Na tradição clássica, o herói era a encarnação do bem, da coragem e da nobreza. Suas histórias seguiam trajetos previsíveis: enfrentavam desafios, superavam obstáculos e retornavam triunfantes, transformados. Ulisses, Enéias, Rei Arthur – todos representavam ideais a serem imitados. Mas a literatura, como espelho da humanidade, evolui. E com o passar dos séculos, especialmente a partir do século XIX, começamos a ver surgir uma figura mais complexa: o anti-herói.

O anti-herói não busca glória, não é guiado por virtudes heroicas, e muitas vezes nem quer estar onde está. Ele se mostra humano demais, marcado por hesitações, conflitos internos e escolhas questionáveis. É o caso de Bentinho, que narra suas angústias em Dom Casmurro, e de Raskólnikov, dividido entre sua teoria e sua culpa em Crime e Castigo. Não são modelos a serem seguidos, mas vozes que nos convidam à reflexão.

Essa figura ambígua revela uma nova sensibilidade literária: já não se trata de exaltar grandes feitos, mas de explorar os abismos da alma humana. O herói idealizado dá lugar a personagens que nos inquietam, justamente porque se parecem conosco – frágeis, inseguros, contraditórios. O anti-herói é o espelho de uma sociedade em crise, onde o certo e o errado não são mais absolutos.

Na literatura contemporânea, o anti-herói continua presente e atual. Ele aparece em romances, filmes, séries – muitas vezes cínico, irônico, perdido em um mundo que não entende. Ao contrário do herói clássico, que sempre encontra o caminho, o anti-herói caminha por trilhas incertas, muitas vezes sem saber se há um destino a alcançar. É a encarnação do humano em sua forma mais realista.

Dica de ouro: Ao estudar literatura, preste atenção à construção dos personagens. O anti-herói pode ser a chave para entender não só a narrativa, mas também o tempo histórico, as angústias sociais e as perguntas sem resposta que a obra carrega.