As manhãs ficaram longas demais.
O café esfria antes do primeiro gole,
e o sol parece não saber onde pousar.
Há um silêncio novo
ocupando o lugar onde o teu riso morava.
Os dias se repetem como um disco riscado —
o mesmo caminho,
as mesmas vozes,
o mesmo travesseiro sem cheiro.
A casa aprendeu a ser ausência.
Eu, a ser saudade.
Guardo tuas cartas dentro das horas,
e cada linha que releio
é um espelho quebrado refletindo o que fomos.
Às vezes falo contigo no pensamento,
e quase acredito que respondes.
Mas um dia o vento mudou de direção.
A rua onde te perdi
me levou de volta aos teus olhos.
Não houve palavra —
só o espanto de ainda cabermos no mesmo instante.
E quando te abracei,
o tempo suspendeu seu ofício.
O mundo voltou a ter centro.
O silêncio se fez canto.
E eu soube, enfim,
que o amor — o verdadeiro —
não se despede, apenas adormece
à espera do reencontro.
