em que havia aparecido inicialmente. O antigo inimigo dos jagunços passa agora a liderar homens interessados em vingar Joca Ramiro.
Riobaldo volta a conviver com ele e reconhece suas qualidades, mas também passa a desconfiar de algumas decisões. O personagem que antes representava uma força externa de combate aos jagunços agora se encontra inserido naquele mesmo universo.
Essa inversão reforça um dos princípios centrais do romance: o mundo não se organiza em categorias fixas. As posições mudam conforme as circunstâncias, e as pessoas podem ocupar lugares contraditórios ao longo da vida.
A Fazenda dos Tucanos
Um dos episódios mais tensos ocorre quando o grupo de Zé Bebelo fica cercado na Fazenda dos Tucanos. Os homens de Hermógenes atacam e os jagunços permanecem encurralados, enfrentando mortes, ferimentos, medo e destruição.
Riobaldo começa a desconfiar da capacidade de liderança de Zé Bebelo. Aquilo que antes parecia força e estratégia agora lhe parece insuficiente diante da gravidade da situação.
A experiência contribui para o crescimento de sua própria ambição. Ele passa a perceber que talvez seja capaz de comandar os homens e enfrentar Hermógenes de maneira mais eficiente.
O amor por Diadorim
Durante toda essa trajetória, Riobaldo sente uma atração cada vez mais forte por Diadorim. Esse sentimento provoca enorme conflito porque, durante praticamente toda a convivência, ele acredita que Diadorim é homem.
Por isso, tenta interpretar seu amor como amizade, admiração ou lealdade. No entanto, sabe intimamente que aquilo ultrapassa a camaradagem. Deseja a presença de Diadorim, observa seus olhos, seus gestos, sua coragem e sua delicadeza.
Ao mesmo tempo, sente culpa, medo e confusão. Não consegue encaixar esse sentimento dentro das categorias que conhece e passa a lutar contra si mesmo.
Diadorim e a natureza
Diadorim possui uma relação especial com a natureza e ensina Riobaldo a prestar atenção em pássaros, plantas, rios e pequenas belezas do sertão. Essa sensibilidade surpreende porque contrasta com a violência da vida jagunça.
Um dos pássaros ligados à personagem é o manuelzinho-da-croa, que se transforma em imagem de delicadeza e contemplação. Diadorim consegue existir simultaneamente como guerreiro e como personagem profundamente sensível.
Essa dualidade aumenta o fascínio de Riobaldo. Ele percebe que Diadorim não cabe facilmente em nenhuma definição simples.
Otacília
Em determinado momento, Riobaldo conhece Otacília, mulher associada a um universo muito diferente daquele da jagunçagem. Ela representa estabilidade, religiosidade, família e uma vida socialmente organizada.
Riobaldo imagina casar-se com ela e construir uma existência fora das guerras. O sentimento por Otacília oferece uma possibilidade compreensível e segura.
Diadorim, por outro lado, representa paixão, mistério, guerra e conflito interior. As duas relações ocupam posições muito diferentes na consciência de Riobaldo e revelam desejos também diferentes.
Nhorinhá
Outra personagem importante é Nhorinhá, com quem Riobaldo vive uma experiência amorosa de natureza mais corporal e imediata. Sua presença ajuda a mostrar que o protagonista se relaciona com o desejo de maneiras distintas ao longo da vida.
Nhorinhá, Otacília e Diadorim representam experiências afetivas diferentes. Apesar disso, nenhuma delas consegue eliminar a força do sentimento de Riobaldo por Diadorim.
Esse amor permanece como a experiência mais profunda e difícil de compreender de sua vida.
O problema do bem e do mal
Enquanto participa das guerras, Riobaldo convive com homens extremamente violentos. O maior símbolo dessa brutalidade é Hermógenes, personagem associada à crueldade, à traição e ao medo.
Riobaldo começa a acreditar que Hermógenes talvez tenha realizado um pacto com o diabo. Essa ideia oferece uma explicação para sua força e para a capacidade de escapar das perseguições.
Se Hermógenes possui algum tipo de poder sobrenatural, pensa Riobaldo, talvez seja necessário recorrer a força semelhante para derrotá-lo. É assim que o protagonista se aproxima de uma das decisões mais importantes de sua vida.
O diabo existe?
Essa pergunta aparece desde o início do romance e atravessa toda a narrativa. Riobaldo utiliza diferentes nomes para o demônio e alterna entre o medo de sua existência e o desejo de acreditar que ele não passa de invenção humana.
O problema, no entanto, vai muito além da religião. Se o diabo existe como entidade independente, então parte do mal pode ser atribuída a uma força externa. Mas se ele não existe, talvez seja necessário admitir que o mal nasce dentro dos próprios seres humanos.
Riobaldo nunca consegue resolver completamente essa questão, e o romance também evita oferecer uma resposta definitiva ao leitor.
As Veredas-Mortas
Riobaldo decide realizar um pacto e vai sozinho até um lugar conhecido como Veredas-Mortas. Durante a noite, chama pelo diabo e oferece sua alma em troca de força, coragem e poder.
Ele espera algum tipo de manifestação sobrenatural, mas nada acontece de maneira objetiva. Não surge criatura alguma, não existe contrato e nenhuma voz se apresenta claramente.
Mesmo assim, Riobaldo retorna daquele lugar sentindo-se diferente. A experiência terá enorme importância porque, a partir desse momento, ele começa a agir com uma segurança que antes não possuía.
Houve realmente um pacto?
O romance nunca responde definitivamente. Depois da noite nas Veredas-Mortas, Riobaldo torna-se mais confiante, decidido e autoritário, começando a acreditar que possui força suficiente para assumir o comando dos jagunços.
Essa mudança pode ser interpretada de duas maneiras. Talvez o pacto tenha ocorrido e produzido um efeito sobrenatural. Mas também é possível entender que a experiência apenas funcionou como gatilho psicológico, permitindo que Riobaldo reconhecesse uma força que já existia dentro dele.
Guimarães Rosa mantém deliberadamente as duas possibilidades abertas. A dúvida é mais importante do que uma resposta objetiva.
Riobaldo torna-se Urutu-Branco
A transformação psicológica logo se transforma em mudança política. Riobaldo desafia a liderança de Zé Bebelo e gradualmente assume o comando dos jagunços.
É nesse momento que passa a ser chamado Urutu-Branco. Como chefe, demonstra capacidade estratégica, coragem e autoridade, conquistando o respeito dos homens.
Essa mudança reforça ainda mais sua dúvida sobre o pacto. Riobaldo não sabe se sua força veio do demônio ou se sempre esteve dentro dele.
A segunda travessia do Liso do Sussuarão
Agora sob o comando de Riobaldo, os jagunços enfrentam novamente o Liso do Sussuarão. Desta vez, conseguem atravessar a região anteriormente considerada quase impossível.
A realização parece confirmar que algo realmente mudou. Riobaldo consegue aquilo que antes havia fracassado e passa a enxergar o sucesso como possível sinal do pacto.
Entretanto, também existe outra explicação. A travessia pode ter sido resultado de liderança, planejamento, experiência e confiança.
A dúvida permanece, e é justamente ela que alimenta grande parte da reflexão do narrador velho.
A perseguição a Hermógenes
Riobaldo conduz seus homens em busca dos inimigos. O objetivo central continua sendo Hermógenes, pois a vingança pela morte de Joca Ramiro ainda não está completa.
Diadorim permanece totalmente comprometido com essa missão. Para ele, derrotar Hermógenes possui um significado muito mais profundo do que simples lealdade entre jagunços.
Riobaldo percebe essa intensidade, mas ainda não conhece toda a verdade sobre a relação entre Diadorim e Joca Ramiro.
A morte de Ricardão
Durante a campanha, Ricardão, outro responsável pela traição contra Joca Ramiro, é morto. A vingança avança e resta principalmente Hermógenes.
A aproximação da vitória, porém, não traz tranquilidade. Riobaldo sente que também se aproxima de uma tragédia, e sua narrativa, construída muitos anos depois, frequentemente deixa escapar sinais de que algo terrível está por acontecer.
A morte de Ricardão elimina parte da dívida de sangue, mas não resolve o conflito central.
O segredo de Diadorim
Durante toda a convivência, Diadorim mantém seu segredo. Riobaldo sabe que há algo escondido, mas acredita que seu companheiro é homem.
Essa percepção determina toda a maneira como interpreta o próprio amor. Ele tenta reprimir o desejo e luta contra aquilo que sente.
A verdade será revelada apenas depois da batalha final, quando já não haverá possibilidade de modificar o passado.
A batalha do Paredão
O confronto decisivo ocorre no Paredão. Os grupos inimigos finalmente se enfrentam, e a violência atinge seu ponto máximo.
Riobaldo acompanha grande parte da batalha em posição de comando. Em meio ao conflito, Diadorim encontra Hermógenes.
Esse encontro representa o cumprimento da missão que a personagem perseguiu durante grande parte da vida.
Diadorim contra Hermógenes
Diadorim e Hermógenes entram em combate direto. O confronto é brutal e termina com a morte de Hermógenes, finalmente punido pela participação no assassinato de Joca Ramiro.
A vingança, porém, cobra um preço devastador. Diadorim também recebe ferimentos fatais e morre.
A vitória que deveria encerrar a guerra transforma-se imediatamente na maior tragédia da vida de Riobaldo.
A morte de Diadorim
Depois da batalha, o corpo de Diadorim é preparado. É nesse momento que acontece a grande revelação do romance.
Ao despirem o corpo, descobrem que Diadorim possuía corpo feminino. Riobaldo fica completamente devastado, pois a pessoa que amou durante tantos anos e que acreditava ser homem era uma mulher que havia vivido entre os jagunços sob identidade masculina.
Seu nome é revelado como Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins. A descoberta reorganiza retrospectivamente toda a experiência do narrador.
Diadorim era filha de Joca Ramiro
Riobaldo também compreende plenamente a ligação entre Diadorim e Joca Ramiro. Ela era filha de Joca Ramiro, e por isso sua obsessão por matar Hermógenes não representava apenas fidelidade ao antigo chefe.
Tratava-se também de uma vingança pela morte do próprio pai. O conflito assume, portanto, uma dimensão familiar e pessoal ainda mais profunda.
Essa revelação permite ao leitor compreender melhor várias atitudes de Diadorim ao longo da narrativa.
O choque de Riobaldo
A descoberta destrói Riobaldo emocionalmente. Durante anos, ele havia lutado contra o próprio sentimento porque acreditava amar um homem e considerava esse amor impossível de assumir.
Depois da morte, descobre que aquilo que parecia impossível poderia ter sido vivido de outra maneira. Mas o conhecimento chega tarde demais.
Essa é uma das maiores tragédias do romance: Riobaldo finalmente compreende parte de sua história justamente quando já não pode alterar nada.
O significado da revelação
A revelação sobre Diadorim não deve ser interpretada apenas como uma surpresa de enredo. Ela está profundamente ligada ao tema das aparências e à dificuldade de conhecer completamente outra pessoa.
Durante todo o romance, Riobaldo tenta organizar o mundo em categorias: homem ou mulher, bem ou mal, Deus ou diabo, coragem ou medo, amor ou amizade. No entanto, a realidade continuamente escapa dessas divisões.
Diadorim é a manifestação mais poderosa dessa instabilidade. O amor de Riobaldo já existia antes da revelação, mostrando que o sentimento ultrapassava as classificações que ele tentava impor à experiência.
O fim da jagunçagem
Depois da morte de Diadorim e da derrota de Hermógenes, Riobaldo perde o interesse pela vida jagunça. A grande missão chegou ao fim e a vingança foi realizada, mas aquilo que realmente importava para ele foi perdido.
A guerra já não possui o mesmo sentido. Riobaldo abandona progressivamente aquele universo e entra em outra fase da vida.
Mais tarde, torna-se proprietário de terras, afastando-se da violência cotidiana que marcou sua juventude.
Riobaldo e Otacília
Riobaldo reencontra a possibilidade de estabilidade representada por Otacília. Os dois se casam, e ele passa a viver como fazendeiro.
Externamente, sua vida torna-se mais tranquila. A jagunçagem fica no passado e Riobaldo alcança uma posição econômica relativamente estável.
Internamente, porém, continua preso às perguntas. Diadorim, o pacto e o diabo permanecem vivos em sua memória.
O narrador velho
Quando encontramos Riobaldo como narrador, ele já não é Tatarana nem Urutu-Branco. É um homem mais velho tentando compreender quem foi e quais forças determinaram sua trajetória.
Possui terras, estabilidade e uma vida diferente daquela da juventude. Mesmo assim, continua pensando em Diadorim e tentando descobrir se o pacto realmente aconteceu.
Narrar torna-se uma forma de investigar a própria existência. Riobaldo conta a história não apenas para informar o visitante, mas também para tentar compreender a si mesmo.
O final explicado
No final de Grande Sertão: Veredas, Riobaldo continua sem conseguir provar se o diabo existe. Ele viveu uma experiência nas Veredas-Mortas e, depois dela, tornou-se mais poderoso e confiante, mas isso não demonstra necessariamente uma intervenção sobrenatural.
Talvez a transformação tenha ocorrido apenas dentro dele. Essa possibilidade conduz a uma das ideias centrais do romance: o mal talvez não esteja em uma criatura separada chamada diabo, mas misturado ao próprio ser humano.
Riobaldo aproxima-se da ideia de que o diabo não existe como entidade independente; o que existe é o homem humano. Ainda assim, a conclusão não elimina completamente a dúvida.
O livro encerra-se com o símbolo matemático do infinito (∞). Esse sinal indica que a narrativa terminou, mas as perguntas permanecem abertas.
Por que o romance termina com ∞?
O símbolo do infinito pode ser relacionado à impossibilidade de chegar a uma resposta definitiva. Riobaldo passou toda a narrativa tentando compreender sua vida, mas termina ainda cercado de incertezas.
O infinito também combina com a própria imagem do sertão. Os caminhos se cruzam, as veredas se multiplicam e uma escolha conduz a outra, criando uma rede quase impossível de encerrar.
Por isso, o final não significa apenas que a história continua. Significa também que a interpretação do romance permanece aberta.
O significado do sertão
O sertão é um espaço geográfico real, mas também funciona como metáfora da própria existência humana. Nele, as pessoas precisam escolher caminhos sem conhecer completamente as consequências.
Há bifurcações, perigos, perdas, retornos e travessias. Riobaldo vive essas experiências no espaço físico do sertão, mas também dentro de sua própria consciência.
Por isso, o sertão pode existir em qualquer lugar. Ele representa o espaço das decisões difíceis, das dúvidas e das travessias interiores.
As veredas
As veredas são caminhos e regiões de água que atravessam o sertão. Em um ambiente hostil, funcionam muitas vezes como passagem, descanso e possibilidade de sobrevivência.
Simbolicamente, representam as diferentes possibilidades de caminho. Riobaldo passa a vida tentando compreender quais veredas escolheu e quais poderiam ter levado a outros destinos.
Seu relato é, em certo sentido, uma tentativa de reconstruir essas possibilidades.
O amor entre Riobaldo e Diadorim
O amor entre Riobaldo e Diadorim é um dos centros emocionais do romance. Riobaldo ama antes de conhecer toda a verdade sobre a identidade de Diadorim.
Isso significa que seu sentimento nasce da convivência, da admiração, da atração e da intensidade daquela relação. O amor existe antes de qualquer explicação racional.
A descoberta final não cria o sentimento. Apenas modifica retrospectivamente a maneira como Riobaldo interpreta aquilo que viveu.
Diadorim e a ambiguidade
Diadorim é uma personagem construída a partir de contrastes. É guerreiro e delicado, ligado à natureza e à violência, íntimo e secreto, próximo e misterioso.
Sua identidade desafia continuamente as categorias de Riobaldo. Por isso, está profundamente ligada ao próprio projeto filosófico do romance.
Guimarães Rosa mostra que a realidade não cabe facilmente em oposições simples.
Deus e o diabo
Riobaldo pensa constantemente nessas duas figuras porque gostaria de acreditar em uma divisão clara. Deus representaria o bem e o diabo, o mal.
Sua experiência, porém, mostra que as pessoas são muito mais contraditórias. Homens considerados bons podem cometer violência, enquanto indivíduos violentos podem demonstrar coragem ou lealdade.
Aliados se transformam em inimigos e inimigos podem ocupar posições diferentes com o tempo. O bem e o mal aparecem misturados dentro dos próprios seres humanos.
O pacto como problema filosófico
A importância do pacto não depende de sabermos se ele aconteceu. A verdadeira questão é compreender por que Riobaldo precisa tanto descobrir isso.
Se o pacto foi real, ele pode atribuir parte de sua transformação a uma força externa. Se não foi, então precisa assumir que todas as decisões de Urutu-Branco foram suas.
O episódio coloca em debate o livre-arbítrio e a responsabilidade moral. Riobaldo passa a vida tentando descobrir quem deve responder por aquilo que ele fez.
Violência e jagunçagem
A jagunçagem estrutura grande parte do enredo e coloca as personagens em um universo de disputas entre chefes locais, fazendeiros e grupos armados.
A violência é constante, mas Guimarães Rosa não utiliza esse ambiente apenas de maneira documental. A jagunçagem funciona também como espaço de experimentação moral.
Os homens criam códigos de honra, realizam julgamentos, traem, vingam, protegem e matam. Riobaldo observa tudo isso tentando descobrir se existe justiça dentro daquele mundo.
Narrador e foco narrativo
Riobaldo é narrador-personagem, e tudo chega ao leitor por meio de suas lembranças. Isso significa que não temos acesso ao passado exatamente como ele aconteceu, mas ao passado reconstruído por um homem que já conhece o desfecho.
Ele pode esquecer, reorganizar acontecimentos e interpretar antigas experiências a partir daquilo que sabe no presente. Isso é especialmente importante depois da revelação sobre Diadorim.
A narrativa, portanto, precisa ser lida como memória, e não como registro objetivo.
Tempo psicológico
A narrativa não segue uma linha cronológica simples porque Riobaldo avança e retorna de acordo com o movimento da memória. Uma lembrança desperta outra, um nome traz de volta um acontecimento e uma reflexão interrompe uma sequência de fatos.
Esse processo aproxima o romance do funcionamento real da lembrança. Quando contamos nossa própria vida, nem sempre conseguimos organizar os fatos como uma lista de datas.
Guimarães Rosa transforma essa irregularidade em forma literária.
A oralidade
O livro reproduz características de uma longa conversa. Riobaldo dirige-se ao interlocutor, faz perguntas, pede confirmação, interrompe-se, corrige-se e muda de assunto.
Esse caráter oral é fundamental para o estilo, mas não deve ser confundido com uma simples reprodução da fala popular. A linguagem do romance é altamente elaborada.
Guimarães Rosa cria uma oralidade literária, em que a voz do sertanejo se mistura à invenção poética.
A revolução linguística de Guimarães Rosa
Uma das maiores riquezas de Grande Sertão: Veredas está em sua linguagem. Guimarães Rosa utiliza neologismos, regionalismos, arcaísmos, palavras populares, construções sintáticas incomuns e combinações inesperadas.
O autor também trabalha intensamente com ritmos da oralidade, provérbios, repetições e alterações do vocabulário tradicional. A língua não serve apenas para representar o sertão; ela própria se transforma em sertão.
O leitor precisa aprender a caminhar pelas palavras da mesma maneira que Riobaldo precisa aprender a caminhar pelas veredas. A dificuldade linguística faz parte da experiência de leitura.
Regional e universal
Essa é uma das características mais importantes para vestibulares. O romance possui forte dimensão regional porque apresenta o sertão, os jagunços, os rios, os animais e os costumes locais.
Entretanto, os conflitos são universais. Amor, morte, medo, fé, destino, identidade, bem, mal e responsabilidade aparecem como questões que ultrapassam qualquer região específica.
A grande realização de Guimarães Rosa está justamente em transformar uma experiência profundamente brasileira em investigação universal da condição humana.
Características da terceira geração modernista presentes na obra
A renovação da linguagem aparece como uma das marcas mais evidentes. Guimarães Rosa rompe com padrões convencionais e cria palavras, estruturas e ritmos próprios.
O experimentalismo formal também é fundamental. O romance não possui capítulos tradicionais e sua organização acompanha a memória do narrador, criando uma narrativa contínua e não linear.
O regionalismo renovado transforma o sertão em espaço filosófico, enquanto a universalização faz com que os problemas regionais se tornem questões sobre a própria existência humana.
A investigação psicológica aparece principalmente em Riobaldo, cujos conflitos interiores ocupam grande parte da obra. Já a ambiguidade impede respostas definitivas sobre o pacto, o diabo, o destino e até mesmo sobre a maneira correta de interpretar determinados acontecimentos.
Personagens fundamentais para memorizar
Riobaldo
Riobaldo é o narrador e protagonista. Ex-jagunço conhecido como Tatarana e posteriormente Urutu-Branco, passa a vida questionando o amor, Deus, o diabo e suas próprias escolhas.
Sua trajetória permite acompanhar uma transformação profunda: de jovem inseguro e observador, torna-se guerreiro, chefe e posteriormente fazendeiro. Mesmo depois de abandonar a jagunçagem, porém, continua tentando compreender aquilo que viveu.
Diadorim
Diadorim é companheiro de Riobaldo e o grande amor de sua vida. Entre os jagunços, é conhecido principalmente como Reinaldo, enquanto Diadorim é o nome íntimo revelado ao protagonista.
Depois de sua morte, Riobaldo descobre que Diadorim possuía corpo feminino e era filha de Joca Ramiro. Essa revelação transforma retrospectivamente toda a história amorosa do narrador.
Joca Ramiro
Joca Ramiro é grande chefe jagunço, respeitado por seus homens e pai de Diadorim. Seu assassinato desencadeia o ciclo de vingança contra Hermógenes e Ricardão.
Sua morte funciona como ponto de ruptura da narrativa, pois reorganiza alianças e transforma a luta dos jagunços em missão de vingança.
Hermógenes
Hermógenes é um dos principais antagonistas. Participa da traição e da morte de Joca Ramiro e representa uma forma extrema de violência.
Riobaldo acredita que ele possa ter feito um pacto com o diabo, suspeita que contribui diretamente para sua própria decisão de procurar uma força sobrenatural.
Ricardão
Ricardão também participa da traição contra Joca Ramiro. Sua morte aproxima o grupo do objetivo final de vingança, mas deixa Hermógenes como principal inimigo.
Zé Bebelo
Zé Bebelo é personagem marcada pela ambiguidade. Começa combatendo jagunços e posteriormente passa a liderá-los na luta contra os traidores.
Essa mudança mostra como as posições políticas e morais no romance são instáveis.
Medeiro Vaz
Medeiro Vaz assume parte da liderança depois da morte de Joca Ramiro e conduz os homens durante importante fase da vingança.
Sua morte deixa o grupo novamente diante da necessidade de escolher um chefe.
Otacília
Otacília representa estabilidade, religiosidade e vida familiar. Depois da jagunçagem, Riobaldo se casa com ela e passa a viver como fazendeiro.
Sua presença funciona como contraponto à intensidade e ao mistério representados por Diadorim.
Nhorinhá
Nhorinhá representa outra dimensão das experiências amorosas de Riobaldo, mais ligada ao desejo corporal e imediato.
Sua presença ajuda a mostrar a diversidade das relações afetivas do protagonista.
Temas centrais
Bem e mal
Riobaldo tenta descobrir se o bem e o mal existem como forças externas ou se estão misturados dentro das pessoas. Essa questão atravessa toda a narrativa e se relaciona diretamente com sua dúvida sobre o diabo.
Amor
O sentimento por Diadorim desafia as certezas de Riobaldo. Ele ama antes de compreender plenamente quem é a pessoa amada e passa anos lutando contra o próprio desejo.
Identidade
Diadorim demonstra que uma pessoa pode ultrapassar as categorias pelas quais os outros tentam compreendê-la. Sua identidade transforma-se em um dos maiores enigmas da obra.
Destino
Riobaldo pergunta constantemente se sua trajetória foi determinada por forças externas ou construída por suas próprias escolhas.
Livre-arbítrio
O pacto coloca em questão a responsabilidade pelos atos. Se não houve diabo, então Riobaldo precisa reconhecer que sua transformação nasceu dele mesmo.
Religiosidade
Deus, diabo, pecado, fé e salvação aparecem constantemente no pensamento do narrador.
Violência
A jagunçagem organiza grande parte da vida social do sertão e coloca as personagens diante de dilemas morais sobre honra, vingança e justiça.
Memória
Todo o romance é uma reconstrução do passado. Riobaldo conta sua história para tentar compreendê-la.
Linguagem
Narrar e pensar tornam-se atividades quase inseparáveis. Riobaldo procura compreender a vida ao mesmo tempo em que tenta colocá-la em palavras.
Como Grande Sertão: Veredas pode aparecer no vestibular
Nos vestibulares, um dos pontos mais importantes é a linguagem de Guimarães Rosa. O estudante deve reconhecer o uso de neologismos, regionalismos, oralidade, invenções vocabulares e estruturas sintáticas inovadoras.
Outro aspecto fundamental é a relação entre regionalismo e universalidade. O sertão possui localização concreta, mas também funciona como espaço simbólico para discutir questões humanas amplas.
O pacto com o diabo merece atenção especial, pois a obra nunca confirma objetivamente que ele ocorreu. Questões podem justamente pedir que o estudante analise essa ambiguidade.
O amor entre Riobaldo e Diadorim também é central. É importante lembrar que Riobaldo acredita durante praticamente toda a convivência que Diadorim é homem e só descobre a verdade depois da morte.
A relação entre Diadorim e Joca Ramiro também costuma ser relevante. Diadorim é filha de Joca Ramiro, e sua obsessão por matar Hermógenes está diretamente ligada à vingança pela morte do pai.
A estrutura narrativa pode aparecer em questões sobre memória, tempo psicológico e foco narrativo. Riobaldo conta sua história em primeira pessoa para um interlocutor silencioso e não respeita uma sequência cronológica rígida.
O símbolo ∞ no final da obra pode ser relacionado à abertura interpretativa, à continuidade das perguntas e à própria imagem das veredas.
Atenção para algumas pegadinhas de vestibular
Riobaldo não descobre que Diadorim possuía corpo feminino durante a convivência. A descoberta ocorre apenas depois de sua morte e modifica retrospectivamente toda a compreensão do relacionamento.
Diadorim também não é simplesmente um apelido público. Para os jagunços, a personagem é conhecida principalmente como Reinaldo, enquanto o nome Diadorim é revelado intimamente a Riobaldo.
O pacto nunca é comprovado, e essa incerteza é uma característica essencial da obra. Também é importante lembrar que Riobaldo não permanece jagunço até a velhice, pois abandona essa vida, torna-se proprietário de terras e se casa com Otacília.
Zé Bebelo não ocupa uma posição fixa durante todo o romance. Começa combatendo jagunços e mais tarde passa a liderá-los, demonstrando novamente a instabilidade das posições no universo rosiano.
Pontos fundamentais para memorizar
Riobaldo é um ex-jagunço que conta sua história já velho a um interlocutor silencioso. Quando jovem, encontra um Menino durante uma travessia e, anos depois, reencontra essa pessoa como Reinaldo, que lhe revela secretamente o nome Diadorim.
Riobaldo apaixona-se por Diadorim, enquanto passa a integrar os grupos ligados a Joca Ramiro. Zé Bebelo inicialmente combate os jagunços, é capturado e julgado, mas tem a vida poupada.
Hermógenes e Ricardão traem e matam Joca Ramiro, desencadeando uma guerra de vingança. Diadorim deseja especialmente matar Hermógenes, e Riobaldo começa a acreditar que o inimigo possui ligação com o diabo.
Riobaldo tenta realizar um pacto nas Veredas-Mortas, mas o romance nunca confirma se esse pacto aconteceu de fato. Depois disso, ele assume a liderança dos jagunços e passa a ser chamado Urutu-Branco.
Na campanha final, os homens conseguem atravessar o Liso do Sussuarão. Ricardão é morto e, na batalha do Paredão, Diadorim enfrenta Hermógenes.
Diadorim consegue matar o inimigo, mas também morre. Depois da batalha, Riobaldo descobre que Diadorim possuía corpo feminino e era filha de Joca Ramiro.
Após esses acontecimentos, Riobaldo abandona a jagunçagem, casa-se com Otacília e torna-se fazendeiro. Mesmo velho, continua tentando compreender se o diabo existe e qual foi sua responsabilidade por tudo aquilo que viveu.
O romance termina com o símbolo do infinito, reforçando a ideia de que as perguntas e interpretações permanecem abertas.
Questões de revisão
1. Quem narra Grande Sertão: Veredas?
2. Em que momento da vida Riobaldo conta sua história?
3. Quem é o interlocutor de Riobaldo?
4. Quem é o Menino encontrado por Riobaldo durante sua juventude?
5. Qual é a relação entre Reinaldo e Diadorim?
6. Quem é Joca Ramiro?
7. Por que Zé Bebelo é julgado pelos jagunços?
8. Quem assassina Joca Ramiro?
9. Por que a morte de Joca Ramiro modifica o rumo da narrativa?
10. Qual é a relação entre Riobaldo e Diadorim?
11. O que Otacília representa para Riobaldo?
12. Por que Riobaldo decide procurar o diabo?
13. Onde ocorre a tentativa de pacto?
14. O romance confirma que Riobaldo realizou realmente um pacto?
15. Quem é Urutu-Branco?
16. O que representa o Liso do Sussuarão?
17. Quem mata Hermógenes?
18. O que acontece com Diadorim durante o confronto?
19. Qual é a grande revelação depois da morte de Diadorim?
20. Qual é a relação entre Diadorim e Joca Ramiro?
21. O que Riobaldo faz depois de abandonar a jagunçagem?
22. Por que a narrativa não segue uma ordem cronológica?
23. Quais características marcam a linguagem de Guimarães Rosa?
24. Por que podemos afirmar que o sertão possui dimensão universal?
25. Qual pode ser o significado do símbolo do infinito no final?
Respostas das questões de revisão
1. Riobaldo, antigo jagunço e protagonista da obra, narra sua própria história muitos anos depois dos acontecimentos.
2. Ele conta sua história quando já está mais velho, afastado da jagunçagem e estabelecido como proprietário rural.
3. Seu interlocutor é um visitante culto que praticamente não fala diretamente na narrativa, mas funciona como ouvinte de sua longa confissão.
4. O Menino é a pessoa que Riobaldo reencontrará mais tarde como Reinaldo e que lhe revelará o nome íntimo Diadorim.
5. Reinaldo é o nome pelo qual a personagem é conhecida entre os jagunços, enquanto Diadorim é o nome secreto utilizado na intimidade com Riobaldo.
6. Joca Ramiro é um importante e respeitado chefe jagunço, além de pai de Diadorim.
7. Zé Bebelo é julgado porque havia liderado forças destinadas a combater os jagunços e acabou capturado pelos homens de Joca Ramiro.
8. Hermógenes e Ricardão participam da traição responsável pela morte de Joca Ramiro.
9. Sua morte desencadeia uma longa guerra de vingança, que passa a organizar grande parte da narrativa.
10. Riobaldo desenvolve por Diadorim um amor intenso que, durante grande parte da história, acredita estar dirigido a outro homem.
11. Otacília representa uma possibilidade de estabilidade, casamento, religiosidade e vida fora da jagunçagem.
12. Riobaldo acredita que Hermógenes possa possuir poder demoníaco e deseja obter força suficiente para derrotá-lo.
13. A tentativa de pacto ocorre nas Veredas-Mortas.
14. Não. O episódio permanece deliberadamente ambíguo, e o romance nunca apresenta uma prova objetiva.
15. Urutu-Branco é o nome assumido por Riobaldo quando se torna chefe dos jagunços.
16. Além de região extremamente hostil, o Liso do Sussuarão funciona como prova de liderança e símbolo das travessias difíceis enfrentadas por Riobaldo.
17. Diadorim mata Hermógenes durante a batalha final.
18. Diadorim consegue realizar sua vingança, mas também recebe ferimentos fatais e morre.
19. Riobaldo descobre que Diadorim possuía corpo feminino.
20. Diadorim era filha de Joca Ramiro, o que explica sua profunda dedicação à vingança.
21. Riobaldo abandona a jagunçagem, torna-se proprietário de terras e se casa com Otacília.
22. Porque a narrativa é organizada pela memória de Riobaldo, que avança, retorna, associa lembranças e interrompe os acontecimentos com reflexões.
23. Neologismos, regionalismos, oralidade, invenções vocabulares, alterações sintáticas e intenso experimentalismo.
24. Porque os acontecimentos sertanejos servem para discutir questões humanas amplas, como amor, morte, bem, mal, identidade, fé e livre-arbítrio.
25. O símbolo pode representar a continuidade das dúvidas, dos caminhos, das interpretações e da própria existência.
Grande Sertão: Veredas em uma ideia central
Se você precisar guardar uma ideia principal para começar sua revisão, pense que Grande Sertão: Veredas é a tentativa de um homem, já velho, de reconstruir sua vida para descobrir se o mal que encontrou pelo caminho veio do diabo, do destino ou das próprias escolhas humanas. Essa pergunta organiza praticamente toda a narrativa e ajuda a compreender por que Riobaldo fala tanto sobre fé, culpa, violência e responsabilidade.
No centro dessa investigação está Diadorim, o amor que Riobaldo só consegue compreender plenamente quando já o perdeu. Por isso, o romance transforma uma história de guerra e jagunçagem em uma reflexão profunda sobre aquilo que os seres humanos conseguem ou não compreender enquanto ainda estão vivendo suas próprias experiências.
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Grande Sertão: Veredas começa como a história de um velho jagunço falando sobre guerras no sertão, mas rapidamente percebemos que Riobaldo está tentando resolver um problema muito maior: compreender a própria vida. Ele quer saber se fez realmente um pacto com o diabo, se poderia ter vivido seu amor por Diadorim de outra maneira e se os acontecimentos foram determinados pelo destino ou produzidos por suas próprias escolhas.
Ao mesmo tempo, Riobaldo procura separar claramente o bem do mal, mas descobre que a existência raramente oferece fronteiras tão simples. Pessoas consideradas justas podem cometer violência, aliados podem mudar de lado e sentimentos podem existir antes que encontremos palavras capazes de explicá-los. Talvez seja justamente por isso que o romance termine com o símbolo do infinito: Riobaldo conclui sua narrativa, mas não consegue encerrar completamente suas perguntas.
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