Quando o juiz apitou o início de Brasil x Japão, percebi que não era apenas uma partida de futebol. Era um encontro de duas partes da minha própria história. O Brasil é a terra que me acolheu desde o primeiro instante da minha vida. Foi aqui que nasci, cresci e construí minhas raízes. O Japão, por sua vez, tornou-se a terra que aprendi a amar depois de viver oito anos trabalhando em suas fábricas, conhecendo sua cultura, seu povo e descobrindo que um país também pode ser adotado pelo coração.
Assisti ao jogo cercado pelas pessoas que mais amo. Minha mãe, brasileira de corpo e alma, não escondia a torcida pela Seleção. Minha irmã, sansei como eu, dividia comigo o carinho pelo Samurai Blue. Minha sobrinha, com seus oito anos de entusiasmo, gritava por cada ataque brasileiro como se o mundo dependesse daquela bola. Meus filhos, Deborah e Jesseh, acompanhavam cada lance com os olhos brilhando, contagiados pelo clima da partida. A sala parecia pequena para tantas emoções.
Entre um gole de cerveja e outro, a casa alternava entre o silêncio apreensivo e os gritos de gol. Quando o Japão atacava, eu e minha irmã nos levantávamos do sofá quase sem perceber. Quando era o Brasil quem chegava ao ataque, minha mãe e minha sobrinha respondiam com a mesma intensidade. Não havia rivalidade. Havia apenas uma família aprendendo que o amor consegue vestir duas camisas ao mesmo tempo.
Muita gente acredita que torcer é uma escolha simples, mas nem sempre é. Há partidas em que o adversário não está do outro lado do campo, e sim dentro da gente. Cada passe japonês me fazia lembrar os anos vividos naquele país, das longas jornadas de trabalho, da disciplina admirável e das amizades que ainda guardo. Cada jogada brasileira trazia de volta minha infância, minha língua, minha família e tudo aquilo que fez de mim quem sou.
O futebol tem essa capacidade curiosa de condensar uma vida inteira em noventa minutos. Enquanto milhões de pessoas enxergavam apenas um confronto entre duas seleções, eu via duas histórias caminhando lado a lado. Não era Brasil contra Japão. Era passado e presente dividindo o mesmo espaço no meu coração, sem que um precisasse apagar o outro.
O Japão lutou com coragem até o fim. Organizado, disciplinado e fiel ao seu estilo, mostrou por que conquistou o respeito do mundo. Mas o futebol também costuma premiar quem insiste até o último instante. E foi assim que prevaleceu a lógica da tradição. Nos minutos finais, o Brasil encontrou forças para virar a partida e vencer por 2 a 1. A sala explodiu em comemoração de um lado e em suspiros resignados do outro. Eu sorri.
Sorri porque, naquele momento, compreendi que não havia perdido. O Brasil venceu, e isso alegrou o menino brasileiro que sempre existiu em mim. O Japão foi derrotado, mas saiu maior aos meus olhos, lembrando-me dos anos que moldaram outra parte da minha vida. Naquele apito final, não existia um coração dividido. Existia apenas um coração agradecido por pertencer, ao mesmo tempo, a dois lugares que me ensinaram, cada um à sua maneira, o significado da palavra lar.
