A madrugada envolvia o apartamento num silêncio quase palpável. Eu estava deitado, olhos fixos no teto, quando escutei pela primeira vez ruídos estranhos vindos do apartamento vizinho. Soou como se algo pesado fosse arrastado lentamente pelo assoalho, seguido por um toc-toc ritmado, abafado pela parede. Meu coração disparou no peito. Aquele apartamento estava desocupado há meses — o som rompia o silêncio que deveria reinar ali.

Levantei devagar e encostei o ouvido à parede gelada. Fez-se um silêncio imediato, como se do outro lado alguém percebesse minha escuta. Esperei alguns instantes, prendendo a respiração. Nada. Voltei para a cama, tentando me convencer de que fora apenas o encanamento antigo ou coisa da minha imaginação. Ainda assim, o desassossego se instalou em mim, sussurrando possibilidades inquietantes no breu do quarto.

Na noite seguinte, os sons retornaram, ainda mais nítidos e persistentes. Distinguia passos leves atravessando o piso, um vaivém que fazia as tábuas do chão gemerem baixo. Por vezes, ouvi um suspiro longo ou um sussurro indecifrável flutuando pelo corredor ao lado. Cada ruído rasgava o silêncio da madrugada e me arrepiava dos pés à nuca. Tentei acreditar que fossem apenas estalos da velha estrutura do prédio ou o vento se esgueirando pelos dutos de ventilação. Contudo, a cadência dos passos era deliberada demais, denunciando a presença de alguém — ou algo — no apartamento ao lado.

No dia seguinte, confirmei com o zelador do prédio que ninguém morava naquela unidade. A informação, em vez de trazer alívio, apenas aumentou minha apreensão. Naquela noite, acordei sobressaltado, sem saber dizer se algum ruído me despertara ou se eu emergira de um pesadelo escuro. Sentei-me na cama, o quarto mergulhado em sombras densas e silenciosas. Então, o som veio novamente: um lamento baixo, vindo da parede atrás da minha cabeceira. Senti o sangue gelar nas veias. Num fio de voz, mal reconhecendo minha própria coragem, sussurrei: “Tem alguém aí?”. Nenhuma resposta — apenas o tique-taque do relógio, ritmado, preenchendo o silêncio. A essa altura, a linha entre sonho e realidade já se desfazia; eu não tinha certeza se aquele lamento tinha ressoado de fato ou se não passara de um devaneio. Depois disso, mal preguei os olhos. As noites seguintes tornaram-se vigílias ansiosas, meus sentidos em alerta para qualquer ruído mínimo vindo do outro lado da parede.

Até que, certa madrugada, reuni toda a coragem que me restava e, assim que os passos recomeçaram, saí para o corredor. A porta do apartamento vizinho estava entreaberta — fato inédito naquele prédio adormecido. Uma fresta negra convidava-me a entrar, exalando um ar gélido e estagnado. Senti o coração subir à garganta, mas ainda assim empurrei a porta, que se abriu com um leve gemido. Arrisquei um sussurro trêmulo: “Olá?”.

Lá dentro, a penumbra era espessa, como se a própria noite tivesse se derramado pelos cômodos. Tateei a parede em busca de um interruptor; meus dedos encontraram apenas pó e vazio. Dei alguns passos hesitantes para dentro. O ar cheirava a mofo, carregado de uma estranha nostalgia — como se ali dentro respirassem sonhos esquecidos. A cada passo, o assoalho rangia em protesto, um lamento rouco que ecoava de quarto em quarto. Chamei novamente, mas minha voz morreu em algum canto, sufocada pela escuridão.

De súbito, a porta atrás de mim bateu, fechando-se com um estalo seco. Virei-me num salto e avistei apenas a porta agora cerrada, engolida pelas trevas do interior. Senti o pânico tomar-me de assalto; corri de volta e girei a maçaneta freneticamente. Trancada. Meus dedos tremiam ao soltar o metal frio. Então percebi um novo ruído dentro do apartamento: o som suave de unhas arranhando de leve a madeira, rompendo o silêncio espesso. Meu coração martelava descontrolado. No breu total, pareceu-me divisar um vulto deslizando pelo corredor adiante — uma forma ainda mais escura que a própria noite.

Procurei segui-lo, tateando o ar com os braços estendidos à minha frente. O chão parecia ceder sob meus pés, como se eu pisasse em nuvens, enquanto as paredes ondulavam ao redor, fugindo ao toque. Uma vertigem me tomou, como se eu houvesse adentrado um sonho que não era meu. Tentei chamar de novo, mas minha voz saiu embargada, mal formada. Em resposta, escutei bem atrás de mim um sussurro repetir exatamente as minhas palavras — um eco tardio, uma zombaria sombria que gelou até a última gota de coragem em mim.

De repente, silêncio absoluto. O ar pesava, opressivo; já não conseguia distinguir nem mesmo o bater frenético do meu coração naquele vazio infinito. Tateei a parede às cegas até encontrar a porta — agora entreaberta, como uma saída há muito esperada. Eu me lancei para fora, escapando para o corredor e quase tropeçando em meus próprios pés. Atrás de mim, a porta do apartamento vizinho permaneceu escancarada, escura e silenciosa. Não esperei nem um segundo. Corri de volta ao meu apartamento e, assim que cruzei a soleira, tranquei a porta com violência, ofegante.

Fiquei ali, colado à madeira, tentando recobrar o fôlego. Olhei ao meu redor, ainda envolto pela penumbra familiar da minha sala. Tudo estava exatamente como eu deixara: o sofá na semiescuridão, os móveis silenciosos em seus lugares. Por um instante, questionei se aquela incursão terrível acontecera de fato ou se não passara de um pesadelo febril. Mas a fina camada de pó em minhas mãos trêmulas era prova suficiente de que eu estivera lá dentro.

Mal começava a sentir o alívio precário de estar em casa quando ouvi um leve arranhar — vindo não da parede do vizinho desta vez, mas de dentro do meu apartamento, às minhas costas. O som inconfundível de unhas deslizando suavemente sobre a madeira vinha do corredor interno. Senti na boca um gosto amargo, o fel do medo tomando minha língua. Meu corpo congelou; não ousei nem respirar até que aquele ruído cessasse por si. Ainda assim, o ar ao meu redor continuou denso, carregado por uma presença invisível. Uma certeza gelada se insinuou em meu íntimo: aquilo me seguira. Atravessara a parede junto comigo e agora se escondia em algum canto das sombras do meu lar.

Não sei dizer por quanto tempo permaneci parado, colado à porta, até que por fim a exaustão conseguiu vencer o terror. Minhas forças me abandonaram, e acabei me arrastando de volta ao quarto, onde me deitei na cama. Os olhos ardiam pela insônia, e a mente, entorpecida, oscilava entre a vigília e o delírio. Teria eu trazido parte daquele sonho alheio comigo, ou agora era apenas um personagem aprisionado dentro dele?

A noite profunda já se dissolvia na alvorada quando fechei os olhos, sem obter nenhuma resposta — apenas com perguntas ecoando no vazio. Enquanto o sono finalmente me envolvia, ainda pude ouvir ao longe um último toc-toc, ecoando indistinto entre as paredes. Ao despertar — se é que de fato despertei — encontrei apenas o silêncio frio da manhã. Agora, já não sei de que lado da parede estou; se ainda sou aquele que ouvia o sonho ao lado ou se me tornei o próprio sonho.