Na madrugada silenciosa, um corpo jazia inerte sobre o frio concreto, banhado pela luz trêmula de um poste. O cenário era cortado apenas pelo brilho esverdeado da lâmpada solitária, enquanto a bruma fina erguia-se do chão em silêncio absoluto. Sobre o cadáver, o sangue formava poças escuras no chão; o cheiro metálico da morte impregnava a cena. Um corvo negro, plumas eriçadas pelo vento cortante, observava tudo imóvel. Em seus olhos dourados, profundos e impassíveis, refletia-se a tragédia prestes a ser esquecida.
O corvo empoleirou-se no poste próximo, fitando o corpo sem vida como se procurasse entender o horror diante de si. Em seu peito pesava o fardo de quem não tem voz, e em seus olhos sobrevoava o eco de um lamento antigo. Tentou falar, repetindo baixinho para si mesmo: “nunca mais… nunca mais…”. Seu grasnar rouco invadiu a quietude da madrugada, mas soou apenas como um som qualquer – inaudível aos ouvidos humanos apressados que passavam. O lamento do corvo ecoava apenas em sua própria alma, mas ninguém o ouvia.
Logo um policial surgiu, passo lento e resignado. Ele contornou o cadáver sob a luz trêmula, inclinando-o sem dizer uma palavra. O corvo acompanhou cada gesto: a mão do oficial no coldre, o lampejo quase imperceptível do rádio. Em silêncio, repetia em pensamento: “nunca mais…”. Mas o policial mal percebeu sua presença. Em sua mente cansada ecoava apenas: — “Mais um caso para arquivar.” Continuou em frente, selando o destino anônimo daquele cadáver.
Pouco depois, um professor cruzou a esquina, empunhando um guarda-chuva contra a garoa fina da madrugada. Carregava a pasta de trabalho e o rosto cansado mostrava a urgência de voltar para casa. Ele viu o policial parado ao longe e hesitou por um instante. O corvo repetiu então, alto e rouco: “NUNCA MAIS…”. O professor levou as mãos aos olhos em sobressalto, parecendo compreender a mensagem por um segundo — mas ninguém o ouviu. Suspirou e seguiu adiante, deixando o lamento do corvo desaparecer no vazio.
Da curvatura escura da rua surgiu então um médico, jaleco amarrotado, correndo em disparada em direção ao hospital. O suor grudava em sua testa e o peito arfava sob o esforço. Quando avistou o corpo, parou abruptamente. Sem hesitar, ajoelhou-se ao lado do cadáver e checou o pulso frio. Nada. Franziu o cenho e respirou fundo. Pegou o celular no bolso: — “Aqui é o médico do plantão. Encontramos um corpo desacordado na Rua X; confirmo ausência total de pulso.” Em seguida, desligou e seguiu em disparada, deixando o corvo repetir baixinho mais uma vez: “nunca mais…”.
Por fim, um jovem de fones de ouvido saiu em disparada da última boate aberta na rua, embalado pelas batidas eletrônicas que ainda ressoavam em seu peito. Caiu em sobressalto ao perceber o corvo imóvel sobre o poste. Tirou um fone de uma orelha e perguntou, inseguro: — “Ei… você falou alguma coisa?”. O corvo nada fez além de inclinar a cabeça. O rapaz pensou ter ouvido vozes em sua cabeça e riu, nervoso. — “Estou sonhando ou só preciso dormir mais?” murmurou, dando de ombros. Enfiou o fone de volta e seguiu em frente, fingindo indiferença. A última sílaba pousada na madrugada ficou apenas para o pássaro: “nunca mais…”.
A escuridão cedia lugar ao cinza suave do amanhecer quando as sirenes enfim romperam o silêncio. Viaturas cercaram a cena, iluminando cada mínimo detalhe com faróis cortantes. Peritos e investigadores chegaram munidos de lanternas e luvas brancas, medindo, fotografando, analisando o corpo sem vida. O corvo, empoleirado em uma árvore próxima, observava atento cada movimento. De longe ouviu as vozes frias:
— “Sexo masculino, sem documentos, sem testemunhas.”
— “Vítima desconhecida. Ninguém vai aparecer por ele.”
— “Mais um caso sem solução. Vamos arquivar.”
As conversas tornavam aquele crime apenas mais um item nas estatísticas da noite. O grito desesperado do corvo transformou-se em um sussurro rouco: “nunca mais… nunca mais…” — mas, como sempre, soou apenas no próprio vazio.
O dia nasceu lentamente no horizonte. O corpo foi recolhido às pressas e levado em silêncio, envolto em um lençol branco, para desaparecer no esquecimento de uma funerária qualquer. O corvo, exausto, alçou voo sobre as chaminés frias da cidade adormecida, levando consigo a última sílaba daquela noite sombria: Nunca mais. E com ele carregava o peso de todos aqueles que, como o cadáver solitário naquela esquina, haviam sido silenciados — sem nome, sem voz, sem memória.
