Acordei de madrugada
com o silêncio sobre o quarto
e teu corpo aquecido
contra o meu peito.

A cidade brilhava
atrás das cortinas
como se o mundo inteiro
estivesse distante de nós dois.

Foi então que eu vi
a fênix tatuada em sua alva
pele. Nas costas. Como se fosse
alçar voo, a qualquer momento.

Ela não brilhava uma tatuagem qualquer.
Não como tinta sobre a pele.

Mas como uma história inteira
gravada a ferro e fogo.

Passei os dedos devagar
sobre as asas abertas
e me lembrei da tua voz
me contando sobre antigos segredos
que te quebraram aos poucos.

Você falava sem raiva.
Isso doía ainda mais.

Havia apenas aquele esforço
de quem já entregou o coração
para mãos erradas
vezes demais.

Você me contou
sobre o vazio.

E eu nunca esquecerei
o jeito como pronunciou essa palavra.

Vazio.

Como se estivesse descrevendo
uma casa abandonada
depois do incêndio.

Você continuou vivendo,
trabalhando, sorrindo,
cumprindo horários,
mas por dentro
já não acreditava em recomeços.

E eu ali, naquela madrugada,
olhando a fênix nas tuas costas,
entendi tudo.

Aquela ave não simbolizava força.
Simbolizava resiliência.
Porque há pessoas
que não vencem a dor;
apenas aprendem
a respirar entre as cinzas.

Te abracei mais forte
enquanto você dormia.

E pensei em quantas vezes
a vida precisou te destruir
para que você renascesse assim:

mais silenciosa,
mais intensa
mais cautelosa
com o próprio coração.

A tua tatuagem parecia viva
na penumbra do quarto.

As asas abertas.
O fogo subindo.
O renascimento acontecend
bem diante dos meus olhos.

Então compreendi
que amar alguém como você
é tocar numa alm
que já queimou inteira
e ainda assim
escolheu acreditar no amor
mais uma vez.

E talvez seja isso
que torna teus abraços
tão profundos.

Você não ama por inocência.
Ama porque sobreviveu.