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A concordância verbal costuma parecer simples quando o sujeito aparece claramente antes do verbo. Em uma frase como “Os estudantes concluíram a atividade”, não há grande dificuldade: o verbo fica no plural porque concorda com o núcleo do sujeito, “estudantes”. A situação se torna mais complexa, entretanto, quando surgem construções formadas pelos pronomes relativos que e quem.

É nesse momento que aparecem dúvidas bastante comuns: devemos escrever “Fui eu que fiz” ou “Fui eu que fez”? A forma correta é “Fomos nós quem resolveu” ou “Fomos nós quem resolvemos”? Embora essas frases sejam semelhantes, os dois pronomes não estabelecem exatamente a mesma relação com o verbo. Por isso, cada um possui um comportamento particular na concordância.

O segredo para acertar essas construções não está em decorar dezenas de exemplos isolados. É necessário compreender qual palavra o pronome relativo retoma, identificar quem pratica a ação e observar se o verbo deve acompanhar o antecedente ou permanecer na terceira pessoa do singular.

O que são pronomes relativos?

Os pronomes relativos são palavras que retomam um termo mencionado anteriormente e, ao mesmo tempo, introduzem uma nova oração. O termo retomado recebe o nome de antecedente, pois aparece antes do pronome e serve como sua referência.

Observe a construção: “O estudante que apresentou o trabalho recebeu elogios”. O pronome que retoma o substantivo “estudante” e introduz a oração “que apresentou o trabalho”. Sem esse recurso, seria necessário escrever duas frases separadas: “O estudante apresentou o trabalho. O estudante recebeu elogios”.

Além de evitar repetições, os pronomes relativos permitem acrescentar informações sobre pessoas, objetos, lugares ou ideias. Eles desempenham, portanto, uma função importante na coesão textual, pois conectam as partes da frase e estabelecem relações entre as informações.

Entre os principais pronomes relativos da língua portuguesa estão que, quem, cujo, onde, o qual e suas variações. Neste artigo, porém, vamos concentrar nossa atenção em que e quem, porque são eles que provocam as maiores dúvidas de concordância.

A regra de concordância com o pronome “que”

Quando o pronome relativo que funciona como sujeito da oração que introduz, o verbo deve concordar com o antecedente desse pronome. Em outras palavras, precisamos descobrir qual palavra aparece antes de que e está sendo retomada por ele.

Na frase “Fui eu que organizei a reunião”, o antecedente do pronome relativo é “eu”. Como o pronome representa a primeira pessoa do singular, o verbo também deve aparecer na primeira pessoa: organizei. A construção “Fui eu que organizou” não está de acordo com a norma-padrão, pois o verbo foi colocado na terceira pessoa, ignorando seu antecedente.

O mesmo raciocínio ocorre em “Fomos nós que elaboramos o projeto”. O pronome que retoma “nós”, razão pela qual o verbo deve permanecer na primeira pessoa do plural. Em “Foram os estudantes que apresentaram a proposta”, o antecedente está na terceira pessoa do plural, e o verbo acompanha essa forma.

Podemos condensar a regra da seguinte maneira:

Com o pronome relativo que, o verbo concorda com o antecedente.

Essa orientação resolve grande parte das questões relacionadas ao tema. O estudante precisa apenas localizar a expressão retomada pelo pronome e transportar sua pessoa e seu número para o verbo.

Como encontrar o antecedente de “que”?

Para localizar o antecedente, pergunte quem praticou a ação expressa pelo verbo. Na construção “Sou eu que respondo pelos documentos”, quem responde é “eu”. Por isso, utiliza-se a forma verbal respondo.

Em “És tu que conheces o regulamento”, quem conhece é “tu”. O verbo deve, portanto, ser empregado na segunda pessoa do singular: conheces. Embora essa forma seja menos frequente na linguagem cotidiana de muitas regiões brasileiras, ela continua pertencendo ao sistema da norma-padrão.

A mesma lógica aparece em “Somos nós que precisamos mudar essa situação”. O verbo precisamos concorda com o antecedente “nós”. Caso a frase fosse “São eles que precisam mudar essa situação”, o verbo passaria para a terceira pessoa do plural, acompanhando “eles”.

Essa análise mostra que o pronome relativo não apaga a relação entre o antecedente e o verbo. Ele apenas conecta as orações. A concordância continua sendo determinada pela pessoa que efetivamente pratica a ação.

O papel do verbo “ser” nessas construções

Muitas dúvidas aparecem em frases iniciadas pelo verbo ser, como “Fui eu que escrevi”, “Foi ela que escreveu” ou “Fomos nós que decidimos”. Nessas construções, o verbo ser destaca uma pessoa ou um grupo, enquanto o pronome relativo introduz a ação relacionada a esse antecedente.

Em “Fui eu que escrevi o relatório”, temos dois verbos. A forma fui pertence ao verbo “ser” e concorda com “eu”. Já o verbo escrevi aparece dentro da oração introduzida por que e também concorda com o mesmo antecedente.

Esse tipo de construção recebe valor enfático. Em vez de simplesmente dizer “Eu escrevi o relatório”, o falante afirma “Fui eu que escrevi o relatório”, destacando quem foi responsável pela ação. A concordância, entretanto, permanece a mesma: o verbo da oração relativa deve acompanhar o antecedente.

Assim, são corretas as construções “Foste tu que percebeste o erro”, “Fomos nós que iniciamos o movimento” e “Foram os professores que organizaram o evento”. Em todos os casos, o verbo introduzido por que acompanha o termo destacado.

A concordância com o pronome “quem”

Com o pronome relativo quem, a situação é um pouco diferente. A tradição gramatical recomenda que o verbo da oração relativa permaneça na terceira pessoa do singular, independentemente da pessoa gramatical do antecedente.

Dessa forma, a construção tradicional é “Fui eu quem escreveu o relatório”. Embora o antecedente seja “eu”, o verbo escreveu permanece na terceira pessoa do singular porque concorda diretamente com o pronome quem.

O mesmo ocorre em “Fomos nós quem resolveu o problema”. O antecedente está no plural, mas o verbo permanece no singular, seguindo a concordância com quem. Em uma prova de vestibular ou de concurso, essa costuma ser a forma considerada mais segura e mais próxima da tradição normativa.

A regra prática pode ser registrada assim:

Com o pronome relativo quem, a preferência tradicional é pelo verbo na terceira pessoa do singular.

Essa regra explica construções como “Sou eu quem responde”, “És tu quem conhece” e “Somos nós quem decide”. O pronome quem passa a funcionar como o elemento que controla a concordância.

“Fui eu quem fez” ou “Fui eu quem fiz”?

Embora a terceira pessoa do singular seja a forma tradicional, a língua portuguesa também admite a concordância do verbo com o antecedente do pronome quem. Esse fenômeno é conhecido como concordância atrativa.

Por essa razão, a construção “Fui eu quem fiz o trabalho” também pode ser considerada correta. Nesse caso, o verbo fiz é atraído pelo antecedente “eu” e passa para a primeira pessoa do singular. Da mesma maneira, encontramos “Fomos nós quem fizemos o trabalho” e “És tu quem conheces a verdade”.

Essas construções estão presentes em textos de escritores reconhecidos e são registradas por importantes gramáticas da língua portuguesa. Portanto, não devem ser tratadas simplesmente como erros.

A diferença fundamental entre “que” e “quem”

A distinção central pode ser observada quando substituímos um pronome pelo outro. Com que, o verbo deve acompanhar obrigatoriamente o antecedente. Com quem, a norma tradicional recomenda a terceira pessoa do singular, embora seja possível encontrar concordância com o antecedente.

Compare as frases:

Fui eu que escrevi o artigo.

Fui eu quem escreveu o artigo.

Na primeira construção, o verbo escrevi concorda com “eu”. Na segunda, escreveu concorda com o pronome “quem”, mantendo-se na terceira pessoa.

O mesmo contraste aparece em:

Fomos nós que organizamos o evento.

Fomos nós quem organizou o evento.

Na frase com que, a forma organizamos é obrigatória porque o antecedente é “nós”. Na construção com quem, a forma tradicional é organizou.

A confusão surge porque muitos estudantes tentam aplicar a regra de um pronome ao outro. Escrevem “Fomos nós que organizou” seguindo o padrão de quem, ou consideram obrigatória a forma “Fomos nós quem organizamos”, seguindo o padrão de que. A análise precisa começar pela identificação do pronome usado.

Como esse conteúdo aparece nos vestibulares

As bancas costumam cobrar o tema por meio de alternativas que alteram apenas o pronome e a forma verbal. O estudante precisa reconhecer que a substituição de que por quem pode exigir uma mudança na concordância.

Uma frase como “Fomos nós que concluímos o projeto” pode ser reescrita, dentro da tradição normativa, como “Fomos nós quem concluiu o projeto”. Se a banca mantiver “concluímos”, deverá considerar a possibilidade de concordância atrativa.

Também podem aparecer questões que pedem a identificação do antecedente ou da função sintática do pronome relativo. Nesses casos, é importante lembrar que que ou quem pode funcionar como sujeito da oração subordinada e, por isso, interferir diretamente na forma do verbo.

Na redação, o domínio desse conteúdo contribui para a correção gramatical e para a clareza. Construções como “Somos nós que devemos combater o preconceito” aparecem com frequência em textos argumentativos e precisam respeitar a concordância.

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