A cidade inteira se dissolve atrás de nós,
prédios, ruas, pressa, ruídos,
como se o mundo soubesse
que, por alguns instantes,
não precisa ser visto.
Basta o teu rosto encostado no meu,
basta essa pequena distância vencida,
basta o silêncio dizendo
aquilo que a boca ainda tenta aprender.
Há um entardecer repousando sobre nossos ombros,
uma luz cansada e bonita
que não pergunta de onde viemos
nem quantas tempestades atravessamos.
Ela apenas nos encontra juntos,
vestidos da mesma cor do céu,
como se o azul fosse uma promessa
de que ainda existe calma depois da luta.
Teu olhar não precisa sorrir
para revelar o que sente;
há ternura até na tua seriedade,
há abrigo no modo como permaneces.
E o meu sorriso, tão desarmado,
parece finalmente compreender
que amar não é encontrar alguém perfeito,
mas alguém diante de quem podemos descansar.
Talvez a felicidade seja exatamente isto:
não uma vida sem dores,
mas uma presença que torna as dores menores;
não um caminho sem medo,
mas duas pessoas caminhando apesar dele;
não um mundo inteiro em ordem,
mas alguém que fica ao nosso lado
quando tudo ao redor perde o foco.
E enquanto a tarde se despede
e a cidade continua correndo sem nós,
guardo esta imagem como quem guarda uma certeza:
entre tantas coisas passageiras,
há encontros que chegam para permanecer.
Porque, quando teu rosto repousa junto ao meu,
o mundo pode até desaparecer ao fundo —
eu ainda saberei exatamente onde estou.
